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Nos bancos escolares

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Consolidar a memória da educação em Juiz de Fora. Este é o intuito da Supervisão de Arquivo e Memória da Secretaria de Educação municipal. Caixas de documentos, antes empilhadas e esquecidas em almoxarifados, vão sendo, desde o último ano, abertas, e seu conteúdo, organizado nas prateleiras destinadas a sua conservação, no número 102 da Rua Marechal Deodoro. O local, inaugurado em 2011, abriga documentos que pertenciam ao setor e material herdado de escolas municipais extintas, como registros de alunos, diários de frequência e notas, além de 2.500 fotografias que contam a história dos últimos 74 anos da educação na cidade.

O registro mais antigo do arquivo – encontrado até então – é um diário de resultados, de 1938 e assinado por Gilberto de Alencar, inspetor do setor de educação na época. No livro, caprichosamente escrito à mão, é exposto o desempenho de alunos que passaram pelos bancos escolares de Juiz de Fora até 1966. Hoje, o escritor dá nome a uma escola municipal do Bairro Náutico. O reconhecimento pela contribuição nas áreas educacional e cultural também embasou homenagens em diversas das outras cem unidades escolares, a exemplo da escritora Cosette de Alencar – filha de Gilberto -, em escola no Bairro Santa Catarina, e Carlos Alberto Marques, ex-professor da Faculdade de Educação da UFJF, homenageado no Bairro São Pedro.

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"As escolas mantêm documentos administrativos, mas não têm o costume de guardar os materiais usados nas práticas pedagógicas. Com isso, o cotidiano da vida escolar acaba sendo eliminado", lamenta a supervisora do arquivo Elisângela Esteves Mendes, que defendeu dissertação de mestrado sobre a memória afetiva educacional, na Faculdade de Educação da UFJF. Uma das exceções, tida como raridade pelos responsáveis pelo setor, é o material educativo utilizado em uma campanha nacional sobre a alimentação escolar, de 1960, que conta com máscaras de verduras e legumes. "É preciso entender o trabalho de arquivo como essencial. Ele é um investimento, não um gasto. Os papéis administrativos e pedagógicos de hoje são os documentos históricos de amanhã", defende.

Recentemente, o arquivo – com três funcionários e três estagiários, que organizam, classificam e reestruturam o material – recebeu máquinas específicas para a recuperação do acervo: duas seladoras, uma mesa de higienização, duas mesas próprias para o manuseio de documentos e fotos, uma borracha elétrica e uma mapoteca.

 

 

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Prateleiras da memória

Até então só fotografadas no momento da inauguração ou nas visitas de autoridades políticas, as escolas municipais ganharam, em 1969, uma série oficial de fotos que retratam o seu cotidiano. O ano marca a fundação da Secretaria de Educação, chefiada por Murílio Hingel, no governo municipal de Itamar Franco. O acervo recuperado pelo arquivo também conta com o registro fotográfico de cursos profissionalizantes para o ofício de cabeleireiro, olericultor e sapateiro, ministrado em 1974, aos internos do Sanatório João Penido. "À medida que vamos abrindo as caixas, nos deparamos com esse material rico para a história da educação na cidade. Alguns vêm datados. Já para identificar outros, precisamos recorrer a funcionários que trabalham há muito tempo na secretaria, passaram por diversos governos e conhecem bem as escolas", diz Elisângela.

Recorrente fonte das pesquisas, a funcionária da assessoria dos conselhos escolares Déa Rocha de Abreu trabalha na secretaria desde 1988. "Entre 1950 e 1987 estava em sala de aula", conta Déa, sobre o tempo em que mais de 70 escolas se situavam na Zona Rural da cidade, e, para chegar a muitas delas, era preciso atravessar brejos e currais a pé. "O sistema era muito fragmentado, eram muitas escolas com poucos alunos. Hoje, com o transporte escolar, poucas unidades estão nessa situação. Em escolas muito pequenas, a criança não cresce socialmente, não se desenvolve como deveria", avalia.

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"Antes, a escola não exigia documentos, como faz hoje. Não se pode negar a matrícula, mas é dever dos educadores cobrar que a criança seja registrada e esteja com o cartão de vacinas em ordem", cita Déa, relembrando as dificuldades da própria infância, na Zona Rural de Manhuaçu, quando as anotações escolares eram feitas em finas lascas de pedra. "Quanto maior a pedra, mais posses tinha a família."

Saber o que descartar é uma das grandes responsabilidades do arquivo. A funcionária de 78 anos testemunhou épocas em que gestores eliminavam indiscriminadamente documentos escolares para abrir espaço nas pequenas salas já superlotadas de caixas. "Faziam verdadeiras fogueiras, sem qualquer critério. Eu separava por conta própria o que queria salvar", relata. "A organização é muito importante. Hoje, quando precisamos de um documento, no dia seguinte ele está em nossas mãos", diz a funcionária, já adaptada aos novos métodos informatizados. "Facilita bastante."

 

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Arquivo vivo

No último ano, a exposição "Memórias da educação municipal" possibilitou, pela primeira vez, o contato do público com 64 fotografias e documentos que constituem o acervo da Supervisão de Arquivos e Memórias da Secretaria de Educação. Um livro de comentários registrou as impressões e memórias daqueles que visitaram a mostra, muitos dos quais foram alunos nas épocas retratadas. "Nossa vontade é promover essa abertura à comunidade e aos pesquisadores, que, muitas vezes, nem sabem da existência desses documentos", ressalta Elisângela Mendes.

"O material não serve de pesquisa apenas a educadores e historiadores, mas pode ser interessante a outras áreas. Temos, por exemplo, mapas e plantas de escolas, que permitem analisar o crescimento e as transformações urbanas da cidade", diz a supervisora, destacando que basta agendar um horário para ter acesso ao arquivo.

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"O Brasil é acusado de não cuidar de seu patrimônio, de não preservar a sua memória. Os estudiosos vêm trabalhando para recuperar o tempo perdido", elucida a secretária de Educação Eleuza Barbosa. "Os papéis um pouco mais antigos logo eram rotulados de ‘arquivo morto’. Pelo contrário, eles são um ‘arquivo vivo’, pois podem contar como tudo foi construído", conclui.

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