A ordem das ruas foi invertida na pandemia, principalmente lá quando não tinha vacina e o perigo era ainda mais desconhecido. A rua não era convite para estar. Era motivo de fuga. Estar ali, só por necessidade. A ordem dos músicos também foi invertida. Palco? Não. Telas. Mas, e sem as telas? Existe um palco novo a ser habitado? O músico Alexandre Moraes acabou encontrando uma nova possibilidade: a rua. Sim, o palco-vida, o cotidiano invadido pelo palco-arte. O projeto “Ser-estar: homenageia e convida”, aprovado pela Lei Murilo Mendes, une a necessidade de encontrar um lugar para fazer arte e a vontade de revisitar a cultura das serestas para homenagear nomes e lugares importantes para Juiz de Fora.
A ideia de fazer serestas pela cidade surgiu como forma de sobrevivência mesmo. Alexandre é músico e não viu as lives como possibilidade de atuação. Nesse limbo, imerso um pouco no medo do que havia pela frente, ele e sua companheira e produtora Gabriela Machado começaram a idealizar uma nova forma de atuação. Como a rua não estava sendo habitada, era um bom espaço para fazer e levar música. Com referência no “corral de comedias” da Espanha, em que o teatro era feito em pátios, eles foram pensando em como fazer isso dar certo. A proposta era fazer música para se ouvir de longe, respeitando o isolamento, tendo o coro dos espectadores em suas casas como o único elo entre eles.
No início, o projeto era comercial. As pessoas buscavam a seresta para presentear outras. E deu certo. Alexandre, para idealizar o repertório, precisou voltar no conceito de seresta e, mais que isso, imergir nas músicas antigas, principalmente as da época áurea do rádio, que foram unanimidade, independente da idade, para que as vozes das janelas fossem o coro do seu instrumento, o violão.
Seresta como perspectiva
Até que começaram a aparecer os editais culturais emergenciais. “A gente começou a pensar como transformar uma coisa que era para vender em uma concepção mais artística e reverter isso, de alguma forma, para a cidade”, diz Gabriela. Foi, então, que surgiu a ideia de homenagear alguns nomes da cultura de Juiz de Fora. As primeiras foram as Irmãs Barbosa, através do edital “Na nuvem”, da Funalfa. Depois, outros foram surgindo e o conceito também foi se ampliando. “Além dos músicos, a gente começou a pensar no nosso olhar, em olhar para a arquitetura da cidade, que estava vazia. Até a olhar para trás também, porque a gente estava sem perspectiva. Isso explica, por exemplo, o porquê de serem serenatas.”
O conceito foi sobrevivendo e ganhando novos elementos. Aprovados em um dos editais do Programa Cultural Murilo Mendes, Alexandre e Gabriela foram pensando em outros homenageados. Mas a prioridade era pensar na cidade como um todo, em diferentes tipos de artistas e de pluralidade. Depois disso, eles tiveram a ideia de homenagear a cidade por si só. Pensaram, então, nas vilas. “As vilas têm um modo comunitário muito próprio, que é diferente do urbano. A relação deles é interessante.” Por causa disso, além de ir à casa de pessoas, eles vão a vilas. Pensam nos habitantes como um todo. Homenagem coletiva e una. Até agora, o projeto já passou por vilas do Alto dos Passos, de Santa Luzia e do Centro; e homenageou os artistas Marcos Marinho (ator), José Ricardo, conhecido como Pelé (mestre sala), André Pires (maestro) e Suca e Dé (palhaço e mestre do Folia de Reis). As outras que ainda vão acontecer são surpresa.
Plateia no palco
Para que dê certo, antes do grande dia, que é quase como uma festa surpresa, eles conversam com uma pessoa da vila ou com alguém próximo do homenageado. A turma chega e, em 30 minutos, faz a serenata, que, em momento algum, tem a intenção de virar festa. É pura e simplesmente uma homenagem emocionada. Além das clássicas de serenata, duas músicas da seleção são escolhidas de acordo com a história do homenageado. “Uma coisa que a gente tem visto com os músicos é que a gente chega tocando e, de repente, eles pegam seus instrumentos e fazem a seresta junto com a gente. A gente acaba borrando esse conceito entre palco e plateia, e da própria vida”, diz Gabriela. Para ela, a espontaneidade da surpresa também ajuda na emoção.
Além de Alexandre, outros músicos são convidados para participar das serestas, fazendo duos ou trios. Até agora, já participaram André Ravi (violino), Wendel Henriques (saxofone), Fabricia Valle (percussionista) e Daniel dos Santos (flautista). A ideia é, com isso, apresentar os músicos da cidade às comunidades. Esse diálogo tem ajudado Alexandre a pensar nos arranjos de música que nem sempre foram pensadas para esse formato. É, também, um trabalho de pesquisa e memória.
O nome? “Ser-estar” revela a necessidade da presença. De estar naquele espaço de maneira completa, segundo Gabriela. “A gente, pensando nos verbos, imaginou o que queria produzir. A gente quer enxergar a presença em potência, em um momento que mostra a importância disso. Além disso, tem a ideia de fazer refletir sobre o não estar.”

