
Entre os produtos à venda, livros, CDs, DVD e uma camisa com a foto de Amy estampada ajudam a preservar sua imortalidade
Se Amy Winehouse encurtou o vestido e espichou o cabelo acreditando ser imortal, ela podia até estar com a razão. Sua forte presença física e a intensa atitude a favor do excesso são o que partiram no último sábado, deixando para trás rastros que não serão apagados tão facilmente. Sim, o mito permanece, e sua voz também. Afinal, a nova música popular profetizada por Amy – apesar de mesclar o sofisticado jazz ao clima dançante do soul – não sairia ilesa diante de tamanha genialidade. Amy não era pop, mas veio a se tornar popular, mesmo porque agrada bons entendedores de música e outros nem tanto.
Produtor do disco "Back to black", o inglês Mark Ronson comentou sua relação com a cantora em comunicado divulgado pelo site da BBC. "Ela era minha alma gêmea musical e como uma irmã para mim. Este é um dos dias mais tristes da minha vida." Por trás dos bastidores, Ronson parece ter sido o grande responsável pelo sucesso de Amy, que de um simples bairro londrino despertou para o mundo. "Com Amy, ele (Mark Ronson) trouxe de volta um estilo muito forte, aliás ele é um dos maiores da cena pop hoje", considera o designer Cléber Kureb, rascunhando o trajeto pelo qual Amy trafegou até o estrelato. "Ronson trabalha com cuidado para um pop cheio de referências e transita por vários públicos sem estranheza, pois tem uma estética muito apurada."
Enquanto observador da cena, Kureb fecha com parte dos espectadores que atribuem ao produtor do álbum que trouxe hits como "You know I’m no good", "Rehab", "Love is a losing game" e "Tears dry on their own" muito do que Amy lançou sobre os fãs. "Ainda vamos ouvir falar muito dele, por outro lado, ele deve muito a ela também, por ter se lançado como produtor ao seu lado", observa.
Enquanto a maioria dos artistas apela para a imagem a fim de garantir boas cotas no mercado, outros – bem poucos – têm a oportunidade de experimentar o sucesso tão de perto quanto Amy. "Não é só seu conceito estético, mas sua produção sonora também. Ela não se propôs a ser uma diva ‘farofa’, como estas que colocam um hit na rádio durante uma semana e depois desaparecem", sublinha Kureb, salientando ainda a maneira "bem cuidada" como Amy e Mark Ronson costuraram suas obras e suas vidas.
A despeito dos tablóides e a bateria de escândalos, Amy Winehouse conseguiu trilhar o caminho de outras divas, como Sarah Vaughan e Nina Simone. Elas são dois exemplos de vanguarda que também cantaram as desilusões amorosas da vida, tendo a morte como resultado de tamanha intensidade. "Hoje tem programas como o ‘Auto-tune’ que conserta a voz de todo mundo, e Amy é muito mais que isso. Ela não pertence ao circuito pop americano, mas nasceu num país com mais de dois milhões de anos de história."
Em acordo, o baixista Thiago Salomão (Martiataka) acredita que Amy deixa uma obra muito curta pela projeção que ganhou, o que sustenta sua "excelente qualidade como cantora e artista completa." O músico reconhece o quanto que a força da personalidade da cantora fica para quem é do ramo. "Embora ela tenha menos discos que o Martiataka", ele brinca, "temos um tesouro nas mãos de um estilo que não é o da moda, mas o do bom-gosto", afirma Salomão, insistindo que na contramão de quem busca só a imagem, há quem prime por qualidade.
Com trabalhos voltados para a área de moda e mídias digitais, a jornalista Liliane Turolla faz sua leitura do estilo múltiplo com que Amy se vestiu de roupas e tatuagens para transmitir o seu recado. "Não foi só esta linha anos 50 e 60 que ela adotou nos vestidos curtos e justos, mas também na maquiagem com toque retrô e romântico", detalha Liliane, exibindo as tatuagens tipo "oldschool", como as que Amy mantinha pelo corpo. "Ela prezava por este ripo de ‘tatoo’ mais tradicional, aquelas de marinheiro mesmo", ela exemplifica.

