
Trinta e cinco anos convivendo com o contrabaixo e a música, para Dudu Lima, continua como uma floresta: “você só vai caminhar e ela nunca vai acabar. É uma floresta infinita. Na música, são os elementos musicais que surgem dessa convivência tão profícua, necessária e diária, com horas e horas de estudos desde o meu começo na carreira. Ele me surpreende e eu procuro surpreendê-lo. Todo dia é dia de viver e aprender”. Nessa busca necessária pela dose poética e musical que Dudu Lima encontra em seu instrumento, de maneira íntima e única, ele lança, neste sábado, às 17h, com show em seu canal no YouTube, o álbum “Concerto para contrabaixo”, disponível desde terça-feira (22) nas plataformas digitais e financiado com recursos da Lei Aldir Blanc do Estado de Minas Gerais, com produção da Gravatás Arte. Ele é um respiro e, também, um registro do amadurecimento desse processo solo, trabalhado em turnês homônimas há seis anos. “É um registro natural de convivência muito grande com o repertório”, completa.
O álbum é composto por oito músicas. Dentre elas, “Cleonice” é a inédita. Mas, explorando a liberdade artística que um trabalho solo, maduro e consolidado permite, é como se todas as músicas fossem novas. E essa é a ideia de Dudu Lima. “As releituras acabaram virando novas, porque são interpretações em que eu crio partes que nos movimentos originais não existiam. Esse álbum é todo dedicado ao contrabaixo. Por isso ele é diferente, porque tem como base as interpretações solo, como se fosse um monólogo, onde cada espaço ou som tem que ser explorado ao máximo. Eu crio muito na hora da gravação. Nesse caso, são releituras profundas.”
Ele conta que o “Concerto para contrabaixo” é o trabalho mais similar com sua maneira de compor. “É essa a raiz da minha composição.” Tanto que, em partes, nota-se uma voz diferente: é a voz do Dudu Lima, que canta com o instrumento, como se ela e o contrabaixo fossem uma coisa só. “Eu penso na melodia e passo pro dedo. Mas para isso, preciso treinar e me preparar muito”, explica.
Entrega total… e sem ensaio
Apesar de os contrabaixos – no plural, porque ele usa modelos fretless (sem trastes), elétrico, baixolão e acústico – serem o motivo, a inspiração e a “espinha dorsal” do álbum, Dudu Lima conta com participações especiais que, de certa forma, sempre o acompanharam nesses 35 anos de carreira. Além dos outros integrantes do Dudu Lima Trio, Ricardo Itaborahy (piano e acordeon) e Leandro Scio (bateria e percussão), participam também Caetano Brasil (sax soprano), Hérmanes Abreu (vocais), Jonatas Silveira (violino e viola) e Maria Fernanda Moraes (violoncelo).
Dudu comenta que a produção do disco já vinha sendo feita há seis anos, desde o começo do show “Concerto para contrabaixo”. Então, cada parte já estava bem pensada. Até que, na pandemia, mais imerso na labuta de criar e tocar sozinho, viu o momento certo para, finalmente, gravá-lo, ao vivo, sem público, uma parte na Sociedade Filarmônica de Juiz de Fora, para a gravação do piano, e outra no Estúdio Nave, com os convidados. Eles não ensaiaram. Foram 12 horas no estúdio, de entrega completa. De acordo com Dudu, apenas funciona se só pensar no que está sendo tocado, mas sem piloto automático, porque tem que ter alma. Quando encontrou os colegas, ele comenta que parecia uma orquestra, porque estava desacostumado com a sensação do conjunto tocando em uníssono.
‘Música como necessidade da convivência’
Como Dudu Lima explorou ao máximo a expressão libertadora e infinita do contrabaixo, ele conta que, para orientar os convidados, escolhidos a dedo para cada faixa, gravou os takes com a base e enviou aos outros músicos. Hérmanes Abreu deu voz à música “Oração aos escravos”. Para mostrar, mais ou menos, como ela seria gravada, ele conta: “Eu falei para o Hérmanes: ‘cara, a base é essa, mas pode ser que fique diferente na hora.’ E aí, ele colocou as vozes e ficou incrível, ele foi viajando também, exatamente como eu tinha pensado”. Tudo foi encaixado, até, porque, Dudu considera “a música como necessidade de convivência entre as pessoas”. Para amplificar o contrabaixo, neste disco, Ricardo Itaborahy e Leandro Scio tocam em músicas diferentes, não em conjunto como no trio – evidenciando uma nova forma de explorar os “irmãos de alma e som”. Com eles, a afinidade é infinita e harmônica. A última música, a clássica “Rapadura é doce mas não é mole não”, recebeu Caetano Brasil, e é nítida a conexão e a entrega, expressas no respiro e na risada do músico convidado. Jonatas Silveira e Maria Fernanda, juntos com Ricardo Itaborahy, que escreveu o arranjo para o quarteto de cordas, mergulham na faixa “Memórias”: música profunda e ainda mais verdadeira.
Além dos convidados serem quase que certeza em seus trabalhos, a natureza, como sempre, também é. “Desde o começo, a natureza me influencia muito. Esse disco é também uma maneira de levá-la à casa das pessoas que agora não conseguem ter acesso a ela. Então, que elas visitem através do som.” Em casa desde o começo da pandemia, Dudu Lima conta que vai encontrando ângulos onde nem existe possibilidade alguma, mas encontra. A música está em tudo o que se vê. É como quando ele olhou o portão de sua casa, onde fomos tirar as fotos: “cara, o portão é formado por várias claves de fá”.

