A memória é sempre mais frágil que o esquecimento. Precisa ser regada para afundar raízes e levantar caules. Segundo a escritora Rachel Jardim, qualquer movimento que faça florescer a história com letra minúscula deve receber estímulos. A ideia abstrata da trajetória humana está caindo por terra, comemora Rachel, prestes a lançar os livros Erratas pensantes, ao lado de Lúcia Bettencourt, e Num reino à beira do rio, reedição revisada e modificada. As duas obras serão publicadas pelo Selo Mamm em julho. Nas estantes desde 2009, o selo foi criado para divulgar – e eternizar – eventos produzidos no Museu de Arte Murilo Mendes (Mamm), como seminários e entrevistas. A intenção é elaborar outros produtos que estendam a circulação para além de um único momento, explica o pró-reitor de Cultura da UFJF, José Alberto Pinho Neves.
Os resultados não tardaram a chegar. A empreitada de estreia, Ismael Nery e Murilo Mendes: reflexos, de Leila Barbosa e Marisa Timponi, foi indicada na categoria teoria/crítica literária do 52º Prêmio Jabuti. Como ressalta Pinho Neves, uma das premissas do projeto é abarcar assuntos que, de alguma maneira, estejam relacionados ao poeta Murilo Mendes. Assim, as possibilidades de pesquisa sobre o tema são ampliadas. O Mamm também existe para isso. De acordo com Marisa Timponi, as publicações do museu vêm trazendo questões novas e pertinentes, que necessitam ser discutidas.
William Redmond, professor do curso de mestrado em letras do Centro de Ensino Superior (CES/JF), concorda. Os eventos contam com especialistas, mas acontecem em espaço limitado. A divulgação desses pensamentos é essencial. Redmond faz parte da comissão editorial do Mamm, ao lado dos professores Antenor Salzer Rodrigues, Christina Musse, Edimilson de Almeida Pereira, Sonia Regina Miranda e Valéria Faria, além de Pinho Neves. O grupo é responsável por recomendar e negar lançamentos ou propor ajustes em forma, estrutura e conteúdo, sem concorrer com a Editora da UFJF.
Segundo o pró-reitor, ações não desenvolvidas na instituição, mas relevantes, podem entrar na pauta. É o caso da dissertação de mestrado da professora Maria Betânia Amoroso, apresentada na Unicamp, que aborda a crítica sobre Murilo na imprensa italiana. A obra será publicada em parceria com a docente e a Universidade Estadual Paulista (Unesp). Precisamos ter esse estudo aqui, enfatiza Pinho Neves, acrescentando que quatro livros acabaram de chegar da gráfica. Entre eles, estão os de Rachel.
Erratas pensantes leva para as páginas uma palestra ministrada por Rachel Jardim e pela também escritora Lúcia Bettencourt sobre a ligação entre Machado de Assis e o francês Marcel Proust. Eles foram renovadores em questões parecidas. Machado, inclusive, antecipou Proust em alguns pontos, comenta a autora de Os anos 40. Já Num reino à beira do rio trata-se de uma antologia dividida em três partes. Uma delas reúne os fac-símiles de textos de outros poetas transcritos por Murilo Mendes no caderno de moça da mãe de Rachel. Ele tinha 18 anos, e ela, 17. A seleção de Murilo evidencia seu gosto literário quando jovem, menciona a escritora, que assina um relato memorialístico sobre tempos e espaços de uma Juiz de Fora antiga.
Para completar, Alexei Bueno faz uma análise crítica dos poemas, com um breve perfil de cada autor. O livro recebe, também, o selo da Editora José Olympio, pela coleção Sabor literário. Se eu encerrar minha carreira com esse projeto, sinto-me satisfeita, avalia Rachel, destacando os inúmeros pedidos de reedição por parte de pesquisadores.
