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‘Decifrar o enigma. O tempo e a hora’

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"A morte do Arlindo não fez com que perdêssemos a convivência. Na verdade, nos relacionávamos muito mais com o artista, que permanece", comenta Anderson Daibert. Apontando para os muitos trabalhos que guarda em casa, espalhados pelas paredes e preservados na própria mapoteca do artista, o irmão mais novo destaca que o que restou, passadas duas décadas, é o que sempre tiveram. "Sempre tive o Arlindo mais como uma pessoa admirada que como irmão mesmo", emociona-se. "Acredito que mais do que admiração seja o respeito. Só víamos ele sentado lendo, desenhando ou ouvindo música. Sempre muito sério", acrescenta Eveline Amaral, a única irmã do autor da série "Macunaíma de Andrade", releitura pictórica da obra do modernista Mário de Andrade. "Ele era muito afetivo, e isso está explícito em sua arte", declara o amigo Afonso Rodrigues, que vê no legado de Daibert sentimentos profundos e verdadeiros.

"Não se esqueçam de que, por mais frágeis que possam parecer, o que realmente fica é o papel, é a tela. Passaremos para a lembrança, mas o trabalho é nosso único atestado de vida, e disso não podemos nos afastar", disse Arlindo, quando recebeu o título de Personalidade 1984, oferecido pela Prefeitura de Juiz de Fora. Certamente, mesmo que sem a consciência plena, os fantasmas da posteridade foram os responsáveis por seu mergulho no universo da arte. "Lembro que em nossa casa havia sempre uma gamela sobre a mesa, cheia de frutas. Quando víamos, o mamão estava desenhado, a banana também, e as outras que estivessem ali", conta Anderson, que na época da morte tinha apenas 34 anos.

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"É bem difícil estabelecer um momento preciso ou uma situação determinante. Acho que sempre estive envolvido, senão com a arte, ao menos com formas", declarou o artista, em 1972, em depoimento ao crítico José Henrique Fabre Rolim, do jornal santista "A Tribuna". E esse envolvimento, segundo a irmã Eveline, se deu tanto por interferência do avô, que adorava ópera, quanto pela mãe, exímia pintora de um figurativo clássico. "O Arlindo veio e amarrou toda essa história de relação com a arte", sentencia Eveline. "Ele era muito observador, muito culto, falava muitas línguas e era muito viajado. Até penso que o acesso a ele se tornava difícil, afinal, nem tínhamos muita conversa", completa Anderson.

Segundo Afonso Rodrigues, um dos artistas em quem Arlindo apostou, o amigo estava sempre a desenhar ou projetar seus trabalhos. "Na universidade, ele dava aula de desenho, desenhando, e depois presenteava os alunos. Nas reuniões de departamento, ele também vivia esboçando alguma coisa", recorda. "Era surpreendente como conseguia obedecer um fluxo na sua arte. Em uma obra, sempre havia o embrião de outra. Daí a multiplicidade de ideias e projetos inacabados", comenta Afonso, que chegou a dividir ateliê com ele em São José dos Campos e posteriormente em São Paulo.

 

 

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‘Ele deixou a vida ligada’

"Quando ele saiu para dar a palestra, deixou o som tocando. Deixou a vida ligada", relata Anderson, que, como os irmãos Eveline, Alciones e Alberto, se viu perplexo diante de um ateliê organizado, porém repleto de obras de arte (na época, o espaço de criação de Arlindo ficava na Avenida Getúlio Vargas, em cima da casa da avó). Com ajuda de amigos próximos, aos poucos, foram se organizando para guardar tudo. Cada irmão ficou com alguns trabalhos, mas é o caçula da família que reúne um maior número de obras inéditas, entre elas o esboço de um gato feito em um caderno de desenho e uma série de imagens obscuras desenvolvidas no período em que esteve em Londres, na década de 1970. "Cada coisa dessa tem uma história para contar, mas não sabemos tudo. O Arlindo era muito misterioso, escrevia nas entrelinhas", comenta o irmão, em meio a xilogravuras, aquarelas e esculturas, além de objetos pessoais, como um travesseiro comprado na África e utilizado por índios locais, um livro de história tibetana produzido em bambu e esculturas do povo Xingu.

"Meu desejo era que isso tudo estivesse em um lugar correto, com acesso a restauração e pesquisa", pontua Eveline, apontando para as muitas matrizes de xilogravura guardadas em sua casa. Exposto logo na sala de sua residência, o imenso quadro que ocupava o saguão do finado bar Excalibur, na parte da alta da Rua Floriano Peixoto, é uma das preciosidades das quais Eveline não abre mão. Reunindo uma cena de sexo, protagonizada pela imagem do artista, a pintura também revela um dos principais pontos da produção de Arlindo: o diálogo com a tradição. No quadro, observando o ato sexual, estão rostos semelhantes aos do casal Arnolfini, da mais conhecida obra do holandês naturalista Jan van Eyck.

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Desde aquele 28 de agosto, quando Arlindo foi acometido por um aneurisma cerebral em plena palestra no Centro Cultural Bernardo Mascarenhas e despediu-se da vida, família e amigos procuram saídas para divulgar o legado deixado. "Temos uma percepção muito fragmentária do trabalho dele, por não haver uma abordagem mais ampla", analisa o poeta e pesquisador da obra de Daibert, Júlio Castañon Guimarães. "Na época, a importância dele foi medida pelos prêmios que ganhou e exposições que apresentou, o que de alguma forma é um sinal de que sua produção foi reconhecida. Arlindo ainda circula, mas faltam exposições, o que em grande parte depende das instituições", reivindica.

