
A Batalha do Bandeirantes, criada em 2017 em Juiz de Fora, conquistou o primeiro lugar no Prêmio Nacional Vozes Periféricas, após uma seleção que recebeu 1.707 inscrições de todo o país. O resultado colocou o coletivo juiz-forano entre as 100 iniciativas contempladas pela premiação, voltada especificamente para batalhas de rima, slams e saraus.
O Vozes Periféricas foi lançado neste ano pela Secretaria-Geral da Presidência da República. Com investimento total de R$ 3 milhões, o prêmio destinou R$ 30 mil a cada um dos 100 coletivos selecionados.
A proposta tem uma característica que ajuda a dimensionar a conquista da Batalha do Bandeirantes. Diferentemente de um edital destinado a financiar uma ação que ainda será executada, o Vozes Periféricas reconhece trabalhos que já acontecem nos territórios. Para participar, os grupos precisavam comprovar atuação regular durante 2025 e contribuição para o desenvolvimento artístico e cultural de suas comunidades.
No caso da Batalha do Bandeirantes, o prêmio chega depois de quase nove anos de uma trajetória construída em torno das batalhas de rima e da cultura hip hop. Para Robson de Jesus Souza, o Menino da Vibe, um dos fundadores do coletivo, a conquista também aconteceu em um momento simbólico. Neste ano, ele conta que batalhas de rap ajudaram a arrecadar cerca de R$ 6 mil para vítimas das chuvas que atingiram Juiz de Fora. Ao mesmo tempo, foi o primeiro ano sem Adenilde Petrina Bispo, uma das pessoas mais importantes de sua trajetória e do movimento hip hop.
“Ganhar esse prêmio depois da chuva e ganhar um prêmio nacional depois do falecimento dela é muito importante para cena”, afirma Robson em entrevista à Tribuna.
‘Muita gente não levava tanta fé’
A história da Batalha do Bandeirantes começou em 2017, quando Robson e o amigo Dentinho decidiram criar uma roda de rimas no próprio bairro. Segundo Menino da Vibe, foi o parceiro quem fez o convite para que os dois organizassem a batalha.
A primeira edição aconteceu em um sábado de agosto. A partir dali, o que ainda era uma aposta começou a conquistar espaço. Robson lembra que nem todos ao redor acreditavam que a iniciativa pudesse permanecer ou alcançar outros públicos. “Eu acreditei desde o momento que eu comecei a fazer. Muita gente não levava tanta fé, nem os próprios MCs, mas eu sempre levei muita fé.”
Se entre quem rimava havia desconfiança sobre o futuro da batalha, fora da roda também houve resistência. Robson conta que parte dos moradores do Bandeirantes associava a movimentação dos MCs à criminalidade. “Uns aceitam, outros não aceitam, mas a maioria não aceitava, né? Achava que era coisa de bandido.”
A mudança de percepção foi acompanhada pelo crescimento da própria batalha. Sem apontar a conquista do Vozes Periféricas como uma chegada definitiva, Robson avalia que ainda há objetivos pela frente. Para ele, o desenvolvimento da roda ocorreu gradualmente.
“Demorou bastante pra gente poder alcançar os objetivos que a gente tá alcançando aos poucos. Não alcançamos 100%, mas eu acho que metade desse caminho a gente já percorreu.” É um processo que ele define como um trabalho “de formiguinha”: “Tudo devagarzinho”.
Para Robson, a experiência construída no bairro também mostra o que iniciativas semelhantes podem representar em outras regiões da cidade. Ao ser questionado sobre o que falta para o hip hop e a cultura periférica em Juiz de Fora, ele não demora para responder: “Apoio”.
O organizador defende que MCs e outros articuladores culturais possam desenvolver atividades diretamente nas comunidades, especialmente em locais onde crianças e adolescentes já demonstram interesse pelas rimas.
“Tem alguns bairros que eu vejo, que eu já fui, e que é cheio de criança que gosta de freestyle. Se a gente pudesse inserir um projeto para dentro das quebradas, as crianças não vão para vida ruim. Porque as crianças têm que ter uma coisa dentro da quebrada para poder se ocupar.”
Antes de Menino da Vibe, Robson
A Batalha do Bandeirantes nasceu em 2017, mas a aproximação de Robson com o rap havia começado antes. Nascido no próprio bairro, ele se dedicava ao esporte antes de fazer do hip hop parte central de sua vida.
Robson já frequentava algumas rodas como espectador em 2014, mas considera que sua entrada efetiva no hip hop aconteceu em 2016, por influência de amigos. Em uma das batalhas que acompanhava, recebeu o incentivo para deixar o público e assumir o microfone. “Os meninos falaram: ‘Coloca o seu nome e vai’.”
