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Questão de matemática

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Na manhã de ontem, um comunicado no Facebook pegou Juiz de Fora de surpresa. A Misailidis Produções suspendeu sua programação prevista para o Cine-Theatro Central no ano de 2015. “Fazemos questão de registrar que o motivo do cancelamento das datas de nossas produções se dá pela impossibilidade de manter as produções a partir do reajuste oferecido de quase 10% proposto pelo Cine-Theatro Central, ficando este bem acima do reajuste estipulado pelo governo IGPM de 3,9638 do mês de janeiro de 2015 e ainda aumento do percentual de bilheteria de 8% para 12%”, escreveram os diretores Dani Marie e Marcelo Misailidis na carta encaminhada ao Conselho Diretor do Cine-Theatro Central.

Administrado pela Universidade Federal de Juiz de Fora, o espaço terá a porcentagem da bilheteria e do aluguel reajustada a partir de março. Na nova tabela, o valor mínimo de locação para shows e espetáculos de quinta a sábado salta dos R$ 3.980 atuais para R$ 4.366,06 (9,6%), ou dos 8% cobrados em cima da bilheteria para 12%. No caso de formatura de universidades e faculdades particulares, a empresa que pagou, em 2014, R$ 10.250 agora passa a arcar com R$ 15.293. Se, de um lado, os produtores locais consideram o aumento abusivo e chegam a colocar na mesa a inviabilidade de se trabalhar com a cultura no município, do outro, o conselho do teatro ressalta os altos custos para se manter uma casa do porte do Central.

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O espaço, com capacidade para 1.850 lugares, é tombado pelo Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) desde 1994, o que requer uma série de cuidados especiais.

Para Dani Marie, a conta é simples: como uma produção local recebe da nacional cerca de 10% a 25% do valor de bilheteria, usado ainda para arcar com despesas de confecção de ingressos, luz, som, divulgação, transporte, alimentação e estadia do elenco, o prejuízo de se manter a programação com nomes de peso na mais importante casa de espetáculos da cidade é “certo e garantido”. “Eles esquecem que, além dos 12%, são 3% de ISS e 10% de Ecad. Só aí já foram os 25%. Nesse caso, vamos ter que pagar para trabalhar ou então aumentar o valor do ingresso, mas não posso repassar esses custos para as pessoas. A cidade não tem público para pagar uma entrada no valor de R$ 150 ou R$ 200. Vou manter somente a apresentação do balé no fim do ano, porque é da escola”, diz a bailarina, que tinha a expectativa de levar para o Central neste ano uma média de um espetáculo por mês.

Segundo ela, já havia trabalhos agendados para abril, maio e junho. Entre os grandes nomes confirmados, estavam Cissa Guimarães, Cia de Dança Deborah Colker e Oswaldo Montenegro. “Lamentavelmente, o Cine-Theatro Central deveria conhecer melhor sua vocação de sala de grandes espetáculos, pois, deste modo, só será possível viabilizar produções de monólogos e comediantes que, eventualmente, trabalham com um refletor, um banquinho e um microfone e podem oferecer com isso percentuais possíveis para os produtores locais, porque sequer antecedência de chegada para ensaio e montagem essas produções necessitam.”

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Custos justificados na ponta do lápis

Pró-reitor de Cultura da Universidade Federal de Juiz de Fora e presidente do Conselho Diretor do Cine-Theatro Central, Gerson Guedes destaca que o aumento foi feito com base no levantamento de custos com segurança, portaria, limpeza, conservação, pessoal administrativo e técnico, telefone, água, energia elétrica, manutenção e material de limpeza. “Totalizando, temos um gasto de R$ 4.300 por espetáculo. Só o serviço de segurança de portaria fica em R$ 2.020 mil”, salienta o pró-reitor, chamando atenção para o fato de que as melhorias conquistadas com as obras de restauro no teatro não entraram nessa conta. “Em nenhum momento, incluímos o restauro de mais de R$ 1 milhão. Foram feitas troca de cortinas para um material anti-incêndio e compra de sonorização nova aprovada pelo Iphan. Pode comparar o aluguel do Central com o de qualquer outra casa de Juiz de Fora para perceber que ele ainda é barato pela sua capacidade. Não estamos locando um imóvel, estamos alugando uma estrutura. É diferente. As pessoas precisam entender isso. Quando alugo uma casa, sou eu quem pago a conta de água e não o dono. Se quiserem, podemos tirar o serviço de segurança, por exemplo. Aí a pessoa contrata um particular.”

Enquanto conversava com a Tribuna, o produtor Serjão Evangelista ainda não havia tido acesso à nova tabela, mas lamentava sua aprovação. “O aluguel do teatro não me preocupa, porque sempre ultrapasso o valor mínimo de locação. O que me preocupa é o percentual da bilheteria, que é muito pesado, ainda mais para quem trabalha com seriedade. Baseado nele, trazer alguém do porte de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Djavan e Milton Nascimento fica difícil. Se hoje faço R$ 100 mil de bilheteria, pago R$ 8 mil ao teatro, por exemplo. Com a correção, pagarei R$ 12 mil. Não ponho um artista dentro do Central com um som de R$ 3 mil e, sim, de R$ 8 mil. O aumento é salgado, porque eles não oferecem nada além do espaço físico e do porteiro.”

No momento, Serjão investe na divulgação do show conjunto de Flávio Venturini, Sá e Guarabyra e 14 Bis, marcado para o dia 14 de março no Central. “Fechei na tabela antiga. Não sei o que vou fazer, porque gosto muito de trabalhar no Central. Vou sugerir aos produtores que façamos uma carta para o conselho.”

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Também à frente de espetáculos do eixo Rio-São Paulo que passaram por aqui, como o stand-up de Fábio Porchat, o produtor e humorista Gueminho Bernardes está pessimista diante desse cenário que se desenha. “Como se trata de um espaço público, deveríamos ter uma política de incentivo à cultura. Lá não pode ser operado como um teatro qualquer. Raramente trabalhamos com alguém que aceita nos repassar 30% de bilheteria, e isso é uma matemática de risco. Temos que pagar tudo e por sorte ganhar algum. Trabalhamos em cima de uma atração seis meses antes. Nessa atual gestão do conselho, se não me engano, não há qualquer produtor participando, o que significa que não existe o ponto de vista de quem trabalha com teatro”, destaca Gueminho, aguardando a publicação do edital do Projeto Luz da Terra, de incentivo à cultura local, para fechar a agenda de 2015.

Conforme o pró-reitor de cultura Gerson Guedes, ainda que sem poder de voto, um membro da classe artística será convidado a integrar as reuniões do conselho, que é formado por representantes da Universidade, do Cine-Theatro Central e do Sindicato dos Trabalhadores Técnico-Administrativos em Educação das Instituições Federais de Ensino no Município de Juiz de Fora (Sintufejuf).

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