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O homem como medida para o espaço

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Entre curvas e estruturas de concreto armado, surgem espaços pensados para o melhor aproveitamento das pessoas. A revolução proposta pela arquitetura modernista concebe não só paisagens impressionantes, mas coloca o uso funcional dos ambientes como elemento primordial de criação. Duas mostras em cartaz na Bienal de Arquitetura da Zona da Mata e Vertentes destacam esses conceitos na obra de três importantes profissionais do ramo em âmbito local e nacional. Em cartaz no Centro Cultural Bernardo Mascarenhas (CCBM) até hoje, as exposições Arquitetos modernistas de Juiz de Fora e Cataguases e Dessinis e croquis – O poeta da arquitetura em Paris colocam em relevo as figuras de Arthur Arcuri, Luzimar Natalino e Oscar Niemeyer.

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Responsável por boa parte do legado modernista na cidade, Arthur Arcuri é o grande homenageado da Bienal de Arquitetura. Ele não é só o principal arquiteto desse período em Juiz de Fora, mas um dos profissionais mais brilhantes do Brasil. Aliás, a exposição apenas reforça uma opinião expressa por Oscar Niemeyer e Lúcio Costa, comenta o presidente do Instituto de Arquitetos do Brasil – Núcleo Juiz de Fora (IAB-JF) e um dos curadores da mostra, Marcos Olender.

Curiosamente, Arcuri não frequentou o ensino formal de arquitetura, preferindo o curso de engenharia por um motivo que explicaria mais tarde e que simboliza sua personalidade modesta e seu profundo respeito pelo ofício que exerceu: Eu sempre pensei que entre um mau engenheiro e um mau arquiteto, o que causa o menor dano à coletividade é o mau engenheiro, afirmou em depoimento para o setor de memória da Funalfa, em 1982. O juiz-forano, entretanto, foi se aprofundando nas inovações do segmento a partir das visitas recorrentes à biblioteca de arquitetura da Universidade do Brasil (atual UFRJ). Mais tarde, tornou-se admirador dos modernistas Le Corbusier e Mies Van Der Rohe, profissionais que influenciaram diretamente suas concepções.

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A exposição da Bienal é uma oportunidade para compreender melhor a concepção de obras de Arcuri, como o Marco do Centenário, instalado na Praça da República. Conforme o engenheiro explicou em vida, sua ideia era refletir o espírito de seu tempo em uma forma simples; uma única parede que se desenvolve em curva e se eleva gradualmente, revestida com os materiais em uso na época e ornamentada pela arte de Di Cavalcanti.

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A conciliação da arquitetura com a arte, aliás, é uma constante na obra de Arcuri. Além da utilização de painéis de pintores modernos em vários de seus projetos, o juiz-forano buscava inspiração no holandês Piet Mondrian para proceder a distribuição dos espaços em seus projetos. O vínculo, estudado em uma pesquisa do arquiteto Bernardo Vieira, surge bastante nítido em projetos como o do Colégio Magister (1957), demolido em 2007. A ligação entre o artista e o arquiteto ainda credenciou os curadores da mostra a empregarem a mesma linguagem na concepção visual da exposição.

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Com a precisão da fotografia

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No depoimento de1982 para a Funalfa, Arthur Arcuri também destacou a importância de outro tipo de arte em formação estética: a fotografia. Na opinião do engenheiro, a instantaneidade da câmera foi importante por ajudá-lo a entender a composição de imagens, exigindo extrema precisão do olhar, uma vez que – naquela época – não permitia retoques, como a pintura.

A mostra destaca outros projetos marcantes na trajetória do juiz-forano, como o prédio do Matadouro Municipal, sua primeira obra e vencedora de uma concorrência pública em 1938. Os desenhos originais de Santa Casa de Misericórdia, de 1941, e a estrutura robusta da arquibancada do Sport Club (1945) também mereceram ênfase. Em outro painel, o juiz-forano ressalta os critérios que pautaram a criação do Campus da UFJF, como espaço de convivência e pesquisa.

Premissa básica da arquitetura modernista, a utilização funcional dos espaços se fez presente no trabalho de Arcuri. Um dos projetos mais emblemáticos, nesse sentido, foi o da residência feita para seu irmão, Reginaldo Arcuri, na Rua Benjamin Constant. O arquiteto decidiu inverter a ordem convencional dos cômodos, trazendo a cozinha para próximo da fachada e distribuindo as áreas de convivência em função de um pátio interno. Conforme definiu o próprio Arcuri, era uma casa que não era para ser vista, mas para ser morada.

Uma obra a ser redescoberta

Em Cataguases, outro nome do modernismo merece atenção. Apesar de ter nascido em Fortaleza, foi no interior de Minas que o arquiteto Luzimar Natalino Cerqueira de Góes Telles desenvolveu seus principais trabalhos. Entre vários projetos de residências, o cearense é autor de espaços públicos, como a Praça Rui Barbosa (1957).

Segundo Marcos Olender, a escolha do nome do arquiteto como tema de uma mostra da Bienal é uma forma de despertar especialistas da área e cidadãos comuns para o legado de um profissional que teve grande relevância no credenciamento de Cataguases como uma cidade modernista por excelência. O presidente da IAB defende, ainda, a necessidade de mais estudos sobre as obras do cearense e também maior atenção por parte do poder público. Cataguases tem um patrimônio reconhecido nacionalmente, mas nenhuma obra de Luzimar é tombada individualmente, explicita o arquiteto.

Retrospectiva em croquis

Na galeria Heitor de Alencar, ao lado, é possível conhecer um pouco mais do modernismo brasileiro na exposição Dessinis e croquis – O poeta da arquitetura em Paris, retrospectiva profissional de Oscar Niemeyer, resumida em 20 desenhos feitos pelo próprio arquiteto. Concebida originalmente para uma mostra no Centro Georges Pompidou, em Paris, em 2005, a série traz o traço inconfundível do carioca e frases que explicam a criação de algumas de suas mais importantes obras, como o Museu de Arte Contemporânea, de Niterói, concebido como uma flor de concreto que brota do chão, e o complexo do Memorial da América Latina, em São Paulo, em que deixa o sofrimento dos povos marcado na grande escultura de uma mão sangrando.

Como era de se esperar, Brasília tem destaque especial na mostra. Entre o esboço das colunas do Palácio do Planalto, o arquiteto explica como concentrou seus esforços na criação de uma estrutura que transmitisse a impressão de leveza, com os palácios apenas tocando o chão. Nesses desenhos, Niemeyer diz muito, pois consegue sintetizar muito bem seu trabalho, opina a arquiteta uma das curadoras da mostra, Bárbara Botelho.

A mostra, a propósito, é aberta com um desenho em que não aparecem projetos arquitetônicos, mas a silhueta de uma mulher e de uma paisagem brasileira. Ali, estão reunidos alguns dos princípios que nortearam o trabalho revolucionário de Niemeyer, explicitados na seguinte declaração manuscrita: Não é o ângulo reto que me atrai. Nem a linha reta, dura, inflexível, criada pelo homem. O que me atrai é a curva livre e sensual, a curva que encontro nas montanhas do meu país, nas nuvens do céu, no corpo da mulher amada.

ARQUITETOS MODERNISTAS E DESSINIS E CROQUIS

Somente hoje, das 10h às 16h

CCBM

(Av. Getúlio Vargas 200)

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