O Capital Inicial é um caso ímpar do rock nacional. Conseguindo sobreviver às mudanças nas marés musicais graças à genialidade alheia, o grupo sempre foi conhecido pelos mais antigos como a banda de dois ex-integrantes do Aborto Elétrico (a pedra fundamental da Legião Urbana) e por ter vivido anos sem fim tendo como principais sucessos as músicas que Renato Russo escreveu há mais de 30 anos – tanto que chegou a ter a cara dura de gravar o tenebroso "MTV Especial: Aborto Elétrico", com raridades nunca lançadas na voz de seu autor original. Para os mais novos, porém, é aquele grupo do "vocalista que vive sem camisa" (Dinho Ouro Preto), que saiu do ostracismo com um álbum acústico em que seu maior sucesso foi a destruição da belíssima e melancólica "Tudo que vai", de Toni Platão, Dado Villa-Lobos e Alvin L. E que mostra no EP "Viva a revolução", seu mais novo trabalho, que continua dependendo da benevolência de terceiros para tentar se manter ao sol.
O que não quer dizer que não tenham recebido ajuda: o sucessor de "Saturno" (2012) é mais um disco em que Alvin L. trabalha com Dinho Ouro Preto, com participação eventual de Thiago Castanho, ex-Charlie Brown Jr. A presença do autor da já citada "Tudo que vai" e "Não sei dançar", entretanto, não é suficiente para salvar a pátria do Capital. A primeira música, "Melhor do que ontem", é a melhor da leva com sua musicalidade delicada. Não por acaso foi escolhida para "puxar" o EP, com direito a videoclipe. A maioria das outras canções segue no mesmo pop-rock de baixas calorias do grupo. Elas podem até ser assobiáveis, mas sofrem com letras sofríveis ("Tarde demais", "Bom dia mundo cruel" e "Coração vazio", sendo esta a confirmação de que a voz afetada de Dinho é a mais irritante do Rock Brasil).
Mas o mais constrangedor no novo trabalho da banda de Brasília é a sua eterna insistência em se colocar como "a voz indignada de uma geração" ou os "herdeiros espirituais da Legião". A faixa-título, assim como a música de trabalho, tenta pegar carona nos protestos que tomaram conta do país em junho de 2013, mas versos como "Com flores no cabelo / E lágrimas nos olhos / Fumaça na cabeça / E flechas no seu coração / Vamos todos para a rua / onde todos cantarão / Viva a revolução" são de uma pobreza e ingenuidade incomparáveis – ou seria apenas mero oportunismo? A canção aparece em duas versões, uma delas com a participação do ConeCrewDiretoria, mas nem a falação inspirada dos rappers cariocas apaga a péssima impressão deixada pelo grupo. "Não tenho nome", a faixa seguinte, segue a mesma fracassada tentativa de soar politizado.
Muito da pasteurização presente nas seis/sete canções de "Viva a revolução" pode ser creditada ao onipresente produtor Liminha, que volta a trabalhar com o Capital após um intervalo de 30 anos. Mas o grosso da culpa deve ser creditado ao grupo que, nas palavras de Dinho, resolveu apostar nas metáforas para enviar sua mensagem – que, pelo jeito, vai ficar perdida pelo caminho.
