Foi no dia 1º de abril de 2010 – o Dia da Mentira – que, no trânsito engarrafado do Centro da cidade, a até então engenheira juiz-forana Carol Sabar teve a quase miragem do ator inglês Robert Pattinson (famoso e idolatrado pelas garotas depois de dar vida nas telonas ao vampiro encantado Edward Cullen, da Saga Crepúsculo) passando óleo bronzeador nas pernas de uma fã.
Das gargalhadas solitárias provocadas pela imagem insólita ao primeiro capítulo da trama que se desenrolaria a partir da cena, passaram-se apenas quatro dias. A partir disso, foram somente mais sete meses de trabalho contínuo até que a agora também escritora Carol Sabar pusesse o ponto final no romance Como (quase) namorei Robert Pattinson, publicado pela Editora Jangada, que será lançado nacionalmente hoje, com noite de autógrafos a partir das19h, na Livraria Saraiva do Independência Shopping. Cerca de um ano e meio depois da primeira ideia divertida e mirabolante, o livro se tornou verdade.
A narradora do romance em estilo chick lit também é mais verdadeira do que muito personagem de ficção por aí. Afinal, a estudante de jornalismo Duda Carraro, uma jovem de 19 anos completamente obcecada por Crepúsculo, é praticamente um arquétipo de todas as fãs que sonham em namorar seu ídolo. Ou quase. A internet foi minha grande fonte de pesquisa. Passei horas e horas observando o comportamento dos fãs nas redes sociais, a maneira como interagem uns com os outros, como reagem às fofocas sobre a saga e os atores envolvidos. A Duda é uma mistura dos tipos mais comuns de fãs que encontrei por aí, conta Carol. E a mobilização dessas garotas na web é tão intensa que o romance da mineira ganhou adeptas na rede antes mesmo do lançamento, ainda mais no momento em que acaba de estrear o quarto filme da franquia.
A cena que abre a narrativa – justamente aquela do Dia da Mentira, em que as mãos de Robert Pattinson espalham óleo bronzeador pelas pernas da personagem – bem poderia, de fato, ter povoado os sonhos cheios de alucinações de qualquer uma dessas meninas deslumbradas pelo vampiro romântico criado pela escritora Stephenie Meyer e seu intérprete no cinema. Por isso, quem se enquadra nessa categoria vai (quase) se identificar com a história de Duda. Quase porque, do devaneio inicial em diante, a garota dá início a uma trajetória única durante uma temporada de estudos em Nova York, onde conhece o misterioso Miguel Defilippo, seu vizinho na Ilha de Manhattan. Como se não bastasse ser apaixonante por si só, o rapaz é, nada mais nada menos, do que a cara de Robert Pattinson. E é esse sósia ambíguo que acaba por se tornar um desejo ainda mais inacessível para Duda do que o próprio astro de Hollywood.
A verdade é que, até encontrar Miguel, a jovem Duda vive um paradoxo entre delírio e realidade. De um lado, sua porção (quase) adolescente faz com que ela não queira mais nada da vida a não ser suspirar por Pattinson, abrindo mão de qualquer coisa – dos garotos de carne e osso às baladas com as amigas – só para gastar seu tempo lendo (uma vez mais) os quatro romances da saga ou assistindo (pela enésima vez) aos filmes que reproduzem a história de amor entre a humana Bella Swan e o vampiro Edward Cullen. Duda é literalmente viciada na saga Crepúsculo, assim como a grande maioria das adolescentes de hoje, resume a autora.
Na outra ponta desse conflito pessoal, marcado por muito humor e muitas reviravoltas, seu lado (quase) adulto a leva a esconder a obsessão atrás de um perfil falso na internet, batizado de Crepuscólica, único meio de ela interagir com outras fãs do moço sem posar de imatura para as pessoas não virtuais a sua volta. No livro, por meio desse perfil falso, Duda se comunica com outras fãs da saga que, assim como ela, estão totalmente convencidas de que não há garoto no mundo que valha um dente canino de Edward Cullen, conta a autora.
Numa cultura que ao longo de décadas, ao menos em se tratando da produção literária nacional, privilegiou o livro como obra de arte, de denúncia ou espaço para experimentação, catarse ou reflexão e desvalorizou-o como um despretensioso objeto de lazer, o constrangimento de Duda é tudo, menos mentira. Mas essa não é a única explicação encontrada pela escritora para justificar o fenômeno. Algumas fãs têm vergonha de admitir que gostam de ‘Crepúsculo’ por se tratar de uma história de amor incondicional inserida numa época em que muitas vezes o próprio amor é ridicularizado ou tachado como desimportante em comparação a outras questões, como as profissionais, por exemplo, observa Carol. Além disso, com a popularização do Crepúsculo, a saga ganhou ares de ‘historinha clichê’ e isso, acredito, contribuiu para aumentar a sensação de desconforto em se assumir fã.
Para fãs assumidos ou não, o fato é que Como (quase) namorei Robert Pattinson tem todos os ingredientes para arrancar boas risadas dos leitores, e mesmo aqueles que não são entendidos de vampiros brilhantes podem esperar se divertir com a narrativa leve e bem-humorada de Carol. A habilidade com os números dessa engenheira formada na UFJF, de apenas 27 anos, juntou-se ao talento com as letras para criar uma intrincada comédia, repleta de peripécias e novas incógnitas de suspense a cada capítulo, mas na qual nenhum problema é deixado sem solução. A única ponta solta do livro é a deixa para uma possível continuação para a saga de Duda, não descartada pela escritora que se transformou rapidamente na única aposta nacional da Editora Jangada, selo recém-lançado do centenário Grupo Editorial Pensamento, de São Paulo. Resta saber o que, para uma crepuscólica, pode ser ainda melhor do que namorar Robert Pattinson.
LANÇAMENTO
Hoje, às 19h
Saraiva
(Independência Shopping)
