Nenhum mistério envolve o lançamento do livro "O homem que não queria ser papa", do alemão Andreas Englisch. Apesar de ter chegado às prateleiras no curto período que separa a renúncia de Bento XVI e o conclave para a escolha de um novo nome, a obra não é fruto do inesperado ato de Joseph Ratzinger. As 560 páginas que contam a vida do pontífice apenas se aproveitam do momento histórico. Agilidade semelhante gerou "Francesco, un papa dalla fine del mondo" ("Francisco, um papa do fim do mundo" em livre tradução), do italiano Gianni Valente, impresso enquanto José Mario Bergoglio, o papa Francisco, colocava o anel de São Pedro que o "coroava" como a autoridade máxima do catolicismo. Sem deixar o clima esfriar, uma enxurrada de biografias chega às prateleiras ao redor do mundo, perseguindo a mesma urgência do jornalismo e confirmando-se como fatia rentável no mercado editorial.
Publicado em 2006 na Alemanha, o livro que serviu como ponto de partida para "O homem que não queria ser papa", teve sua tradução para o português concluída em dezembro passado e estava na grade de produção da editora com previsão de lançamento para junho. "Lançá-lo agora foi uma decisão comercial. Era o assunto de todas as pautas", comenta Márcia Batista, à frente da editora Universo dos Livros, que já havia conseguido os direitos autorais de "O papa dos milagres: João Paulo II", também de Englisch.
Última parte do processo de publicação, o título – ao contrário do que se supõe inicialmente – surgiu naturalmente, a partir da constatação da editora sobre a coerência do primeiro capítulo da obra. "O livro retrata toda a trama por trás do pontificado de Bento XVI. Existe, ali, um relato do crescimento de Ratzinger como papa e a demonstração de que ele nunca teve vocação para isso", explica Marly Peres, responsável pela preparação dos originais e autora da apresentação presente na quarta capa. "A renúncia é profundamente coerente com o livro. Achei que ele fosse enfrentar, mas deu um tapa de luva de pelica no Vaticano, o que é digno de um erudito", reflete Marly, que mesmo não sendo católica diz ter se afeiçoado à trajetória do personagem.
Na recente lista dos mais vendidos de não-ficção das revista "Veja" (na sétima posição) e "Época" (oitava posição), além de apontado pelo portal PublishNews, especializado no mercado do livros, como a sétima obra de maior comercialização na última semana, "O homem que não queria ser papa" confirma a boa fase do gênero no país. "O público tem interesse por saber sobre essas pessoas que estão na mídia. É um filão que tem uma boa resposta do leitor e um ótimo resultado", afirma Márcia, que já lançou biografias ilustradas das bandas Iron Maiden, McFly e One Direction, além do personagem mexicano Chaves. Para Martha Ribas, editora da Casa da Palavra, "muito importante comercialmente é quem é o biografado e, por vezes, quem é o biógrafo".
"Por uma isca, que era a oportunidade, descobri uma história incrível que ninguém supõe", conta Guilherme Fiuza, autor do sucesso "Giane: Arte, vida e luta", sobre a trajetória do ator Reynaldo Gianecchini. Com um prazo de quatro meses nas mãos – a editora desejava lançar no Natal de 2012, mesmo ano em que o ator se curou de um raro câncer – e um personagem ainda desconhecido por ele, Fiuza encarou o desafio, mas sem a ambição de criar o que veio a ser sua maior obra. Após concluir mais de 50 horas de entrevistas com artistas como Claudia Raia e Carolina Dieckmann, familiares, amigos, colegas e o próprio biografado, além de ter uma vasta pesquisa documental e iconográfica, o jornalista e escritor foi seduzido.
As pouco mais de 300 páginas revelam, segundo o autor, um Gianecchini mais humano, sensível e extremamente complexo. "Ele é a estrela mais improvável das que brilham atualmente", aposta, comentando a história instigante que há por trás do já conhecido drama de um jovem ator que supera uma doença rara. Assumindo o termo criado pelo escritor Antônio Torres para sua literatura, Fiuza diz fazer "romance-verdade". "Não coloco a historiografia em primeiro lugar. O mais importante é o romance, a emoção", explica, justificando a ausência de detalhes descritivos em sua produção, que reúne outros títulos de grande repercussão, como "Meu nome não é Johnny" e "Bussunda – a vida do casseta".
