A voz está calma. Talvez serena seja a palavra. Sem afobações, sobressaltos ou desequilíbrios. A voz diz da tranquilidade. Maria Gadú parece estar num outro universo, transposto em detalhes sonoros no novo álbum, “Guelã” (Slap/Som Livre). “Devo crer/ na farta consciência do amor sem fim/ calar na distorção que todo elo traz/ vangloriar a calma que você me deu”, canta em “Semi-voz”, um dos pontos altos do disco, quase a explicar o momento no qual se encontra. “O primeiro disco tinha a carga da vida inteira até ele. E, atrás dele, era minha adolescência. Então, ele tinha algo de despretensioso, não que eu pretenda algo com o disco novo, até porque nunca pretendi nada. O discurso mudou ao longo desses oito anos”, comenta a cantora que faz show na cidade neste sábado, em entrevista à Tribuna por telefone. “Fiquei muito tempo absorvendo tudo o que aconteceu na minha vida musicalmente desde que comecei. Venho, ao longo de quatro anos, entrando na música de outra forma. Quando lancei o primeiro disco, tinha 21, agora estou com 29. Não sou mais adolescente.”
A maturidade pulsa a cada faixa da produção repleta de longos silêncios, como na de abertura, “Suspiro”, cuja voz aparece após mais de dois minutos. E “Aquária”, que encerra o álbum, completamente instrumental. “Tudo aconteceu de maneira muito genuína, não foi um ato de coragem, uma afronta à canção. As músicas instrumentais nasceram exatamente como foram gravadas. Ali está um entendimento de que nem todas as minhas composições precisam ter textos. Quero dizer o que sinto com elas assim, sem forçar a barra”, diz ela, que assina nove das dez músicas, três delas em parcerias. Afeita ao rock, a obra se distancia da tonalidade com a qual Maria Gadú foi lançada, em 2009.
Ainda que muito mais arriscado, o novo trabalho traz já no título a identidade da cantora. “‘Guelã’ significa ‘a gaivota’ numa língua dos Karipuna, tribo no Norte do Amapá, divisa com a Guiana. É um vocabulário superbonito, sonoro, uma espécie de criolo sem indícios de línguas africanas. Tenho essa coisa com os fonemas, pode ver shimbalaiê, taregué, paracuti”, explica, aos risos, para logo falar da capa, primeira vez em que deixa aparecer em foto, dando lugar a uma ilustração de uma mulher alada. “Cada fase tem uma cor, uma imagem, um retrato de como está aquele momento. A capa do disco é a imagem da forma mais genuína que tive de me expor, de tirar a roupa e abrir o peito. E isso não precisou ser feito comigo, por uma foto minha.”
‘Num namoro com a música’
Indicada ao prêmio de melhor álbum de música popular brasileira no 16º Grammy Latino, Gadú concorre com os veteranos Lenine, Ivan Lins, Maria Bethânia e Dorival Caymmi, o que demonstra sua crescente força no cenário nacional. “Mudou muita coisa, minha vida virou um furacão desde o lançamento do primeiro disco. Tudo aconteceu, nada do que tinha sonhado e só coisas maravilhosas, como o contato com os músicos e com meus ídolos, como o Milton (Nascimento), o Caetano (Veloso) e o (Gilberto) Gil”, pontua ela, que já vendeu mais de 700 mil exemplares de CDs, conquistando quatro discos de platina.
Rotina transformada na música e na vida. A paulista também precisou se acostumar com os flashes e com a intimidade devassada. “Sempre fui na minha. A mídia é que sempre vai atrás. Morava no Rio de Janeiro e não podia pôr o pé para fora de casa que as pessoas saiam atrás de mim. Nunca cacei holofotes, eles estavam na porta. Não podia dar um passeio de bicicleta com meu sobrinho, nem tomar sorvete com minha namorada. Isso me incomodou muito, por muito tempo. Tanto que hoje voltei a morar em São Paulo”, conta. “O frenesi passou um pouco e, aí, vão ficando as coisas legais, as pessoas que realmente gostam do som.”
Segundo a cantora, por um período, toda a exposição trouxe novas reflexões para o seu fazer. “É como uma tia se metendo no casamento, que dá uma desgastada na sua relação com sua mulher e não com a tia. Essa exposição desgastou minha relação com a música porque o assunto deixou de ser a música e passou a ser minha vida. Detestei tudo isso, mas passou. Agora estou num namoro com a música”, comenta. O encantamento também chegou pelos deslocamentos que fez, o que também está em “Guelã”. “Viajei muito nesses últimos quatro anos, passei períodos fora do Brasil, na França, na Inglaterra e em Nova York. Isso me fez conhecer o folclore de outros países, o que me influenciou muito”, diz.
Assumindo a função de produtora pela primeira vez, tarefa que dividiu com Federico Puppi, Maria Gadú quer mais do que a linha reta. Ao longo dos anos, fala de uma jovem atenta e curiosa, sempre a absorver o clima e as companhias que a música lhe deu. “Foi um passo muito solitário fazer esse novo disco. Fiquei muito bem acompanhada todos esses anos, mas já não sabia onde estava nisso tudo. Sabe quando a esponja enche e é preciso dar uma apertada?”, indaga. Sobre os próximos passos, prefere não pensar. E não deve mesmo. Qualquer ansiedade pode lhe retirar a calma dos dias que correm. “Estou trilhando um caminho que não sei qual é”, afirma, para logo completar: “E estou muito feliz”.
