"Juiz de Fora esteve sempre na vanguarda da cerveja artesanal." Com essas palavras, o mestre cervejeiro José Felipe Pedras Carneiro, à frente da microcervejaria Wäls, em Belo Horizonte, classificou a produção da bebida em Juiz de Fora. Estudioso e produtor da bebida formado pelo Senai de Vassouras e com cursos na Bélgica e na Alemanha, José Felipe esteve na cidade na última terça para uma palestra sobre o líquido que para ele transcende a classificação de bebida.
Hoje, em Juiz de Fora e em Minas, a cerveja tem ganhado novos ares e formas de apreciação. Há cinco meses, na segunda segunda-feira de cada mês, um grupo masculino, mas heterogêneo em se tratando de idade e profissão, se reúne na recém-formada Confraria Santo Arnaldo. Segundo um de seus "embaixadores", o sócio do restaurante Picanha Pimenta & Pinga, Alexandre Miranda, a ideia das reuniões é disseminar a cultura cervejeira e estimular a descoberta de novos sabores e diferentes maneiras de consumir a bebida, através de degustações e harmonizações com algum prato.
Mas engana-se quem pensa que cerveja é coisa só para homens. A organização já engatilha a criação de uma confraria feminina, e, no dia 31 de agosto, a Cervejaria Barbante será sede do 1º Encontro Feminino de Degustação de Cervejas Especiais e Harmonização de Juiz de Fora, com presença já confirmada de aproximadamente cem mulheres.
Aliando cerveja e gastronomia
A harmonização com cerveja vem ganhando espaço, com o crescimento da busca por cervejas artesanais principalmente em Minas. Segundo ele, o casamento pode ser feito de três maneiras. Por corte, quando se tem uma cerveja que vai anular a comida, ou vice-versa; por contraste, quando uma cerveja amarga ou azeda é, por exemplo, degustada com um prato doce; por complementação, quando os sabores se assemelham. Uma cerveja carregada em lúpulo, como a Wäls Bohemia Pilsen, tem seu sabor amargo potencializado ao ser consumida com salada de rúcula, por exemplo. (ver quadro com outras harmonizações).
Temperatura e jeito de servir são imprescindíveis para se sentir todas as nuances da bebida. "A temperatura ideal da cerveja varia de 3 a 12 ou 15 graus. Já o colarinho deve ser de dois a três dedos, para conservar o aroma e não deixar o gás evaporar por completo."
Crescimento do mercado
Assim como Minas Gerais é conhecida pela produção de boa cachaça, o estado, segundo José Felipe, vem se destacando também pela produção de excelentes e premiadas cervejas artesanais. A própria Wäls, que possui no currículo a X Wäls e Wäls Bohemia Pilsen, além das Wäls Quadruppel, Wäls Trippel e Wäls Dubbel, que já foram premiadas em concursos internacionais. Um dos motivos de orgulho do mestre é a Wäls Quadruppel, que figurou entre as dez melhores no ranking nacional divulgado em agosto de 2010 pela revista "Playboy". Ele destaca ainda a mineira Falke Beer, as paulistas Colorado e Bamberg além da catarinense Beerland.
Segundo o cervejeiro, está no DNA do povo das alterosas a busca por bebidas diferenciadas. "O paladar do mineiro é muito exigente, até mesmo pela riqueza de nossa culinária. É muito comum o mineiro falar que ‘cachaça boa é aquela produzida lá perto da minha roça’, e esse mesmo processo está acontecendo com a cerveja. As pessoas estão começando a perceber a pitadinha de tempero que vai da casa do mestre cervejeiro, já que sua cerveja carrega sua marca."
Além do crescimento no consumo, a redução na idade dos apreciadores vem sendo notada na cidade. Mestre cervejeiro da Cervejaria Barbante, que funciona no Bairro São Pedro, Pedro Peters afirma que se no começo a cervejaria era procurada por pessoas na faixa dos 40 anos, hoje cada vez mais jovens têm adotado a bebida artesanal. "As pessoas torciam o nariz, achavam que um produto de pequena produção era ruim. Mas, de três anos para cá, tenho notado uma mudança no comportamento e na aceitação do público".
