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O significado das coisas

cesar brandao prepara exposicao para setembro para marcar lancamento do livro em juiz de fora marcelo ribeiro22 07 15

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César Brandão prepara exposição para setembro para marcar lançamento do livro em Juiz  de Fora  (Marcelo Ribeiro/22-07-15)
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César Brandão prepara exposição para setembro para marcar lançamento do livro em Juiz de Fora (Marcelo Ribeiro/22-07-15)

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Um elefante, uma cobra, um coelho, uma coroa. Dificilmente uma nuvem será apenas uma nuvem para uma criança. O olhar infantil é despido da dura objetividade que os dias impõem. Acessar o significado das coisas para os pequenos é adentrar outro universo, em que jujubas podem representar povos, e lagartixas são capazes de serem jacarés. Em “Tronco a formar ponte sobre um rio” (Funalfa e Editora Motirô, 48 páginas), livro de estreia de César Brandão para o público infantojuvenil, conceitos são dilatados, e o que é reconhecível pode ser desconhecido. A obra acaba de sair do forno e tem previsão de lançamento para setembro, junto de uma exposição do artista no Museu de Arte Murilo Mendes. Neste sábado, 25, o selo Motirô apresenta o título em São Paulo, lançando seu portfólio voltado para os pequenos.

Curta, em frases enxutas e diretas, a trama narra a travessia de um povo empobrecido para um lugarejo cheio de fartura, do outro lado do rio, após a queda de uma árvore que fez as vezes de ponte. “Sempre há um povo que, de um lado, passa fome e, o do outro, domina. O rio é a fronteira. Como trabalho na fronteira entre as linguagens, escrevi essa história e, a partir dela, selecionei imagens já feitas e que pudessem se aproximar do texto. É o oposto da ilustração, entende?!”, explica.

Ao folhear o trabalho, Brandão recorda a feitura de cada imagem. “Quando montei, as formigas apareceram”, conta, apontando para o registro de balas coloridas sobre um desenho em papel. E mostra outra: “Fiz esse monte de vetor no papel e enfiei debaixo da lacraia que apareceu na cozinha. Fiz muitas fotos, ela mexia, e eu ficava com medo de ela cair na minha mão. Até que ficou nessa posição ideal.” Sobre outra, ainda, diz ser “uma escultura em cima de um rabisco que faço o tempo todo.” Despretensioso, então, a artesania do arista de farta barba e cabelos brancos.

“A criatividade é o que me estimula. Não sei se é intuição. É aquele coisa que o Da Vinci fala: ‘Arte é coisa mental’. Sou um doente mental por arte. Faço arte o tempo inteiro. E não ganho dinheiro com isso. Não acredito em arte como profissão, mas vocação. Pode ser romântico o que vou dizer, mas não me lembro de não estar desenhando em algum momento, desde os primeiros rabiscos nas paredes da sala. É natural para mim. Falo de arte com os olhos brilhando. Tenho paixão. Gosto mais de arte do que sou artista”, diz ele, aos 58 anos.

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Decididamente experimental

Intrigante, mas é bem mais fácil explicar a uma criança o que é experimental do que a um adulto. “Tronco a formar ponte”, com suas leituras expandidas de objetos cotidianos, não à toa destina-se aos pequenos. Para os já crescidos, que também devem ser público, o desafio é maior. “Toda criança adora meu trabalho. Antigamente, recebia muitas visitas, e os filhos dos amigos pediam material para fazer trabalhos como os meus. Tenho mais facilidade de comunicação com elas do que com os adultos, porque o que faço tem a ver com a poética”, comenta César Brandão. “O olhar da criança ainda não é poluído. Embora tenha muitas informações, é livre, não perderam a sensibilidade”, completa.

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A flertar com os desenhos pueris, as imagens produzidas por Brandão também representam sua própria caminhada. “Nos anos 1970, com uma Kodak Instamatic, montava umas coisas no quintal de casa e fotografava. Eram folhas secas, pedras, barbantes, que eu organizava, registrava e depois chamava de ‘Pequenos cenários'”, lembra. “Esse texto é uma metáfora de meu trabalho todo. É quase uma fábula sobre o conceito da obra, um oscilante e precário trânsito entre margens.”

Para o artista, que em diversos momentos cita Marcel Duchamp – segundo ele uma das grandes referências da contemporaneidade -, o despudor é resultado do amadurecimento. “Com o passar dos anos, ficamos mais livres. Antes, queremos provar que sabemos. Continuo estudando e lendo muito, mas não quero agradar mais ninguém. A vida é muito curta”, reflete. E o que move? “A dúvida é o motor do processo. Faço arte experimental. Se não ficar bom, descarto. Se ficar bom, considero. Em cada experiência, acumulo coisas. Meu trabalho é um processo só, na fronteira entre desenho, objeto, fotografia, instalação, vídeo e texto (meus títulos não são aleatórios, enfeites)”, aponta.

Certo de que “não existe uma forma definitiva de ver uma obra de arte”, Brandão escreve e produz imagens sem que uma se restrinja na outra. Cria discursos no papel na mesma velocidade e profusão com que os fala. Integrante da 19ª Bienal de São Paulo, de 1987, o artista natural de Santos Dumont e radicado em Juiz de Fora mostra-se um incansável. Quer, a tudo que olha, ressignifcar. “As pessoas se encantam por eu usar materiais precários, paliativos, mambembes, obsoletos e comuns ao cotidiano de todos. As pessoas começam a ver que qualquer coisa pode virar arte. É como a fotografia: não é o equipamento que faz um grande fotógrafo, mas o olho.”

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