
Conceito de metamorfose descrito por Nietzsche em ‘Assim falou Zaratustra’ serviu de inspiração para trabalho de André (foto) em parceria com Luiz Fernando Medeiros (Fernando Priamo)
O desejo de complementação artística, de metamorfose criativa, levou os escritores e professores André Monteiro e Luiz Fernando Medeiros a se aventurarem por diversas formas de expressão e a filosofia de Nietzsche para chegarem a “Liubliblablá: Mastigações de um camelo”, que será lançado, nesta quinta-feira, na Livraria Liberdade. Além da sessão de autógrafos, a noite terá performance baseada nos textos do livro, que será realizada pelos autores e integrantes do projeto Verso em DISCOntrole (Bruno Tuller, Edson Leão e Gabriel Monteiro), além da cantora Juliana Stanzani e a percussionista Fabrícia Valle. Nicolas Rodrigues vai exibir um vídeo inspirado em “Liubliblablá”, e a banda Verônica Rasga o Ventre fará o show de encerramento.
Segundo André Monteiro, ele e Luiz – que se conheceram por meio do mundo acadêmico – há tempos acalentavam a ideia de escrever um livro com aquilo que chamam de “o outro”. “Esse ‘outro’ é fruto de todas as referências linguísticas e culturais que temos”, explica. “Ninguém é original, sempre há algo inspirado por outra pessoa. Fazer esse livro com outra pessoa é explicitar esse processo, e foi um objetivo nosso ver como funcionava criar de forma aleatória, sem um tema a priori. Um escrevia, e o outro complementava. Assim que chegamos ao que se tornou o livro. Ele foi feito a partir do escuro do encontro.”
Com isso, “Liubliblablá” passou a abarcar vários estilos de poesia, prosa, crítica, ensaio e outros elementos que podem surgir a partir da palavra escrita. Temas como cinema, geopolítica, terrorismo, micro políticas do amor e – por consequência – a psicopatia presente no capitalismo de consumo entrelaçam nas páginas do livro, cabendo a cada um ter sua visão sobre o que está contido em cada página. Esse entrelaçamento de pensamentos, sentimentos e opiniões acabou levando o projeto, de acordo com André, à ideia da desconstrução e reimaginação do conceito de camelo presente no livro “Assim falou Zaratustra”, do filósofo alemão Friedrich Nietzsche.
Nem sim, nem não
“O camelo é uma das três manifestações descritas por Nietzsche. Ele seria o animal obediente, de carga, que suporta e carrega o peso da cultura que lhe é imposta. Já o leão é a atitude crítica, de negação de cultura, enquanto a criança representa o ‘esquecimento’ que resulta na criação de cultura. Enquanto o primeiro diz ‘sim’, o segundo diz ‘não’, e a criança diz nem ‘sim’ nem ‘não’. O camelo sempre será necessário por trazer consigo a cultura, mas não queremos que seja apenas isso”, argumenta. “Acreditamos que ele está propenso à metamorfose, ninguém é, a princípio, apenas criança ou leão. O livro pode ser encarado como um monólogo do camelo a partir do momento que ele não aceita apenas um papel e se torna insubmisso”, diz André, para quem a obra pode ser vista como uma crítica à forma como o mundo acadêmico e outras áreas se preocupam apenas com o acúmulo de conhecimento, que não seria devidamente digerido e teria só caráter quantitativo e produtivista.
“A metodologia de criação do livro não deixa de ser uma crítica ao produtivismo acadêmico, que precisa chegar ao resultado esperado. É onde encontramos o que chamo de ‘camelo enfezado’, que acumula conhecimento e não cria. Queremos um outro tipo de camelo, que digere esse saber e o devolve de outra forma. Um exercício constante de ruminação, com os olhos livres da criança que está na expectativa da cultura por vir”, filosofa. Daí parte o nonsense do título, que André espera, assim como o livro, ter conclusões variadas por parte dos leitores. “O caráter errático de ‘Liubliblablá: Mastigações de um camelo’ já começa pelo título”, define o escritor.
LIUBLIBLABLÁ: MASTIGAÇÕES DE UM CAMELO
Lançamento do livro nesta quinta-feira, às 20h
Livraria Liberdade
(Rua Benjamin Constant 801)

