Do grego, oneiro significa sonho. Na mitologia, de acordo com Hesíodo, é filho de Nix, a noite, e irmão de Hipnos, o sono, Tânato, a morte, e Geras, a velhice. Mesmo fazendo referência aos mitos e estabelecendo um forte diálogo com a tradição, o recém-lançado "As miniaturas" (Companhia das Letras, 128 páginas), de Andréa del Fuego, penetra nas frestas da originalidade para descortinar um universo que nem sequer a ciência dá conta.
Localizado numa região central de uma cidade qualquer (aparentemente uma metrópole), o Edifício Midoro Filho funciona como uma repartição, com suas burocracias e seus métodos rígidos. Pelos seus muitos andares, espalham-se os oneiros, profissionais que cuidam dos sonhos de cada pessoa, seguindo as regras de um jogo duro, no qual é proibido atender membros de uma mesma família.
As pessoas entram no prédio e se dirigem às salas desses trabalhadores, que lhe mostram objetos cotidianos – miniaturas do que é real -, instigando as pequenas aventuras noturnas. Os instantes manipulados parecem interferir no próprio dia a dia dos que se deitam nas cadeiras reclinadas. "Na minha gaveta, há dezenas de miniaturas, sozinhas elas não funcionam, há o comando de voz, é preciso que eu diga uma frase-chave", conta, logo no início do relato, um dos profissionais do imenso prédio.
Dividindo o protagonismo da trama, o tal oneiro sem nome acaba por transgredir as normas ao atender mãe e filho, as outras duas vozes principais. "Gostaria de ser poupado de ver a pessoa entrar na sala, eu poderia ficar atrás de um biombo e ser chamado assim que o sujeito já estivesse sentado, também sugiro asseio na seleção que ocorre no térreo, gente com incontinência urinária deveria passar por um chuveirão, há suores ácidos que também se resolveriam com um talco antisséptico", comenta o oneiro beirando o mau humor.
Enquanto não dorme
Entre a acidez e a negligência desmedida, o oneiro descreve sua rotina enfadonha buscando brechas para trair o tédio e modificar, mesmo que minimamente, o sistema do edifício. Esperto, ele conheceu mãe e filho pelo intermédio de dois vizinhos, que lhe repassaram suas cartelas de sonhantes (os tais clientes) para participarem de uma reciclagem, exercício que ele mesmo nunca fez. Aos poucos, foi se envolvendo com a família, restrita aos dois já que o pai saiu de casa e não mais voltou.
Confusa, a relação da mãe e do filho se estabelece pelo masoquismo da mulher em impor o futuro que deseja ao adolescente. Mesmo com o anseio de se dedicar apenas aos estudos, o garoto acaba aceitando a indicação de trabalhar para bancar suas próprias escolhas, certo de que essa pode ser uma forma de distanciamento das imposições maternas. "Gilsinho não sonha, pergunto e ele diz que não se lembra, acho que não fala para que eu não comece a decifrar sem parar", diz a mulher.
Taxista trabalhadora, à beira de um ataque de nervos, a mãe narra uma das passagens mais emocionantes e significativas do livro, quando uma pequena família do subúrbio solicita seus serviços para desembarcar no centro, onde trabalhariam no sinal, pedindo esmola. Um jovem cadeirante e sua mãe – no que poderia ser uma subversão da moral, já que ao mesmo tempo em que andam de táxi mendigam nas ruas – tocam de forma profunda a mãe taxista. Ali está, então, pelas mãos ágeis de Andréa del Fuego, o ser humano em sua essência.
E o filho também é mostrado no que há de visceral. "Ela pensa que nasci ontem. Não sairei do Jacaré enquanto meu pai não voltar, não vou deixar a velha virar indigente com um frentista casado", relata o jovem, que a todo tempo faz vistas grossas para o relacionamento da mãe com seu próprio patrão. Vítimas de uma realidade crua, onde não há tempo para devaneios e o que mais se exige é objetividades, mãe e filho fisgam o oneiro, justamente por serem o inverso do fantástico mundo onde ele vive.
Abandonando cada vez mais seu rigoroso código de conduta para se envolver na vida do rapaz e de sua mãe, o oneiro é rebaixado de sua função. Como nos órgão públicos, não há exceções, tudo é rígido e quase definitivo. Beirando o escárnio, a revista "Algodão", que circula no Edifício Midoro Filho revela os contrassensos desses espaços burocráticos. O que sai no periódico é que vale, o que não está ali não merece respeito.
Munida de arrebatadora força poética, Andréa del Fuego enreda o leitor na tênue fronteira entre sonho e realidade. As miniaturas são os impulsos para o mundo fantástico. Não é preciso grandiloquência para essa viagem. O ser humano, segundo o livro de Andréa, é propício aos sonhos. "Não envelheço como vejo acontecer com as pessoas que aqui vêm me ouvir atrás da mesa. As pessoas morrem um pedaço de dez em dez dias e sabem que isso pode ser mais rápido ainda se elas se recusarem a nos visitar. Soube há pouco que os sonhantes são aconselhados por médicos a sonhar semanalmente, pelo menos. Com risco de morrerem pior e mais cedo", expõe o oneiro.
