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‘Literatura não é panfleto’

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Possuidor de um discurso franco e direto e dono de "um realismo feroz", nas palavras de Antonio Candido, Ignácio de Loyola Brandão só ainda não emprestou sua escrita para a TV e a sétima arte. De resto, é cronista, contista, jornalista, romancista. "Nunca recebi convite, nunca tive o elemento que fizesse a ligação. Escrever minissérie me encantaria", comenta o escritor, que, devido a uma brincadeira do diretor e amigo Anselmo Duarte, foi figurante em "O pagador de promessas", quando tinha 16 anos. Aliás, foi sua atuação como crítico de cinema a responsável pela criação de vários de seus livros. Uma de suas obras-primas e marco da literatura brasileira, "Zero", de 1975, sofreu influência do filme "Oito e meio", de Federico Fellini, ganhando a estrutura de um roteiro, com seus vários planos.

Embora seja defensor de que a literatura não deva ser revolucionária, esse romance denuncia o clima de um país sob a ditadura militar. "A literatura deve ser literatura", afirma o autor, que vem a Juiz de Fora nesta quarta como convidado do projeto Sesc Grandes Escritores. O encontro será realizado, às 20h, no auditório I do Instituto Metodista Granbery, com entrada gratuita. É necessário retirar senha com uma hora de antecedência. No sábado e domingo, a iniciativa também promoverá oficinas relacionadas a Loyola, com André Capilé e Anelise Freitas. Neste caso, as inscrições devem ser feitas pelo telefone 3215-1908.

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Em mais de meio século de profissão, Ignácio escreveu mais de 40 livros, entre os quais o também polêmico "Não verás país nenhum". Para além da ficção, também é um dos autores brasileiros que mais produzem por encomenda. Na sua lista, estão a biografia de "Fleming", descobridor da penicilina, e "Ruth Cardoso – Fragmentos de uma vida". Em entrevista à Tribuna, por e-mail, ele falou sobre como é criar nestes moldes, não mediu palavras ao avaliar fenômenos de vendas, como padre Marcelo Rossi e Augusto Cury, e comentou sobre seu mais recente livro, "Solidão no fundo da agulha". Recém-chegado às prateleiras, é uma obra que traz crônicas e contos inspirados em músicas que remetem a momentos marcantes da vida de seu autor. Sua filha Rita Gullo é quem empresta a voz às composições. "A música não se dirige a um tempo só, a um determinado período. Posso garantir que o fato de a primeira edição ter se esgotado rapidamente prova alguma coisa. Agora, quando falo de canções, de música, excluo Michel Teló, Cláudia Leitte, Alexandre Pires, o funk, Zezé di Camargo etc, etc, etc", enfatiza.

 

Tribuna – A literatura deve ser revolucionária? Onde situa o "Zero"?

Ignácio de Loyola Brandão – A literatura deve ser literatura. Literatura não é panfleto, mas, no momento em que reproduz o homem brasileiro, a realidade brasileira, ela acaba sendo política, assim como Cervantes, Shakespeare, García Márquez e outros foram políticos. Quanto ao "Zero", vejo hoje como se tornou um livro emblemático, reproduzindo o Brasil dos anos 1960, em plena ditadura, dentro de uma estrutura nova, espantosamente identificada à situação que o Brasil vivia, fragmentada, estilhaçada.

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– "Não verás país nenhum" pode ser considerado um livro de denúncia e contestação. Como o senhor avalia o cenário brasileiro 30 anos depois de sua publicação?

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– Naquela época, formava-se uma débil consciência sobre o que seria o meio ambiente. Passados 30 anos, há dezenas de movimentos, leis, organizações, associações. Mas o Amazonas continua a ser devastado, as águas, maltratadas, a poluição é maior, espécies de animais morrem. E o governo instiga a população a comprar mais e mais carros. E os apagões se sucedem. O livro está atual, vejam os congestionamentos, o aquecimento global etc

 

– Você já passou por ausência de inspiração?

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– Já tive bloqueios, já tive vontade de nunca mais escrever. O "branco" e a falta de inspiração forneceram o tema de uma obra-prima cinematográfica, o "Oito e meio". Perfeito, Fellini (Federico Fellini) falou por todos nós. O criador cria a partir do nada.

 

– Quais são suas leituras?

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Jornais, folhetos apanhados na rua, cartas, bulas de remédio, almanaques, Graciliano Ramos, Carson Mc Cullers, Ernest Hemingway, Truman Capote, Cesare Pavese, Valter Hugo Mãe, Melville, John Updike, John Fante, Ricardo Guilherme Dicke, Antônio Torres, Julio Cortazar, revista "Galileu", livros de gastronomia, biografias.