Ele colocou. A primeira experiência foi em uma batalha realizada no Shopping Jardim Norte. Robson não apenas participou como saiu campeão da edição. Depois disso, começou a se envolver também com a organização de batalhas. No ano seguinte, surgiria a Batalha do Bandeirantes.
Dez anos depois de entrar no hip hop, Menino da Vibe já não se limita à Batalha que ajudou a fundar. Como mestre de cerimônias, passou a apresentar batalhas em diferentes regiões do Brasil.
Na lista, ele cita a Batalha da Aldeia, uma das maiores do país, a Batalha do Coliseu e eventos no Distrito Federal, em Sergipe, na Bahia e em Mato Grosso. “Graças a Deus, já furei várias bolhas apresentando batalha”, resume.
É quando fala sobre a transformação entre aquele jovem do Bandeirantes e o Menino da Vibe que hoje circula por diferentes estados que Robson apresenta outra personagem da história. Para ele, houve uma pessoa responsável não apenas por aproximá-lo do movimento, mas por mudar a forma como passou a enxergar a própria vida. “Quem me levou para as batalhas de rap, para o hip hop, e salvou a minha vida de vez foi a dona Adenilde Petrina.”
O legado de Adenilde Petrina
A importância que Adenilde Petrina teve para Robson se mistura à própria história do hip hop em Juiz de Fora. Moradora do Santa Cândida durante mais de cinco décadas, Adenilde iniciou a militância ainda aos 17 anos, quando se juntou a outras mulheres do bairro na luta por serviços básicos para a comunidade. A mobilização que ela chamava de “militância por necessidade” se estendeu por toda a vida e passou pela educação, pelo movimento negro, pela comunicação comunitária e pela cultura.
O contato com o hip hop ocorreu em 1993. Ao ouvir Racionais MC’s, Adenilde percebeu na combinação entre letras e batidas uma possibilidade de diálogo com os jovens. Na década seguinte, sua trajetória também estaria ligada à Rádio Comunitária Mega FM e, posteriormente, ao Coletivo Vozes da Rua, que articulava movimento negro, hip hop e o estudo de autores negros.
Foi essa Adenilde que Robson encontrou em sua própria caminhada. Ele afirma que ela lhe ensinou uma forma de compreender o hip hop que ia além do microfone, das disputas e dos palcos. A ideia central era a coletividade. “Porque a dona Adenilde me fez ter um sentido de vida que eu não tinha. Me fez enxergar hip hop de uma maneira específica de vida. Ela falava pra mim que, no hip hop, a gente se ajuda.”
Para Robson, não era apenas um ensinamento teórico. Nos períodos em que enfrentou dificuldades, Adenilde esteve presente de forma concreta. “Ela me ajudou muito, matou minha fome várias vezes, me ajudava com viagem.”
A relação permaneceu próxima até os últimos meses da vida da educadora. Robson conta que, naquele período, os encontros eram praticamente semanais. Familiares de Adenilde chegaram a procurá-lo para dizer que ela falava com frequência sobre ele e sobre a importância daquela relação.
Mesmo no fim da vida, segundo Robson, Adenilde permanecia envolvida na tentativa de abrir caminhos para quem fazia cultura na cidade. “Ela tava toda semana lá na Prefeitura, no fim da vida dela, ajudando a gente em projeto, ajudando a gente realizar nosso sonho. Eu sou muito grato.”
Adenilde Petrina morreu em Juiz de Fora em 30 de outubro de 2025, aos 73 anos. Educadora, filósofa e militante, deixou uma trajetória ligada à defesa da educação pública, à luta antirracista, às periferias e à cultura hip hop. Para Robson, porém, o tamanho da ausência não precisa de contextualização. “A falta dela é todos os dias.”
A fotografia de Adenilde permanece junto aos objetos religiosos que ele guarda em casa. “Ela que me protege. Ela me iluminou bastante.”
A influência aparece também na maneira como Menino da Vibe pensa o futuro. Quando defende a presença de projetos nas comunidades, mais recursos para a cultura e condições para que artistas possam transformar o hip hop em profissão, ele volta, de alguma forma, à ideia de coletividade que diz ter aprendido com Adenilde.
Robson acredita que as batalhas podem ir além dos limites dos próprios bairros. Cita MCs vindos do Norte e do Nordeste para participar de eventos em Juiz de Fora e argumenta que essa circulação também movimenta a cidade. Ao mesmo tempo, reivindica condições para quem produz a cultura permanecer dentro dela. “A gente podia estar vivendo da arte.”
Para a Batalha do Bandeirantes, o Prêmio Vozes Periféricas representa um reconhecimento nacional depois de anos de caminhada. Para Menino da Vibe, ainda não é o fim do percurso. É mais um resultado de uma história que, como ele próprio define, continua sendo construída a “passo de formiguinha”.
*Estagiário sob supervisão da editora Cecília Itaborahy
