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Outras ideias – com Valdinei Magela Bernardes

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Às 10h40 de quinta-feira passada, entrei no ônibus 608, da linha Milho Branco, na Avenida Getúlio Vargas, para conhecer o responsável por uma agitada e famosa festa. Valdinei Magela Bernardes, ou apenas Magela, como os passageiros lhe cumprimentam ao rodar a roleta, não deixa o próprio aniversário passar em branco para ninguém. A cada ano, ele vence sua história ao festejar publicamente o dia em que nasceu. "Nunca tive festa, então botei na cabeça que quando pudesse, eu faria. Até quem não quer vir, é obrigado, já que ela é feita no ônibus", conta. Comemorada em junho, a festa desse ano teve bolo (embrulhado em papel alumínio) e refrigerante, que os próprios usuários distribuem entre si, passando de mão em mão.

Ao sair da garagem, o cobrador e o motorista adornaram a barra de ferro que vai da frente à traseira do teto do coletivo com cerca de 400 bolas de soprar. "O bolo só deu para duas viagens, mas o guaraná foi bastante", recorda Magela. Uma das passageiras ofereceu as lembrancinhas: um bombom embalado em tecido xadrez, com um cartão marcando a data. Outros lhe deram oito brindes (como uma boneca e um caminhão de brinquedo), que foram sorteados ao longo da manhã. Quem passava pela roleta ganhava um número de identificação, e o motorista tirava o sorteado. "Se eu entrei com R$ 50 foi muito", ri, demonstrando sua popularidade e o carinho que lhe dispensam.

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Sem chuveiro

Em outros anos, o cobrador também costumava convidar os passageiros para uma festa em um salão, estreitando ainda mais os laços. Esse ano não levou, porque acaba de trocar de linha – antes trabalhava no ônibus que atende o Bairro Fontesville -, o que lhe fez diminuir a carga de serviço, agrupando nas manhãs (ele sai às 12h30) sua jornada na lotação. Não chega a ser a bonança para o homem nascido em São Gonçalo do Pará, Centro-oeste de Minas, mas também já não representa as tempestades de outrora. Quando chegou à cidade, com dois anos, trazia consigo e com os oito irmãos a esperança como único norte. "Meu pai veio primeiro, depois trouxe a galera. Lá o bicho pegava, a dificuldade era muita", diz. "Lá era banho de bacia, e quando chegamos aqui nos deparamos com um chuveiro. Só eu fiquei tomando banho por 40 minutos", completa, emocionado, em meio aos arrancos e barulhos de um ônibus paulatinamente se enchendo. Aos 13, Magela começou a ajudar o pai com um carrinho de verduras. Após oito anos, teve sua carteira assinada pela primeira vez. Pouco tempo depois, entrou para a empresa na qual está há quase duas décadas. "Gosto bastante de trabalhar com as pessoas. Uma vez, quando me chamaram para trabalhar na garagem, meti o pé. Não gostei", brinca.

 

Picolé, palhaço e rádio

 

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Antes de ocupar o pequeno banco na entrada do ônibus, ele chegou a ser padeiro, depois de começar em uma padaria como vendedor de pão na rua. Entusiasmado, o cobrador que cumprimenta todos, pedindo que lancem um sorriso aos demais passageiros – e isso funciona, muitos são os que mudam o semblante ao atravessar a roleta! -, é um daqueles que veem a nobreza do trabalho árduo. Ao longo dos verões, ele vendia picolé na Zona Norte, onde mora. "Eram morros enormes que subia com o carrinho", lembra, dizendo que, se preciso for, retoma o ofício na próxima estação. Divertido, ele também costuma incorporar o Palhaço Pimentão em animação de festas, quando mostra seu talento para a globoflexia (aquela arte de fazer bichos com uma bola de soprar). Dono de uma voz grave e marcante, o cobrador dedica suas noites ao trabalho em uma rádio comunitária de Benfica, em que apresenta dois programas. Eleito profissional modelo por sete anos consecutivo, Magela conseguiu, com seu suor, construir a própria casa, com seis cômodos, situada no Nova Era, comprar um Prisma, modelo 2008, que termina de quitar no ano que vem, e formar a única filha em gestão de recursos humanos.

 

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Rumo à Câmara

O homem que sorri e brinca com os passageiros, lê jornais para eles e sempre organiza algo para comemorar, no ônibus, datas como o dia dos pais e das mães, diz ainda ter um sonho. "Futuro vereador 2016. Agora é a minha vez", conta, afirmando já ter ajudado políticos que hoje estão no governo. Esclarece, porém, que toda sua simpatia não é um recurso para angariar futuros votos, ele revela já ser filiado ao PSD, mas pretende migrar para o PROS até a disputa das próximas eleições. "Não é por interesse próprio, é vontade de ser eleito e poder ajudar as pessoas", ressalta. Nesse momento, ele estende o corpo e ajuda uma mãe a passar o filho na roleta. Integrante do Sindicato de Trabalhadores do Transporte Público de Juiz de Fora, Magela se compromete a lutar pela classe, mas espera poder se "voltar mais para a área da saúde". Ele, que já foi a Brasília em uma excursão, me conta de seu desejo em conciliar o ônibus e a câmara na vida futura. Logo depois, às 11h05, desembarco no mesmo ponto onde entrei. Como um anfitrião, Magela se despede e logo em seguida começa a receber novos convidados em seu salão ambulante.

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