
Na Serra do Caparaó, na parte do estado do Espírito Santo, dá para ver mais de perto o mundo todo. Dá para sentir que está mais próximo do céu e da terra. Também dá para ouvir o canto folclórico e verdadeiro da Suindara. “(Ela) possui um grito forte e um voo silencioso. Enxerga muito bem em meio à escuridão e em sua face há dois discos, no formato de coração, que ajudam a levar o som aos seus ouvidos. Para nós, isso veste o objetivo maior de nosso ofício artístico: voar silenciosamente feito grandes caçadoras”, explica Aline Maria, uma das três integrantes da banda que leva o nome da coruja que as rodeia desde o começo. Aline, Laíssa Gamaro e Relva Rodrigues, juntas, dão origem ao disco “Suindara”, o primeiro do trio, que nasce bebendo da atmosfera da serra e está disponível nas principais plataformas digitais.
O disco foi viabilizado através de um edital cultural do estado do Espírito Santo, em 2019. Por causa da pandemia, ele só começou a ser produzido no final de 2020. O tempo o maturou. As três se mudaram para um sítio na serra e fizeram uma residência artística para a pré-produção e produção. Sempre juntas, é nessa hora que tudo bate de frente. Mas foi a música que as fez seguir, uma conexão que Aline acredita ter vindo de vidas passadas. “O desafio de encontrar uma identidade do trabalho que representasse nossas identidades pessoais foi cumprido ao longo dessa convivência profunda na qual nos misturamos e, dentro dessa mistura, nos redescobrimos.” “Suindara”, o disco, é o registro que marca em quem elas se transformaram nesse processo. E, como tinha que ser, o ambiente no qual elas estavam imersas também foi registrado, para, como Aline diz, mostrar como ele foi originado. O resultado são cinco canções: “Bailado de cabocla”, “Olhar de rio”, “Uiara silenciosa”, “Som” e “Capim limão”.
Todo o disco é como uma travessia: tem os altos e os baixos. Um respiro e um grito. “Bailado de cabocla” foi a primeira música a ser lançada porque, para Aline, traz reflexões antropológicas que transpassaram a produção do disco. “Suindara” termina com “Capim limão”, que é o motivo para ser feliz de novo. Com um pé em Minas Gerais, a banda juiz-forana Roça Nova faz participação especial. A música deles também traz a experiência de viver uma vida mais simples, com o pé na terra. Laíssa, que compôs a canção, explica que ela nasceu inspirada pelo som deles. Quando ficou decidido que ela seria a última, pensaram em convidar a banda para a participação, para que fosse como uma celebração: “Capim Limão é uma música que tem esse sabor, de ser nossa, de ser uma comunhão, uma festa. O Roça Nova trouxe um trecho declamado de autoria do integrante Pedro Tasca que potencializou ainda mais a imagem poética da música, diretamente do ‘brejo da sinceridade'”.

