Um "bocado" mais de Milton. Essa foi a sensação com a qual grande parte do público saiu do Cine-Theatro Central no último sábado, quando Milton Nascimento estreou turnê comemorativa aos 50 anos de carreira. No apanhado de clássicos que marcaram sua trajetória como compositor e intérprete no Brasil e no mundo, clássicos como "Paula e Bebeto" (com Caetano Veloso), "Caçador de mim" (Luiz Carlos e Sérgio Magrão), "Encontros e despedidas" (com Fernando Brant) e "Coração de estudante" (com Wagner Tiso) ficaram de fora. Como justifica o diretor do show, Regis Faria, seria impossível reunir tamanho acervo em cerca de duas horas de apresentação. Afinal, a celebração encantou diferentes gerações, seja por estar diante de um dos principais mitos da música popular ou pela beleza e mineiridade do cenário e da iluminação.
Filho do ator Reginaldo Faria, Regis Faria contou à Tribuna, por e-mail, sobre a experiência e os desafios de conduzir a performance de uma personalidade conhecida internacionalmente, expectativas para a turnê que segue por mais sete cidades brasileiras e, principalmente, os motivos que levaram Bituca a definir o repertório, que, entre as 22 escaladas, inclui "Sofro calado", fruto da parceria entre Milton (melodia) e Regis Faria (letra). "Fico muito lisonjeado toda vez que ouço o Bituca cantar essa música", ressalta Faria. A canção ganhou registro no álbum "Angelus", de 1993, em que Milton Nascimento chegou a ser saudado pela crítica como autor de "um terceiro e internacionalizado Clube da Esquina", tamanha notoriedade de participações como Peter Gabriel, Herbie Hancock, James Taylor, Pat Metheny, Jon Anderson e Wayne Shorter. "Ser parceiro dele nunca esteve em meus planos, mas o acaso nos ajudou (principalmente a mim)", afirma o diretor.
Às 21h35, Milton entrou no palco interpretando "Cais", seguida por "Vera Cruz", "Canção do sal", "Amor de índio", entre outras, sem deixar de lado "hinos" como "Maria, Maria" e "Nos bailes da vida". Acompanhado pelos músicos Wilson Lopes (guitarra e violão), Lincoln Cheib (bateria), Gastão Villeroy (baixo), Kiko Continentino (piano) e Widor Santiago (saxofone e flauta), além do companheiro de estrada, Lô Borges, ele saudou a plateia com "Clube da Esquina 2", "Nada será como antes" e "Para Lennon e McCartney". Enquanto Lô levava a noite ao som de "Nuvem cigana", "Trem azul" e "Girassol da cor do seu cabelo", Bituca se preparava para encerrar com "Canções e momentos" – destaque para as luminárias acesas na lateral do teatro -, "Canção da América" – entoada pelos fãs – e "Travessia", talvez a que melhor resume o "rito" de passagem de Milton Nascimento por meio século de sucesso.
Tribuna – O que você sentiu quando ouviu Milton cantando sua música ("Sofro calado") no meio de um repertório em que algumas interpretações ficaram de fora?
Regis Faria – Essa música foi uma exigência dele seguindo um critério que utilizamos para montar o repertório, e ela atendia um item de importância pessoal em sua vida. Em um trabalho como este, em que precisávamos, ao menos, pincelar sua travessia pela vida até hoje, pinçamos músicas menos óbvias, mas não menos representativas, para contarmos um pouco da importante história deste artista que passa pela construção de harmonias complexas e inovadoras à manifestações políticas.
– Outros destaques?
– "Promessas do sol", por exemplo, é uma música tão forte quanto bela e retrata um momento político delicado de nosso país em que vivíamos sob um regime militar e convivíamos com atrocidades como a tortura. Resgatamos belíssimas canções como "Lágrimas do Sul" e "Anima". Como não dominamos o gosto de cada um, e é exatamente isso que torna o ser humano diferente um do outro, teremos sempre uma música faltando e outra sobrando para o gosto de um e de outro. Acho que o resultado final é uma síntese do que achamos melhor para contar essa "Travessia".
– Fale um pouco sobre sua relação com Milton. Como e por que você acabou se tornando o diretor do show?
– Nos tornamos amigos através do Fernando Eiras, que nos apresentou quando eu tinha 10 anos, e desde então somos amigos. A vida encarregou-se de nos aproximar, e sempre houve afinidade entre nós. A direção deste show era uma questão de tempo, pois já namorávamos esta ideia desde "Pietá" (disco de 2002), mas mais uma vez a vida tomou as rédeas para que acontecesse somente agora, o que me deixou muito feliz por se tratar de um show muito importante para todos nós.
