Tinha uma pedra… Para quem passava pela Praça João Pessoa, em frente ao Cine-Theatro Central, em meados de 1985, ela estava bem no meio do caminho. Já para aqueles que passavam pelo mesmo local no ano seguinte, "tinha uma pedra", mas nem as "retinas tão fatigadas" conseguiam perceber a rocha, já que servia de banco aos engraxates que integram a paisagem do lugar. A tal pedra, fundamental como marco de um movimento vencido, hoje é apenas matéria bruta, de volta a sua origem primeira. Símbolo de uma manifestação contra a demolição do Palácio do Bispo, o pequeno fragmento mineral de pouco mais de 70cm de altura e 40cm de largura, preserva uma inscrição um tanto quanto inquietante: "À memória de Juiz de Fora antes que tarde".
Localizada no Parque Halfeld, ao lado do parquinho, no passeio da Rua Santo Antônio, a pedra é apenas mais uma aos que passam. Para o jornaleiro da frente, ela nunca chamou muita atenção. Para um jovem morador da redondeza, "ela nasceu ali". Já um passante, que, no exato momento da foto, decidiu sentar-se no banco ao lado dela, desconfia de alguma importância. Completamente integrada ao espaço, inserida justamente nas bordas do canteiro do espaço infantil e pousada com tal segurança a fim de não balançar, a pedra é monumento.
Aproveitando-se de um dos cartões postais de Juiz de Fora – o Cine-Theatro Central, que aguardava tombamento -, artistas se reuniram, em 1985, para um ato de protesto contra a demolição do belo palácio episcopal, morada do bispo, situada na Avenida Rio Branco 2.872 (hoje um edifício comercial). Do Bairro Barbosa Lage, região Norte da cidade, um escultor desconhecido levou a grande pedra numa caminhonete, parou o carro na Rua São João (na época, ainda com trânsito livre para veículos) e, com grandes troncos, rolou a rocha até a frente do teatro.
Segundo o engraxate Sebastião Pedretti, há 52 anos trabalhando na Praça João Pessoa, a tal pedra poderia ter sido uma brincadeira de alguém, ele não se lembra ao certo do momento em que a instalaram. "Lembro-me vagamente dela, ela ficava sempre no mesmo lugar", conta, recordando que o local era bastante frequentado por intelectuais, como Dormevilly Nóbrega, um dos assíduos do antigo Bar Salvaterra, logo à frente.
Já José Maria de Almeida, cabeleireiro desde 1975 na galeria Ali Halfeld, ao lado do teatro, comenta que, durante a manifestação, os envolvidos citaram vários outros imóveis preservados e reivindicaram o tombamento do Palácio do Bispo. "Me lembro do ato, não era estardalhaço. Era uma manifestação feita com a sensibilidade devida", pontua, dizendo não saber sobre o paradeiro da tal pedra.
Vestígio de resistências
Dias depois do ato, que segundo registros não reuniu mais que 20 militantes, a pedra foi encostada num canto e por lá ficou, até que, no início da década de 1990, quando o Cine-Theatro Central começou a ser negociado pelo Governo Federal, a rocha foi transferida para outro endereço. Segundo Ilson Marques Pinto, aposentado que sempre batalhou pela preservação do patrimônio local e um dos envolvidos no ato, a retirada do mineral foi feita numa ação que visava limpar a área para a visita do então Ministro da Educação Murilio Hingel, que, em 1994, foi o responsável pela federalização do Cine-Theatro Central.
"Essa pedra é o símbolo de uma luta", proclama Pinto, que, desde a criação do pequeno monumento, toma conta de suas condições. Hoje, aos 82 anos, sugere a fixação de uma placa próxima a sua instalação, reunindo informações sobre o período e a história em que foi projetada. "Mesmo na época, não sei se a população entendeu. Ela ficou como um marco, mas, no meu entendimento, não colou", pondera o artista plástico Ramon Brandão, outro integrante da manifestação.
De acordo com o também artista plástico Amaury de Battisti, o mineral faz uma alusão ao que incomoda, e sua relevância está no vestígio memorialístico de uma resistência. "Não eram muitas pessoas, mas foi um movimento interessante. Lembro-me de participar disso tudo pela memória, mas sem saber muito o porquê", revela, apontando que o ato acabou contribuindo para acelerar outra demolição dolorosa, a da Capela Galeria de Arte, originalmente Capela do Colégio Stella Matutina, na Avenida Rio Branco, esquina com a Avenida Presidente Itamar Franco. Segundo ele, o movimento despertou a corrida de proprietários de imóveis históricos para evitar uma onda de tombamentos.
Ronaldo Couri, artista plástico e um dos principais atuantes contra a destruição da capela, recorda-se de estar na manifestação em frente ao Cine-Theatro Central num sábado pela manhã. Para ele, a pedra confirma que hoje os tempos são outros. "O mundo emburreceu. A arte está cada vez mais segmentada, dividida em guetos", comenta, referindo-se ao vigor e à união dos artistas da década de 1980, que, muito mais que os poetas (aglutinados em saraus e revistas), envolviam-se com panelas nas mãos em prol do que achavam necessário permanecer como arquitetura de Juiz de Fora, a exemplo do Palácio do Bispo.
"Hoje, os valores são transitórios", dispara Couri, como a justificar a falta de prestígio da pedra, que em outro tempo serviu como poesia para uma ação política. "O momento hoje é diferente. Talvez antigamente as pessoas fossem mais românticas", conclui Amaury de Battisti. Romantismo à parte: "À memória de Juiz de Fora antes que tarde".