 

– É desejo de todo escritor fazer escola?

– Meu desejo é escrever.

 

– O que pensa sobre estas feiras literárias, como a Flip?

– Sabe a quantas feiras, encontros, seminários, bienais fui nos dois últimos anos? Quarenta e seis. Tudo vem relatado no meu novo livro, "O mel de ocara", que será lançado em São Paulo no dia 2 de outubro. São movimentos necessários, pouco a pouco seduzem leitores, professores. É uma nova forma de tentar conquistar leitores, fazer a literatura conhecida.

 

– "Eu recuso essa coisa experimental porque é um pouco de frescura, um pouco de posse, de intelectualismo", disse o senhor numa entrevista em 2011. Seus livros lembram roteiros de cinema. Isso não poderia ser um tipo de experimentalismo, de inovação da linguagem?

– Eu disse isso? Muitas vezes, minha paixão por cinema me faz escrever como se estivesse escrevendo um roteiro. Colocando imagens em movimento. Não recuso coisas experimentais. Quem quiser fazer, faça. Se ela é necessária para o criador, ele que utilize o recurso que quiser.

 

– Você tem uma forte ligação com o cinema e, no entanto, declarou que nunca vendeu "Zero" para as telonas, apesar das propostas, e que nunca faria isso. Também falou que o cinema brasileiro é muito "capenga". Este seria o motivo de não vendê-lo?

– A dificuldade de transportar "Zero" para o cinema é imensa, como roteiro, como produção. Precisaria ser alguém que viveu aquela época, precisaria ser alguém com imenso espírito crítico, mão segura, domínio total da estrutura. E a forma do romance? Como passar aquilo para o cinema sem ser chato? Estamos, com pouquíssimas exceções, fazendo comediazinhas de sucesso para atores que vêm das novelas e precisam faturar. Bobageira. Mas vez ou outra surge um filme como esse sobre a relação de Elizabeth Bishop e Lotta. Temos uma magnífica atriz de cinema, Gloria Pires.

 

– Como vê os autores que se tornam fenômenos, como Padre Marcelo Rossi, Augusto Cury e Paulo Coelho?

– "Ágape" é um caça-níquel tremendo, uma besteira inominável. Não é literatura, não é nada. Está cheio de padres nas estantes. E aquele Fábio qualquer coisa? Esse Augusto Cury é de uma chatice e uma repetição insuportável. Paulo Coelho é Paulo Coelho, um ser à parte, um escritor atípico, que também não quer dizer nada.

 

– A revista britânica "Granta" publicou no ano passado uma edição com "Os melhores jovens escritores brasileiros", entre eles J.P. Cuenca, Laura Erber, Daniel Galera, Carola Saavedra e Tatiana Salem Levy. O que esta lista representa para a nossa literatura?

– A resposta será dada pelo tempo que tudo apura, depura, corta, mantém, conserva, deleta.

 

– Você é um dos grandes nomes da nossa literatura que escreve sob encomenda. Há quem diga ser impossível fazer uma obra de arte escrevendo nestes moldes. Como vê essa questão?

– Nunca escrevi ficção sob encomenda. Para a ficção, você precisa de um toque, um insight, uma inspiração, seja lá o que isso signifique. O livro sob encomenda já vem com a "inspiração": o assunto é esse, o homem (ou mulher) é este, a empresa que faz cem anos é esta. Se você é um bom profissional, vai fazer benfeito, seu nome está em jogo, e o livro "encomendado" é um desafio. E diverte. Quando o tema, o assunto, a pessoa me interessam, faço livros institucionais ou determinadas biografias. Mas primeiro converso com quem está me chamando, ouço, digo sim, digo não. Escrever a história do Leite de Rosas foi fascinante, o criador dessa loção foi um gênio empreendedor, sua vida, um romance. E Carlos Martins, dono da rede Wizard de escolas de línguas? Seu pai era caminhoneiro, ele aprendeu inglês com missionários mórmons, foi o aluno mais pobre da universidade em que estudou e criou um método revolucionário de ensino. Aceitar tais livros para mim é estar escrevendo a história das empresas privadas no Brasil.

 

PALESTRA IGNÁCIO DE LOYOLA BRANDÃO 

Nesta quarta, às 20h 

Instituto Metodista Granbery

(Rua Batista de Oliveira 1.145 – Granbery) 

Entrada gratuita. Senha retirada uma hora antes da palestra

 

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