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‘Um sonhador em atividade’: familiares e amigos refletem sobre o legado do fotógrafo Cerezo

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Antônio, o Cerezo (Foto: Humberto Nicoline)

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Thais e Maria, filha e esposa de Cerezo (Foto: Humberto Nicoline)
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Descrito pela família como “um cara simples, bondoso e de riso fácil” e pelos colegas e amigos como “um contador de histórias visuais”, Antônio Olavo Matos, conhecido como Cerezo, marcou a cobertura fotográfica de Juiz de Fora e além por décadas, recebendo prêmios e participando do registro de importantes eventos da cidade. Quinze anos após seu falecimento em 2011, a Tribuna, lugar onde trabalhou por anos, reuniu depoimentos sobre seu legado e impacto que vai para além da profissão.

“Em um tempo em que o acesso à informação era muito mais limitado do que hoje e o jornal era uma das principais fontes de circulação de notícias e informação, principalmente dentro de Juiz de Fora, as reportagens mais importantes eram seguidas por uma fotografia, que ilustrava a reportagem. Era necessário que o repórter fotográfico soubesse transmitir em uma imagem a informação, a sensação, o acontecimento. O peso imagético era muito grande, e o meu pai dominava isso”, conta Thaís Alves Ribeiro Matos, filha de Cerezo.

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Com fotografias premiadas, a história de Cerezo se entrelaça com a da cidade. Ele participou da cobertura de eventos de destaque em Juiz de Fora, como o sequestro da Rua das Margaridas, em 1990, e o último jogo do ídolo Zico pelo Flamengo, time do coração, no Estádio Municipal Mário Helênio, em 1989. “Lembro de diversas vezes em que alguém me parou falando: ‘Vi a foto do seu pai na capa do jornal’. Penso que parte do público criou uma certa relação com algumas histórias por meio do olhar dele, e acho isso muito legal”, relata, com carinho, Thiago Alves, também filho de Cerezo.

Sequestro da Rua das Margaridas (Foto: Cerezo/Arquivo TM)

Aos olhos do fotógrafo

“Os registros fotográficos do meu pai se destacavam porque ele não era imparcial. Ele buscava transmitir o olhar dele através da fotografia. E esse olhar, além de crítico, era denunciativo”, acredita Thaís. Foi essa visão única que transformou Cerezo em um fotógrafo de destaque, que utilizava sua lente como ferramenta essencial para demonstrar uma realidade.

(Foto: Cerezo)

Wendell Guiducci, ex-editor da Tribuna, relembra como foi trabalhar com o fotógrafo: “Cerezo era um sedutor. Onde chegava, em qualquer pauta que fosse, os entrevistados já se rendiam a ele. Era o famoso ‘boa praça’. Excepcional parceiro de coberturas, era o tipo de profissional que melhorava a pauta de quem trabalhava com ele”.

“E tinha um olhar muito particular para captar a realidade e traduzi-la em imagens. Tentava captar aquele cerne do fato que o resumia e expandia. Um contador de histórias visuais”, completa. Thiago, o filho, também destaca o idealismo que fazia parte da atividade de Cerezo e o guiava na profissão. “Era realmente um sonhador em atividade”, tinha muita paixão pelo que fazia e acreditava na união da classe profissional para a valorização do trabalho.

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Cerezo foi homenageado postumamente na mostra “Foto 14″, realizada pela Funalfa. Em tributo, a curadoria destacou como ele “se dedicou profundamente por mais de 20 anos, reportando imagens de todos os tipos”. O texto segue: “Teve a oportunidade de expor seu jeito criativo e sensível de olhar o cotidiano, transmitindo seus extremos, do crime à religiosidade, das belezas das paisagens natural e urbana às catástrofes e ao submundo”.