Outra diretriz diz respeito às parcerias. Arlindo Daibert: fortuna crítica, por exemplo, foi lançado, em 2011, ao lado da Casa de Rui Barbosa. Para José Alberto Pinho Neves, estar em sintonia com instituições semelhantes amplia as oportunidades de discussão. Com apoio do CES/JF, um seminário sobre o universo de Euclides da Cunha foi realizado em 2009, ano do centenário de morte do autor. Tempos depois, editou-se o livro Euclides da Cunha, cem anos sem, organizado por Pinho Neves e Nícea Helena Nogueira, coordenadora do mestrado em literatura do CES. Nele, seis trabalhos esmiúçam a produção literária do escritor carioca.
Da palavra falada para a escrita
Machado de Assis: atemporal, com organização de Darlan de Oliveira Gusmão Lula, saiu do forno e deve ser lançado no início do segundo semestre, tendo como base um ciclo de debates promovido em 2008. Conforme a apresentação da capa, os estudos procuram investigar e discutir os temas de maior importância no cenário da crítica literária machadiana da contemporaneidade, traçando um percurso de reflexão intensa e de produção de material referencial necessário aos investigadores da obra do Bruxo de Cosme Velho. Há ainda a previsão de uma publicação, com 14 textos de estudiosos de instituições como USP, UERJ, PUC e CES, a partir do seminário comemorativo dos cem anos de nascimento de João Guimarães Rosa, ocorrido em 2008. Murilo Mendes fez um retrato-relâmpago de Rosa, lembra José Alberto Pinho Neves, salientando que o selo, agora, vem colocando em dia as propostas.
De acordo com o pró-reitor, o Mamm esperava reunir um corpo de edições para investir na circulação. Ele adianta que as obras serão comercializadas, mas também distribuídas gratuitamente para escolas públicas e universidades federais. Na visão da escritora Marisa Timponi, a manutenção de leitores é um problema que preocupa o mundo todo. Interessante é oferecer possibilidades, mesmo que esses trabalhos sejam mais voltados para pesquisadores. Segundo a autora, Ismael Nery e Murilo Mendes: reflexos foi adotado pelo doutorado da UFMG e citado no programa Manhattan Connection, da Globo News.
Muito esperado, o primeiro livro da série Diálogos abertos está previsto para julho. Após cinco anos de projeto e quase 50 depoimentos gravados e arquivados em DVD, a estreia incluirá entrevistas com Arthur Arcuri, Rachel Jardim, Luiz Ruffato, Sueli Costa e Carlos Bracher, numa tiragem inicial de 500 exemplares. Foi trabalhoso encontrar a fórmula, justifica José Alberto Pinho Neves. A jornalista Kátia Dias assina a edição e a apresentação, numa etapa posterior à transcrição feita por bolsistas da UFJF. O material ainda é conferido por mim e por um revisor, além de ser levado aos entrevistados para supressões ou correções, observa o pró-reitor. Conforme William Redmond, responsável pela orelha da primeira publicação, esta não traz uma cópia da conversa. Teremos em mãos um outro produto, com fluidez de leitura. As gravações possuem acesso restrito, mas o papel pode se propagar, assegura, assinalando a relevância da iniciativa para a preservação da memória local. A segunda obra, já em andamento, conta com as contribuições de Murílio de Avelar Hingel, Vera Faria, Jorge Couri, Clodesmidt Riani e Natálio Luz. À parte da coleção, o ex-presidente Itamar Franco integrará sozinho um volume.
Para um futuro breve, o selo planeja um catálogo físico e virtual referente à biblioteca de Murilo Mendes, com a listagem dos três mil títulos disponíveis, a indicação de marginálias e dedicatórias, além de alguns ensaios. Nos próximos anos, a ideia deve se estender à coleção de arte e às demais bibliotecas, como as de Gilberto e Cosette de Alencar e Cleonice Rainho. O Mamm abraçou ainda o título No berço da noite – religião e arte em encenações de subjetividades afrodescendentes, do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros (Neab/UFJF).