– Como está sendo a experiência na direção do show?
– Não é o primeiro show que dirijo, mas é o primeiro deste porte. A experiência está sendo fantástica. Fui muito bem aceito por toda a equipe. Os músicos foram muito parceiros, respeitosos e carinhosos, e isso é uma característica das pessoas que trabalham com o Milton. O fato de ter uma proximidade com o próprio Milton, de conhecê-lo em sua intimidade, me facilitou na abordagem com ele e com todos. Sabia que estava ali porque afinava com o pensamento coletivo e generoso que ele "impõe".
– E a responsabilidade de dirigir um ícone da música brasileira em todo o mundo? O que as pessoas irão falar sobre esse trabalho?
– O Milton é uma pessoa muito singular, sua comunicação quase não é verbal, é muito intuitiva. Ele lidera em silêncio, porque sua generosidade é a forma de tirar o melhor de todos que estão a sua volta. Quando entendemos o caminho para essa comunicação, as coisas ficam mais fáceis. Quando fui chamado para o show, sabia que tinha a total confiança do Milton e que ele me daria toda liberdade para criar. Então entrei no barco que já navegava há tempos e tentei acompanhar a corrente acrescentando meu conceito sobre o show, minha proposta. Milton comprou absolutamente tudo, o que me deixou mais seguro para ir adiante. Queria apenas abrir espaço para que ele com seu trabalho estivesse devidamente em seu lugar. E esse lugar é único. Resultado de uma brilhante trajetória. Queria passar subjetivamente com o show a ideia de movimento, de continuidade, que nada mais é a vida que estamos todos. A travessia por essa vida que não termina.
– Quais foram os critérios da seleção do repertório? Foi Milton quem deu a palavra final?
– Bom, antes de mais nada precisamos entender que estamos falando de um artista fantástico, e que, portanto, sua vasta obra engloba algumas dezenas de clássicos. Seria impossível selecionarmos um repertório com todos esses clássicos. Teríamos um show interminável. É preciso respeitar uma dinâmica para tornar o show interessante e, ao mesmo tempo, contar uma história. As músicas contêm muito mais do que diz as letras, carregam harmonia, melodia, andamento, uma energia própria e precisam dar liga com a música seguinte. Tivemos o cuidado de buscar os repertórios dos últimos shows do Milton para não nos repetirmos.
– O que teve a interferência do Milton neste show? Afinal, ele mesmo fez questão de anunciar que "o show é de Regis Faria"…
– Tudo acaba sendo Milton! Porque todo o conceito que pensei para o show foi em cima do que ele representa artisticamente e pessoalmente. Explico: quando recebi o convite para dirigir e conceber o show, pedi a produção do Milton toda sua discografia digitalizada. Afinal estávamos fazendo um show de comemoração de 50 anos de carreira que se chama Travessia, e precisava relembrar toda sua obra. Reli também o livro do Márcio Borges e li outro de 40 anos do Clube da Esquina. Ao reler o livro do Marcio, entendi melhor a minha própria amizade com o Milton, se é que podemos entender sentimentos. Entendi em que o Milton fundamenta tudo em sua vida: no afeto, no amor, no sentimento puro. Suas músicas não são cerebrais, elas obedecem a um movimento intuitivo muito preciso. O som do Milton é diferente, porque é inovador e alcança muito fundo. É inquieto e incessante. E assim é até hoje. Milton busca sempre o desconforto, e isso é a síntese do verdadeiro artista. Então, quando pensei no show, me veio o conceito de continuidade e movimento. O cenário foi criado em cima disso, usando ainda, texturas, rendas, matérias que representam Minas. Os cenógrafos Marcus Figueiroa e Emilia Merhy traduziram brilhantemente a idéia para o concreto e criaram um móbile que se movimenta e serve, ao mesmo tempo, como peça cenográfica, luminária e superfície para projeção de vídeo. Os vídeos gráficos trazem imagens subjetivas que dão a idéia de continuidade, de poeira, de pé na estrada, de travessia pela vida e foram produzidos pela Pavê, e a luz acompanha a idéia do restante, tendo o cuidado de ser mais teatral, desenhada para criar uma unidade com o todo. Falei e mostrei tudo isso ao Milton, e ele comprou a idéia. Me deu carta branca.