Marcelo Ribeiro, que também trabalhou com Cerezo na Tribuna, conta que “ele era grande, dono de um humor único”. “Às vezes explosivo, tinha uma risada larga, um vozeirão grave e um nariz que, segundo Roberto Fulgêncio (ex-editor de fotografia da Tribuna), era ‘capaz de proteger a câmera durante a chuva’. O apelido Cerezo vem de sua semelhança com o ex-jogador. Uma imagem que contrastava com seu olhar sensível, atento aos detalhes, com sua seriedade e dedicação em perceber e registrar aquilo que escapa da visão comum.”

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‘Minha grande aventura com Cerezo’

“Meu pai era curioso, inquieto. Ele não precisava ser acionado pelo jornal para tirar uma foto histórica. Ele andava, sempre que possível, munido com o equipamento dele. Ele transformava as oportunidades em registros. Acredito que isso também destacava o trabalho dele: ele parecia estar sempre pronto”, conta Thaís.

Na foto, Thais, Cerezo, Maria Magdalena (esposa de Cerezo) e Thiago (Foto: Arquivo da família)

Marcelo Ribeiro também conta do “sabão” que recebeu, compartilhando o bom humor de Cerezo. “Estávamos conversando se, com o Photoshop, dava para fazer uma carteirinha de estudante pra tentar ir a um show. Partiu de ‘muito me admira vocês, jornalistas formados, pensarem num absurdo desses’ e seguiu em uma fumada sem fim, com ele cada vez maior na sala, e a gente se encolhendo a cada palavra, quase desaparecendo de vergonha.”

Mas o que fica mesmo são os ensinamentos. “Meu aprendizado com o Cerezo começou acompanhando-o na cobertura de jogos do Tupi, no Estádio Municipal, principalmente à noite, para entender a dificuldade de fotografar o movimento em condições de baixa luminosidade. Apaixonado pelo Flamengo, ele era um mestre na cobertura do futebol”, continua Marcelo.

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Zico autografando a foto tirada por Cerezo. Na foto, estão Zico, Cerezo e Tarcísio Delgado (Foto: Arquivo família)

Eterno flamenguista, Cerezo conseguiu entregar à mão a foto que fez de Zico em seu último jogo. “Essa fotografia está guardada em um quadro lá no meu centro de futebol, no último andar, onde eu tenho alguns troféus, e a gente, quando joga nossas peladas lá na quarta-feira, depois vai lá pra cima, onde tem um bar temático com alguns troféus, fotos e um painel com autógrafos de muitas celebridades que passaram por lá, e uma dessas fotografias é aquela que ele me deu, comigo comemorando o gol”, relatou o ex-jogador em uma entrevista à Tribuna.

Ainda falando sobre coberturas ao lado de Cerezo, Wendel conta de sua “grande aventura”, e ainda admite que não foram poucas. Uma delas foi a do Green Rock Festival, em 2002, em Palma. Os dois cobriram os shows de bandas como Sepultura, Ira! e Raimundos. “Cerezo já havia feito a cobertura dos grandes festivais de rock de Juiz de Fora, nos anos 1980, contava altas histórias daqueles shows, e vê-lo em ação em Palma foi uma aula. Foram dois dias intensos, inesquecíveis ao lado e à sombra dele.”

E a história de Cerezo segue guardada, seja nas páginas de jornais, nas histórias de coberturas ou nas paredes da própria família – tudo para eternizar um olhar sensível e político, como conta a filha. “Meu marido fez um trabalho de recuperação e salvaguarda dos arquivos digitais do meu pai. Guardamos também muitas fotografias físicas. Nas paredes de nossas casas, tanto na minha quanto a do meu irmão, há uma grande fotografia do meu pai, exposta na sala. Na casa do meu irmão, uma foto mais artística, que meu pai tirou no Museu Mariano Procópio. Na minha, a última foto encontrada na memória da câmera dele: uma fotografia de Ouro Preto.” O fotógrafo morreu logo após essa viagem, em 24 de abril de 2011.

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*Estagiária sob a supervisão da editora Cecília Itaborahy

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