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Tudo em uma só palavra

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Em 2003, um grupo de bailarinos, disposto a lançar perguntas ao mundo, quis provar que podia dançar por conta própria, que sabia lidar com os próprios erros e que devia tratar a arte como necessidade. Juntou tudo isso em uma única palavra e criou a primeira versão do espetáculo Kindskeajentenundança. Alguns anos depois, a companhia Inércia Zero retoma o projeto, acrescentando nele um subtítulo: entre territórios.

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No próximo dia 3 de maio, a trupe apresenta, no Teatro Pró-Música, o resultado da imersão em um cotidiano cheio de particularidades. Por mais de um ano, a diretora Sylvia Renhe comandou uma pesquisa em uma fábrica de plásticos da cidade. Queríamos descobrir a dança que existia naquele dia a dia. Durante o processo, que contou com oficinas, os funcionários do espaço sugeriram que passos de street dance entrassem nas aulas. U. Miranda, da Companhia Remiyl Street Crew, foi convidado a participar do trabalho. Acabamos misturando tudo. Falamos de vários territórios, inclusive a rua, avisa Sylvia.

Kindskeajentenundança – entre territórios tem 55 minutos de duração e patrocínio da Lei Murilo Mendes. Leonardo Lima, Ricardo Visciano e Wellerson Alves estão em cena ao lado da diretora. A iniciativa também foi acompanhada pela pesquisadora Gabriele Generoso, que pretende revelar ao público as especificidades da criação por meio de palestras. Foi um ano longo, doloroso e bom, comenta, satisfeita, Sylvia, que passou por uma cirurgia de ovário em 2010.

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Ao iniciar a proposta, a Inércia não imaginava o que iria produzir. Correndo contra o tempo por conta das datas limites estabelecidas pela Lei Murilo Mendes, a companhia percebeu que havia muitas semelhanças entre ela e a realidade observada. Os dois universos lidam com as questões de tempo, risco, precisão, interdependência, diz Sylvia, acrescentando que, se a fábrica funciona 24 horas por dia, o elenco vem trabalhando desde fevereiro de 2010, sem direito a folga aos finais de semana.

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Durante brincadeiras com restos de plásticos nos ensaios, o elenco teceu um vestido no corpo de Sylvia. O embrulho verde, refeito para foto, acabou se transformando em um dos figurinos criados por Carol Bianque. Em cena, o modelito laranja sairá de uma bobina. Todas as criações de Carol fazem alguma referência ao plástico e aos uniformes usados pelos empregados. Botas e luvas desafiam a performance dos bailarinos.

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Três homens e uma mulher estão no espetáculo. Sem querer, a maioria masculina acabou coincidindo com o cenário estudado. Na fábrica, o grupo teve contato com a reciclagem e passou a refletir sobre a ideia de transformação. Na dança, uma coisa sempre vira outra coisa, lembra Sylvia. Um dos bailarinos, Wellerson Alves, ostenta uma tatuagem com o famoso símbolo, no sentido anti-horário. Em uma coreografia, ele, de luva, faz todos os movimentos de mãos dadas com a diretora.

Depois de reconhecer o espaço, a companhia ofereceu uma oficina de dança aos funcionários da fábrica. Pedíamos que eles reproduzissem seus gestos de trabalho sem utilizar as máquinas, conta Sylvia. A partir daí, a pesquisa se desenvolveu baseada nos movimentos e nos materiais encontrados naquele cotidiano. Todo o processo foi registrado por uma câmera e visto inúmeras vezes durante os ensaios. Partituras corporais passadas para o papel também ajudaram o grupo a acertar os detalhes. Aliás, tudo é milimetricamente programado, inclusive o lugar das botas em cena.

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