O romanceio da vida real, obviamente atento em se fidelizar aos fatos, apontado por Fiuza, é parte da liberdade linguística indicada por Denilson Monteiro na artesania das biografias. "Quando escrevo estou como espectador daquilo que conto. Tenho muita preocupação em construir um texto. Jogo com as informações que tenho", explica o autor dos livros "Dez! Nota dez!: eu sou Carlos Imperial", "A bossa do lobo: Ronaldo Bôscoli" e o recente "Divino Cartola: uma vida em verde e rosa".
Para desconstruir mitos
De acordo com Monteiro, existe um problema sério no Brasil em relação à não ficção que retrata a vida de personalidades. "As pessoas acham que uma biografia encerra a história do retratado e não dá para esgotar um assunto", critica. Segundo ele, há diferentes penas para uma mesma escrita, tendo em vista as inúmeras possibilidades de pesquisar um mesmo tema. "O processo de apuração sempre é muito complicado. É braçal, requer dedicação, é preciso mexer com muita poeira", relata ele, que, como muitos outros biógrafos, partiu do jornalismo rumo à literatura. "A fase jornalística de uma biografia, a apuração, é o preço que pago para poder escrever", resume Guilherme Fiuza.
Autor de "O real Itamar", o juiz-forano Ivanir Yasbeck conta ter se surpreendido ao iniciar o processo de investigação da biografia do presidente da República que substituiu o deposto Fernando Collor de Mello. Encomendada para as convenções partidárias de 2010, a história só chegou às prateleiras três meses após a morte de Itamar, ocorrida em julho de 2011. "O último capítulo foi o mais doloroso, mas ao mesmo tempo o mais simples", conta, afirmando ter feito cinco longas entrevistas com o político.
Surpreso com a tímida repercussão da obra – que, para ele, se deve às constantes manifestações contrárias à Itamar -, Ivanir enfrentou o desafio de, ao detalhar uma vida, ser obrigado a traçar a trajetória de um país. "O livro é rico em informações jornalísticas. Não há um dado que se possa contestar", argumenta ele, que assinou ainda as obras "O colunista", sobre o colunista social da Tribuna César Romero, e "Uma noite no Raffas", no qual apresenta o histórico bar local. "A verdade é que toda história oferece um romance", defende, apontando que é indispensável saber fazê-lo.
À procura desses melhores romances, a editora Martha Ribas conta com a ajuda do empresário Ricardo Amaral, idealizador de badaladas casas noturnas do Rio de Janeiro. "Temos um curador que se dedica a captar nomes de peso. O rei da noite é também o rei dos livros", brinca. Segundo a preparadora de originais Marly Peres, a importância mercadológica das biografias está no perfil de leitores do Brasil, que se interessam muito mais por livros de autoajuda. Considerando que nas sublinhas dos relatos de uma vida se escondem grandes lições cotidianas, Marly pondera que o gênero é um dos poucos que conseguem conciliar leitores eruditos com outros menos letrados.
Contudo, Martha aponta para dificuldades no processo de produção desses textos, que prescindem de aprovação dos familiares do personagem para que sejam publicados. "Sempre procuro os parentes antes. Se não concordarem, não vou ser aventureiro", comenta Denilson Monteiro. "Hoje, com a lei das biografias que vigora no país, todo cuidado é pouco", concorda Martha. O artigo 20 do Código Civil Brasileiro de 2002 permite a proibição de publicações que exponham figuras públicas. Proposto pelo deputado paulista Newton Lima, o projeto de lei 393/2011, que visa garantir a divulgação de informações sobre personalidades nacionais, ainda está sendo analisado pela Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania e, em seguida, deverá ir à votação na Câmara dos Deputados.
