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‘Transformo dor em palavra escrita’

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É difícil indagar quando o entrevistado consegue, desde criança, transformar dor em palavra escrita. Desde que passou a dar sentido à própria existência, enxergando delicadezas em meio à dura realidade, Eliane Brum tornou-se porta voz de pessoas comuns, aquelas que são deixadas de lado. Foi assim quando se deparou com a morte ao acompanhar uma mulher com um câncer incurável durante 115 dias. É assim quando escuta uma indígena fazer literatura pela boca. O que eu nunca tive dúvida era de que escrever era o que me dava a possibilidade de viver. Com o tempo, construí uma vida em que o sentido se dá no ato de decifrar como cada um dá sentido a sua vida. Esta é a pergunta que me move na reportagem.

Considerada uma das jornalistas mais premiadas do Brasil no ano de 2011, Eliane não perde a sensibilidade de se espantar com o que ouve e vê. Por mais de quatro anos até setembro de 2013, conversou com os leitores em sua coluna no site da revista Época. Uma coletânea de 64 textos publicados está registrada em A menina quebrada (Arquipélago Editorial). O lançamento em Minas Gerais acontece hoje, às 19h30, no Centro de Convenções do Hospital Mater Dei, em Belo Horizonte. Sempre escrevi para desacomodar o leitor, não para apaziguá-lo. Mas, para ser capaz de alcançar isso, precisava primeiro desacomodar a mim mesma. É este exercício que aparece agora, de forma mais clara, no livro, reflete.

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Quando lancei o livro, não tinha intenção de me despedir da coluna. Acreditava que havia um percurso que valia a pena empreender. Algumas colunas provocam perguntas que só são respondidas mais adiante. Outras ampliam questões que haviam sido apenas sugeridas. Essa conversa se perde com as colunas esparsas na internet e ganha uma outra densidade com o livro. ‘A menina quebrada’ é um pequeno retrato de uma época, contado a partir do meu olhar, define, adiantando o que pode ser encontrado na publicação. Incluí temas que me são mais caros e que assinalam nosso tempo: a dificuldade de aceitar as marcas, as físicas e as psíquicas, a medicalização da vida, a ditadura da felicidade, a relação de pais e filhos mediada pelo consumo, as questões da identidade, assim como do envelhecimento e da morte. E, também, os temas socioambientais e, especialmente, a Amazônia. Faço, ainda, alguns mergulhos nas minhas memórias.

Em entrevista à Tribuna, a autora, que estreou na ficção com Uma duas (Leya), definiu sua experiência com a escrita, confidenciou ainda sofrer com o vazio que surge durante o processo de apuração e mostrou sua impaciência diante da impunidade, da intolerância e do genocídio brasileiro, fazendo coro com o escritor Luiz Ruffato, que polemizou com o desabafo feito em Frankfurt no início de outubro.

Tribuna – Sofre para encontrar a maneira correta de contar uma história?

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Eliane Brum – Este sofrimento, em geral, acontece ao longo do processo de apuração. Há sempre um momento em que me perco por completo. É o momento mais duro, porque é preciso aguentar o vazio. Então, começo a compreender a história, que é sempre como um outro, ou vários outros, compreendem sua posição no mundo. É neste momento que a história começa a se escrever primeiro dentro de mim. Quem me dá as palavras, o ritmo, a linguagem, mesmo, é sempre o outro que fui buscar. Como repórter, preciso, de certa forma, emprestar o meu corpo para essa decifração. Quem lê minhas reportagens e mesmo minhas colunas vai perceber que não há um estilo só, não há uma linguagem só, mas muitas, porque cada história tem seu próprio jeito de se contar. Meu desafio é descobrir qual é.

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– Você ainda consegue se surpreender com o que apura?

– Toda reportagem começa por um espanto diante do mundo. Ser repórter é ter a ousadia de se arriscar ao desconhecido que é o outro e o mundo do outro. Sem espanto, não há reportagem. Se não me espantei, não é porque não há com o que se espantar. Eu é que não me entreguei o suficiente para ser capaz de me espantar. Se alguém não me contar uma história extraordinária, não é porque esta pessoa não tem uma história extraordinária, mas eu é que não fui capaz de buscá-la. Ser repórter é um ato profundo de entrega. Quando eu perder a capacidade do espanto, será um tipo de morte.

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– Como chega às histórias?

– Para mim, a escuta é o principal instrumento do repórter. A escuta com todos os sentidos. Antes de buscarmos as ruas do mundo, precisamos atravessar a rua de nós mesmos. Isso significa se esvaziar de nossas visões de mundo, de nossos preconceitos, de nossos julgamentos, para irmos em direção ao mundo que é outro o mais vazio possível. Se não fazemos este, que é o movimento essencial da reportagem, não há reportagem, mesmo que atravessemos concretamente o mundo em busca dela. Atravessamos o mundo, mas não saímos do nosso umbigo. O repórter é aquele que se desabita, por um momento, para ser habitado pela linguagem que é o outro.

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– Você sempre diz que escutar é mais importante que perguntar.

– Quando é possível, nem mesmo faço a primeira pergunta. Acho que a primeira pergunta sempre conta mais de nós do que de quem queremos buscar. É também uma forma de controle, na medida em que determina o que estamos buscando. Então, quando é possível, eu apenas digo: Me conta. E é impressionante como as pessoas começam a se contar por lugares e questões que eu jamais imaginaria.

– Tem previsão de lançar outro livro de ficção?

– Tenho a ideia para escrevê-lo, mas ainda não tenho o espaço interno. Estou trabalhando agora com uma outra escrita, que não é nem a da reportagem nem a da ficção. Devo lançar um livro no ano que vem, mas nunca falo sobre o que estou escrevendo, porque é como uma gestação. Não sei exatamente se o que vai sair de mim é um bebê ou um alien.

– Em discurso em Frankfurt, ao lado de outros escritores, Luiz Ruffato fez um desabafo sobre o Brasil. O que pensa sobre seu país?

– O Brasil tem genocídio, impunidade, intolerância. Achei o discurso do Ruffato muito importante. Vivemos um momento, em especial, em que parte da elite, representada pelo latifúndio, tenta, mais uma vez, avançar sobre os direitos indígenas, sobre as terras públicas destinadas aos povos indígenas, ignorando a imensa riqueza cultural representada pelas mais de 200 etnias, sem contar que são os índios os principais protetores da biodiversidade brasileira. É fundamental pensar sobre isso num momento em que este é um campo em conflito, e nosso futuro está sendo decidido sem a participação de todos. É um país cheio de brutalidade, mas também cheio de delicadeza. Sou fascinada, especialmente, pela linguagem do povo brasileiro, dos vários povos brasileiros. Muitas vezes estive diante de analfabetos que faziam literatura pela boca. Com achados de linguagem, invenções, absolutamente extraordinárias. Dorica, por exemplo, uma indígena da etnia caripuna, com 96 anos, assim me explicou o seu ofício: A parteira povoa o mundo nas horas mortas da noite. Se pensarmos que ela disse esta frase não com a primeira língua dela, que eu não falo, e portanto ela teve a gentileza de se expressar em português, torna-se uma frase ainda mais extraordinária. Ela constrói esta frase na segunda língua dela, esta mulher analfabeta, lutando pela existência daquilo que ela é. Vou continuar buscando iluminar, pela minha escrita, tanto as brutalidades quanto as delicadezas.

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