“É um filme despretensioso e que quer contar uma história de maneira singela, sem menosprezar a inteligência do público, sem apelar para algumas forçações de barra. Acredito que esse seja o principal motivo para o bom resultado”, arrisca o diretor, que estará em Juiz de Fora nesta semana para participar da 14ª edição do Primeiro Plano – Festival de Cinema de Juiz de Fora e Mercocidades. Na abertura, agendada para o dia 26 de outubro, às 20h, no Cinearte Palace, além de “O último cine drive-in”, terá o curta “Um pouco a mais”, de Aleques Eiterer, diretor geral do evento.
Na temporada de 2015, serão exibidas mais de 30 horas de curtas e longas não só no Palace, sede oficial, como também no Centro de Artes e Esportes Unificados (Praça CEU) e Centro Cultural de Benfica. Nas mostras competitivas Regional (que reúne realizadores de Juiz de Fora e Zona da Mata) e Mercocidades (envolvendo produções da América do Sul), o espectador terá a chance de assistir a 50 curtas no total. “Você não consegue destacar uma coisa só. Temos de tudo. Uma característica em comum que os filmes trazem é a linguagem mais realista. Além de nos preocuparmos com a qualidade das produções, procuramos, na curadoria, mostrar essa diversidade, o que essas pessoas estão dizendo. Existe essa preocupação de fazer um panorama bem amplo dessas novas linguagens que estão surgindo”, ressalta Aleques, fazendo questão de enfatizar que a programação engloba debates e oficinas. “Sempre falo que festival não é só exibição.”
Memórias de infância
Brasiliense, Iberê, ao lado do roteirista Zepedro Gollo, volta as lentes para suas memórias. “Todo filme que você faz acaba tendo muito de sua própria história. Frequentei muito o drive-in daqui, mas não chega a ser uma autobiografia ou qualquer coisa do tipo. Sempre quis que o meu primeiro longa falasse sobre a relação de pai e filho, me identifico muito com os personagens e me coloco no lugar deles”, comenta o diretor, pós-graduado em direção cinematográfica em Madrid. Em sua jornada na sétima arte, vem exibindo trabalhos em festivais de Paris, Atenas, Bruxelas, Los Angeles, Montividéu e em outras paragens.
“Se não tivéssemos esses festivais, não teríamos a real noção do quão diversificada é a produção do cinema brasileiro, sobretudo os que não estão nas capitais dos estados. O Brasil é um país com poucas salas de cinema, se compararmos com o número da população. Fazer um filme chegar a uma grande sala é muito complicado. Outro lado positivo é o da convivência, o do intercâmbio de experiência”, afirma Iberê.
Seguindo uma trajetória de aplausos por festivais, como o de Gramado, “A luneta do tempo”, dirigido e roteirizado por Alceu Valença, também se apresenta para a plateia juiz-forana. A partir da história de Lampião e Maria Bonita no sertão, o longa cria personagens fictícios que viverão amores e aventuras num universo circense ao lado dessas lendas folclóricas. “Yorimatã”, de Rafael Saar, recria o sonho de liberdade do movimento hippie dos anos 70 através de Luhli e Lucina. As duas mulheres desenvolvem composições musicais experimentando instrumentos e se tornam pioneiras da música independente brasileira. O elenco traz Gilberto Gil, Ney Matogrosso, Zélia Duncan e outros nomes da história da MPB.
Por mais filmes brasileiros
A lista de longas estreantes engrossa com “Amor plástico e barulho”, de Renata Pinheiro, e “La visita”, uma produção Chile/Argentina, de Mauricio López Fernández. No brasileiro, uma jovem aspirante a cantora e uma veterana de um precário show business parecem formar uma só trajetória de vida em um meio em que tudo é descartável, como o sucesso e o amor. Já no filme estrangeiro, o espectador verá o esperado retorno de um filho para o funeral de seu pai. A situação agita o hermético ambiente familiar, quando ele volta transformado em filha em uma casa onde as mulheres acreditavam necessitar dos homens para sobreviver.
“Em Juiz de Fora, estamos muito carentes de filmes brasileiros e mais alternativos”, observa o diretor geral do evento, Aleques Eiterer, satisfeito por mais uma edição realizada. A crise, de acordo com ele, não refletiu por aqui. “Os festivais estão sofrendo com perda de patrocínio, e nós estamos aí com a Petrobras. Somos um pouco filho do Festival Brasileiro Universitário, realizado há 20 anos, e a gente não tem perspectiva de ele acontecer. Falta política pública para o setor.”
Os interessados em participar de uma das quatro oficinas (roteiro, assistência de direção, documentário e audiodescrição em curtas-metragens) têm até domingo para fazer a inscrição no site do evento, onde também está a programação completa (primeiroplano.art.br). Quem quiser assistir aos longas e às mostras competitivas devem retirar os ingressos gratuitamente no Palace antes de cada sessão.
