Ouvir história é coisa para criança? Certamente não, se depender das crenças do Contaê Histórias. O grupo, formado por Cintia Brugiolo, Carol Tagliati e Kadu Mauad, deu início na segunda-feira ao projeto Contaê na peri, que visa a abrir caminhos ao diálogo e às trocas culturais entre os integrantes e jovens de escolas municipais da periferia de Juiz de Fora, com o apoio da Lei Murilo Mendes.
Mudar um caminho escolhido, modificar uma conduta em nós mesmos, alterar sociabilidades, afetos, relações consigo, com o outro e com o mundo. A ideia é despertar quereres através da experiência da criação, da descoberta da sensibilidade e da beleza que há em cada um. Para isso, 20 escolas, localizadas propositalmente em diferentes regiões da cidade, receberão oficinas de vivência artística com variadas formas de contação de histórias – narrativas em colagens, escrita criativa e contação oral. A primeira instituição visitada foi a Lions Centro, no Bairro Graminha.
Não por acaso, os jovens que frequentam o 8º e o 9º nas instituições, com faixa etária entre 13 e 14 anos, foram escolhidos para participar da proposta, que deve atender uma média de 360 alunos de forma direta. O objetivo é ir direto à idade em que há uma certa resistência e mudar a mentalidade de que ouvir e contar histórias é coisa para criança, além de dar a eles ferramentas para que possam, indiretamente, propagar essa vivência, diz Cintia Brugiolo, destacando ainda a deficiência de projetos do gênero em tal faixa etária.
Normalmente, acaba-se visando um público mais novo. Durante os dez anos que dei aulas de teatro, me chamou muito a atenção a transformação sofrida por aqueles que já eram jovens quando começaram a se envolver com a arte. Vi seu comprometimento, sua transformação em um público mais crítico, que consegue descobrir formas diferentes de se expressar, avalia.
Levando em conta a concorrência imposta pelas novas tecnologias e sua presença massiva na vida dos adolescentes, os contadores se propuseram a pensar em artifícios que pudessem chamar e prender a atenção de tal público. É necessário investir bastante nos recursos visuais, e buscamos elaborar todo o material que vamos usar. Claro que um fantoche feito para um adolescente não pode ser o mesmo que os que agradam as crianças, por exemplo. São personagens diferentes, que podem trazer uma aparência chamativa, com a qual se identifiquem, observa Cintia.
Outro ponto positivo da iniciativa é o fato de sua participação se dar por adesão, fora do horário de aula. O que é imposto tende a ser recebido com certa resistência. O que queremos é dar uma opção diferente àqueles que realmente quiserem se envolver, acredita a contadora. As oficinas são oferecidas no contraturno escolar, acontecendo às terças e quintas, das 13h às 16h (uma semana por escola, com carga horária de seis horas cada).
Terminadas as oficinas, será a hora de fazer o caminho inverso, segundo os contadores, levando a periferia ao Centro da cidade. A vivência do projeto será registrada pelas lentes do fotógrafo Pedro Fonseca, e o processo dará vida a uma mostra fotográfica, exposta no segundo semestre em uma galeria no Centro da cidade, que ainda será definida. Em nossos questionamentos, chegamos à conclusão que a beleza, a despeito dos padrões de massa, pode estar na espontaneidade do jovem em seu processo criativo, quando ele se sente pleno, fazendo algo que o toque a fundo, o que pode acontecer por intermédio da arte. Durante a exposição, os participantes serão levados para vê-la, podendo se reconhecer no processo e ainda frequentar as demais exposições da galeria.
