Nesta quinta-feira (25), quando é comemorado o Dia Internacional da África, a Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) realiza um evento para valorizar as culturas africanas e conscientizar sobre a diversidade presente nos 54 países do continente, que têm suas características próprias quanto a povos, costumes, cultura, arte e religiosidade. A programação completa, elaborada pela Universidade a pedido dos estudantes que vieram do continente, inclui seminário, exposição de imagens e textos, desfile de vestimentas representativas e degustação de pratos típicos. Todas as atividades são abertas ao público.
A data em questão faz referência ao encontro de 32 chefes de estado africanos na Etiópia, em 1963, resultando na Organização de Unidade Africana (OUA), desde 2002 intitulada União Africana (UI). Um dos objetivos do evento realizado em lembrança à data é explorar aspectos fundamentais, no entanto, ainda pouco conhecidos entre os brasileiros, que propiciam diferenças importantes na constituição histórica, política, econômica e social de cada nação.
De acordo com Anderson Bastos, que está à frente da Diretoria de Relações Internacionais e é um dos organizadores do evento, a importância é discutir esse tema a fim de desconstruir visões prontas e estigmatizadas do continente. “Precisamos discutir a diversidade cultural da África, inclusive para desconstruir essa ideia de África como uma coisa só, e de uma percepção negativa, como um campo de safari para turistas ou um continente todo marcado por pobreza, guerras e sofrimento”, explica. O objetivo é mostrar que esse continente também tem “muita riqueza e uma contribuição enorme para todo o planeta”.
Conforme explica a pró-reitora de Cultura, Valéria Faria, a comemoração dessa data já se tornou um dos eventos mais tradicionais da UFJF. “Para nós é uma honra muito grande promover esse evento, por envolver pessoas interessadas em comemorar uma data que defende a liberdade e o respeito à cultura original das etnias que compõem esse grande e diversificado continente”, ressalta.
No total, a UFJF tem 43 alunos representantes de 13 países: Angola, Benim, Cabo Verde, Camarões, Gabão, Guiné Bissau, Guiné Equatorial, Moçambique, Namíbia, Nigéria, República do Congo, São Tomé e Príncipe, e Senegal. Essa também é uma forma, como explica Anderson, de fazer com que eles se sintam acolhidos e reconhecidos. “Nós queríamos saber as necessidades desses alunos, das suas vivências como situações estrangeiros na cidade. É uma forma de acolhimento e também de dar a eles uma visibilidade, chamar a atenção da universidade, dos alunos e professores para a presença desses alunos aqui. Queremos que eles saibam quem são esses alunos”, conta.
Anderson ainda explica que acha importante que o Brasil também tenha uma percepção maior sobre essa história, até mesmo para compreender melhor suas raízes. “A relação entre o Brasil e o povo africano, a população originária da África, se inicia com o tráfico negreiro e com o processo muito doloroso da escravidão, mas o legado dessa história é a porcentagem enorme de população brasileira hoje que tem origem nesses povos escravizados”, diz. Entender mais sobre essa realidade, em sua visão, faz com que as pessoas tenham mais orgulho da sua ascendência, em um processo que ele enxerga que já começou a acontecer.
Na visão de Valéria, funciona justamente como uma via de mão dupla. “O evento contribui significativamente para a formação cultural dos alunos africanos, que têm a oportunidade de conhecer a diversidade cultural brasileira, ao mesmo tempo em que os nossos alunos têm a grande oportunidade de ver de perto as experiências de vida dos alunos africanos e a multiplicidade da língua e da cultura africana”, diz.
Desfile
O desfile de vestimentas tradicionais autênticas vai acontecer na Galeria Espaço Reitoria, sob responsabilidade do professor Luiz Fernando Ribeiro, diretor do Museu da Moda Social e professor do bacharelado em Moda do Instituto de Artes e Design da UFJF. Ele explica que as peças foram elaboradas a partir da interação entre os alunos vindo de países africanos e os alunos do curso Bacharelado em Moda selecionados pela disciplina Produção de Moda, em uma experiência que considera enriquecedora. “Todos puderam conhecer mais sobre tecidos, estampas e formas originárias da cultura africana”, diz.
Para o resultado, foi criado um grupo de moda juntamente com as alunas africanas que buscaram entre os intercambistas roupas masculinas e femininas para a montagem dos looks. “Os modelos tanto masculinos como femininos são alunos do Instituto de Artes e Design. A partir das referências das pranchas, e com as roupas originais e os acessórios pertencentes ao meu acervo pessoal, foram feitas provas de roupas para o desfile de moda”, conta.
Do ponto de vista dos intercambistas, ele explica que foi possível para os alunos de diferentes cursos conhecer mais sobre o universo da moda, especialmente sobre a montagem de um desfile, participando, inclusive, da escolha da trilha sonora. O público, de modo geral, pode esperar, de acordo com ele, por um desfile de moda com uma grande diversidade, muita cor e estilo próprio. “As peças apresentadas mostram que a indústria da moda traz a criatividade e o dinamismo de um continente tão diverso, que é sobre moda ou modas, já que seria impossível uma definição única para o estilo de 54 países”, afirma.
Comidas típicas e mostra de fotos
A universitária Elfy Deguenon, de Benim, vai apresentar uma produção culinária na data, trazendo pratos típicos para degustação. “Cozinhar, para mim, é uma arte, na qual você desperta o seu saber. Atrás de cada comida tem uma história, é uma transmissão de família pra família, e então tem que tomar todos os cuidados necessários (…) É muito legal mostrar o que os mais velhos te ensinaram”, explica ela, sobre a preparação para o evento.
A mostra “A África não é um país”, por sua vez, que será exibida nesta quinta, traz imagens de sítios turísticos representativos de diferentes países africanos, acompanhadas de textos explicativos para que o público conheça um pouco mais das belezas da África e suas peculiaridades, para além do que já está fixado no imaginário. Além disso, os estudantes africanos da UFJF também são apresentados a partir de fotografias feitas por Nina Cristofaro e João Guilherme dos Santos. Ao lado, há também uma pequena apresentação sobre suas histórias e origens, trazendo um diálogo com o público e também apresentando o programa de intercâmbio que traz estudantes como eles para a universidade.
A organização contou com os esforços de alunos incluídos em projetos como o do Programa de Estudantes/Convênio de Graduação (PEC-G), o de Pós-Graduação (PEC-PG), o do Grupo de Cooperação Internacional de Universidades Brasileiras (GCUB), juntamente com a Diretoria de Relações Internacionais (DRI) e a Pró-Reitoria de Cultura (Procult).