 

 

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‘O trabalho do Arlindo não envelheceu’

"Quando me aposentei, a intenção era de me dedicar à catalogação e profissionalização do acervo", comenta Eveline Amaral, que ainda espera ver todo o conjunto reunido, seja em livro, em exposição ou em um portal na internet. Atualmente a família tem vendido alguns trabalhos com a intenção de fazê-los circular e resguardando-os da terrível ação do tempo. "Para preservar papel, é importante ter uma estrutura. Ao longo dos anos, nenhum de nós, irmãos, teve condição de lidar com o acervo com o empenho que ele exige. Não conseguimos, sequer, instalar uma obra dele na praça que leva seu nome", lamenta Anderson, referindo-se à Praça Arlindo Daibert, no Bairro Salvaterra (próximo à BR-040), que ostenta uma placa do Rotary Club e nenhuma referência ao artista.

Dessa forma, Eveline e Anderson desejam produzir um vernissage para vender algumas das obras que possuem. "Não temos mais paredes e nos interessamos em ver essa obra sendo divulgada e preservada", comenta a irmã, para logo completar: "De quando ele morreu até hoje, nós temos um controle sobre quem comprou". Apesar da relevância histórica de Arlindo para Juiz de Fora e a grande projeção que deu à cidade, sua obra despertou interesse fora daqui. Dentre as instituições e coleções que conservam obras do artista, destaca-se a coleção de Gilberto Chateaubriand, pertencente ao Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, em regime de comodato. Ainda em vida, Arlindo doou ao colecionador francês radicado carioca, as séries "Alice no País das Maravilhas" e "Macunaíma de Andrade". Após a morte, a família doou outra série importante, "Grande Sertão", que atualmente ganha destaque na mostra "Genealogias do contemporâneo", baseada na coleção.

Integrando o recém-lançado "Anos 60 a 80 na coleção Gilberto Chateaubriand", organizado pela crítica e curadora Ligia Canongia, Arlindo tem sua faceta ilustrador reconhecida na publicação, que apresenta "Castidade" e "Callypigio", ambos de 1974, produzidos em nanquim e grafite sobre papel. "Seria interessante que houvesse um investimento contínuo e frequente para a valorização da memória do artista", defende Afonso Rodrigues. "É a circulação que faz com que a memória ganhe fôlego. É importante que as pessoas reconheçam que o trabalho do Arlindo não envelheceu, ele tem uma constância muito grande de discursos", acrescenta.

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Durante os dias 30 de agosto, sexta-feira, e 2 de setembro, segunda-feira, o Museu de Arte Murilo Mendes (Mamm), reverencia a obra de Arlindo com uma agenda de atividades. No dia 30, às 17h, será inaugurada, na Galeria Poliedro, uma mostra com vídeos sobre o artista; às 19h, acontece um debate com os pesquisadores Júlio Castañon Guimarães, Elza de Sá Nogueira e Jorge Sanglard, mediada por Afonso Rodrigues; e em seguida, na Galeria Retratos-relâmpago, a exposição "Arlindo Daibert: 20 anos depois" exibe trabalhos de colecionadores da cidade e de instituições locais. "Poderíamos chamar o Arlindo de visionário, mas, na verdade, ele estava no tempo dele. As estruturas é que estavam atrasadas", analisa Rodrigues, apontando que a tão famosa, para os dias de hoje, transdisciplinaridade, já existia no trabalho do artista, que se utilizou da literatura, mas não ficou restrito a ela.

"Enquanto alguns artistas procuram uma autorrenovação, de maneira incômoda e quase mórbida, o Arlindo, não. Ele tinha uma coerência no trabalho dele, fazendo mudanças conscientes", pontua Rodrigues. "Ele não era um cara difícil de lidar. Era muito crítico, e isso abalava as estruturas da arte em Juiz de Fora. O Arlindo queria ver a arte projetada em uma coisa muito maior." Em um dos trabalhos mais belos e tocantes que o público ainda desconhece, e que se encontra guardado a sete chaves na casa da irmã do artista, Eveline Amaral, Arlindo parecia prever o tempo.

Na série de trabalhos que, aparentemente, se referem às dores causadas pela morte da mãe, ele aborda a saudade. Com nomes como "Carta de amor e medo", "Carta da morte breve" e "Carta da saudade", ele confirma o lugar soturno da morte. Em "Carta de amor e morte (a mãe morta)", o artista reproduz o seguinte texto: "… te imagino morta, um grotesco boneco. O crânio descarnado, os membros secos (quem sabe os restos de roupas ainda permaneçam inteiros). Foi necessário a consciência da morte para que eu te compreendesse como ser humano em tua louca paixão pela vida. Tua presença povoa meu quarto como um fio de aço tenso, frio e constante. Compasso de espera, momento que precede o salto. É tua mão que me dirige nessa lenta viagem de volta. Frio e suave como um sopro. Me assusta tua presença muda e enigmática a meu lado. Decifrar o enigma. O tempo e a hora."

 

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