
Hellbenders, de Goiânia, está em turnê pelo Rio de Janeiro e pode dar as caras em Juiz de Fora; só depende da contribuição do público
Personagem clássico de Chico Anysio nos anos 80, o reverendo picareta Tim Tones tinha como bordão o infame “vamos correr a sacolinha”, quando aproveitava para rapinar os fiéis que acreditavam na sua conversa mole. Agora, em pleno século XXI, é a vez de a galera da cultura dar um novo – e honesto – sentido ao termo, organizando “vaquinhas” virtuais para organizar shows, gravar discos e DVDs, imprimir livros, revistas em quadrinhos… Do Primal Scream ao Autoramas, é por meio do crowdfunding que a roda gira no cenário cultural, e Juiz de Fora não fica atrás: um grupo de amigos se uniu e criou uma campanha virtual para trazer à cidade o grupo Hellbenders, de Goiânia, que esta semana faz turnê pelo Rio de Janeiro. Se tudo der certo, a banda estará em Juiz de Fora na próxima sexta-feira, a partir das 19h, para tocar no palco montado na praça do São Mateus, com entrada franca. Para o evento rolar, é preciso que a campanha arrecade os R$ 1.200 necessários até o dia do show; caso contrário, o valor é devolvido aos colaboradores, e a apresentação é cancelada. As perspectivas são as melhores possíveis: até o final da tarde de ontem, já estavam confirmados R$ 900 em doações (75% do total), enquanto que R$ 425 dependiam da confirmação do pagamento de boleto bancário, que aceita qualquer valor de contribuição. Outra forma de ajudar no projeto é por meio do cartão de crédito. Os contribuintes na “vaquinha” vão concorrer a diversos prêmios, entre eles CDs, camisas e uma tatuagem no Covil Tattoo, que está participando da campanha. Um dos organizadores da iniciativa, Guilherme Melith explica que a ideia de promover shows com bandas de outras cidades por meio do crowdfunding já estava sendo discutida. Um dos motivos, de acordo com ele, é pelo fato de diminuir a possibilidade de prejuízo. “Se você contrata uma banda para se apresentar em um espaço fechado vai depender de o público comparecer depois, e com o crowdfunding o público já contribui com antecedência”, diz. A escolha de um lugar público como a praça do São Mateus, acrescenta, ajuda a diminuir os custos, restritos ao cachê do artista e à porcentagem do site. “A Funalfa nos cedeu a estrutura do palco e os banheiros químicos, a bateria e os equipamentos de som estão sendo emprestados por quem está apoiando.” Guilherme conta, ainda, que o objetivo de todos é realizar, mensalmente, um show na cidade por meio de crowdfunding. Inicialmente, a proposta era começar com alguma banda carioca, convidando depois artistas de São Paulo e do Espírito Santo, mas quis o acaso que os goianos do Hellbenders fossem convidados. “Descobrimos que eles estão fazendo alguns shows no Rio, incluindo Petrópolis nesta quinta-feira. Entramos em contato, explicamos o esquema do show, e eles toparam. Essa primeira campanha é quase um protótipo, mas a experiência está sendo bem legal. A ideia é melhorar para as próximas edições”, destaca Guilherme.
Experientes no rock e no crowdfunding
Formada em 2007 na capital de Goiás, a Hellbenders também conhece as manhas do financiamento coletivo. Após lançar seu álbum de estreia, “Brand new fear”, com produção de Carlos Eduardo Miranda (que já gravou Raimundos e Sepultura, entre outros), o grupo de stoner rock foi tocar nos Estados Unidos e caiu nas graças do povo de lá. Os elogios renderam o convite do guitarrista David Catching, do Eagles of Death Metal, para gravarem seu segundo trabalho no estúdio Rancho de La Luna, na Califórnia, que já recebeu o Queens of The Stone Age, Kyuss e Foo Fighters. Para seguir em frente, eles entraram com uma campanha no site Catarse e conseguiram os R$ 30 mil necessários para a gravação do segundo trabalho, que deve ser lançado ainda este ano. Sabendo da força do trabalho coletivo, a banda vem fazendo sua parte para que o show não fique na promessa. O vocalista Diogo Fleury publicou na página do grupo no Facebook um vídeo incentivando a participação na campanha de arrecadação. O grupo destaca que, “sem chororô”, há gente na cidade se organizando para trazer até Juiz de Fora artistas que, em outra situação, dificilmente colocariam os pés nos palcos locais.

