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Uma década de intercâmbio latino-americano

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"Há dois anos, um comercial de TV ganhou todos os prêmios de publicidade. Ele foi realizado por uma criativa, talentosíssima e genial chamada Angélica Siso; ou seja, eu. Esse comercial divulga uma série de exercícios para queimar gordura e tonificar o corpo. (…) Eu não sou demais? Bem, na verdade a idéia não é minha, mas da minha amiga Martina. Acontece que eu sou de Áries, e os arianos, assim como os pastores, fazem o que for pelas suas ovelhas. Béééééééé!", diz a nada modesta publicitária Angélica em cena inicial de "Gordinhas".

Escrita pelo venezuelano Gustavo Ott, traduzida por Luciana Fins e dirigida por Gabriela Machado, a obra é a atração de hoje, às 20h30, do "Teatro lido" – ciclo de leituras de textos teatrais contemporâneos da América Latina"-, projeto contemplado pela Funarte no Edital Prêmio Pró-cultura de Estímulo ao Circo, Dança e Teatro 2010 – em cartaz no Espaço Mezcla todas as quartas de outubro e novembro. "É uma comédia bem divertida, ácida, inteligente e que tem um forte cunho social", afirma Marcos Marinho, idealizador do projeto. "As personagens trabalham em uma agência publicitária e fazem de tudo para vender gato por lebre. Elas bolam um plano para ganhar um prêmio, e, nessa hora, vale tudo", conta.

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No palco, quatro mulheres, ou melhor, quatro homens, destilam seus venenos e alimentam suas esperanças, enquanto suam a camisa numa academia de ginástica e fazem de tudo para queimar as indesejáveis gordurinhas. Como não podia deixar de ser, os assuntos vão da dieta à maquiagem. Em vez de figurinos estereotipados, calça e paletó e apenas alguns adereços do universo feminino. "É uma peça que nos faz perceber o quanto as mulheres, quando estão no poder, reproduzem os discursos masculinos. O uso de atores no lugar de atrizes é para ressaltar o tom forte do texto." No elenco, estão Marcos Marinho, no papel de Angélica, José Eduardo Arcuri, como Martina, Marcus Amaral, na pele de Elvira, e Ricardo Martins dá vida à Valentina.

 

Era preciso ter um mínimo de desenvoltura

Marinho ainda cursava filosofia e educação artística na PUC-Rio, quando teve os primeiros contatos com a cultura latino-americana. "Vários amigos meus moravam em países vizinhos ao Brasil, e eu viajo muito por esses lugares", comenta. Em 2003, já contando com um vasto acervo de obras, adquiridas por meio de amigos ou em viagens, ele e o ator José Eduardo Arcuri pensaram em realizar aqui na cidade um ciclo de leituras que fosse coletivo. "Quando o Mezcla foi inaugurado em 2002, eu já tinha um arquivo muito grande. Por isso, optamos por trabalhar com textos contemporâneos e que fossem de autores de 1990 para cá. Era preciso fechar o universo de atuação", afirma. Da criação do espaço até hoje, já são dez anos de atividades realizadas com o objetivo de aproximar e valorizar a cultura latino-americana.

Não só atores, mas artistas plásticos, palhaços, fotógrafos, músicos e, é claro, pessoas amigas da casa, já tiveram o gostinho de subir ao palco e dar vida a vários personagens. Nos anos iniciais, não havia seleção de elenco. "Era preciso ter somente um mínimo de desenvoltura", diz. Marinho conta que o recebimento, em 2007, do prêmio Myrian Muniz de Teatro, fez com que o cenário mudasse um pouquinho. "Nesse ano, tivemos que fazer duas edições do ‘Teatro lido’, selecionamos o elenco e passamos a escalar um diretor para cada leitura", destaca. "Tentamos misturar pessoas de diversos grupos da cidade para fazer uma integração. É uma possibilidade de nos encontrarmos", diz, ressaltando o tom provocativo do projeto. "Normalmente, o público de teatro é composto por amigos e familiares. Trazer esse pessoal para se apresentar aqui é uma forma de misturar espectadores e descobrir novos atores", conclui.

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