Parece que foi ontem, mas já se passaram 20 anos desde que o Brasil recebeu alguns dos principais líderes mundiais e polarizou atenções na Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento, a Rio 92. Na época, os riscos causados pela destruição da natureza não eram necessariamente uma novidade, mas, pela primeira vez, a humanidade assistia a uma mobilização global pela ecologia. Independente de resultados nos debates políticos, a discussão alcançou dimensão inédita, tendo a arte como um de seus principais instrumentos de propagação. Na ocasião, o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro convidou 120 artistas das três Américas para mostrar sua visão sobre o tema na mostra "Eco Art". Estavam lá alguns dos principais nomes dos circuitos brasileiro e internacional, como Siron Franco, Carlos Vergara, Daniel Senize e Beatriz Milhazes.
Duas décadas após o evento, a temática continua inspirando artistas, e a mostra carioca ainda rende dividendos. No final de 2011, o Museu de Arte Murilo Mendes (Mamm) recebeu a doação de um álbum com 25 gravuras produzidas a partir de obras que participaram da exposição no MAM do Rio. Uma seleção com 18 dessas criações estão em exibição na galeria Retratos-Relâmpago do museu juiz-forano na mostra "Eco Art – Serigrafias". "Na época da Eco 92, a arte foi muito usada para discutir o assunto e causar polêmica", comenta o organizador da exposição, Paulo Alvarez.
O álbum de serigrafias agrega ao acervo permanente do Mamm obras de artistas inéditos na coleção do museu, como Flávio-Shiró, Fernando Szyslo, Miguel Castro Leñero, Miguel Angel Rojas e Arnaldo Roche-Rabel. Além disso, traz novidades de nomes incensados, como Tomie Ohtake e Beatriz Milhazes. Na leitura dos autores, o apelo pela preservação do meio ambiente é explorado em linguagens diversas. De obras com referências figurativas, como "Ameaça", de Antônio Henrique Amaral, ao abstracionismo de Gonçalo Ivo, em "Rio S. Francisco – Vista de Iboitirama, BA", que transforma o Velho Chico em uma gama de linhas horizontais coloridas.
Amostragem multinacional
Dentre as 18 gravuras selecionadas, estão todos os artistas brasileiros e representantes de todas as nacionalidades presentes no álbum, uma amostragem de dez países, incluindo Cuba, Argentina, Chile, Colômbia, Peru, Venezuela, Estados Unidos e Canadá. Além de trazerem a visão de seus países, alguns dos autores escolhidos revelam marcas de suas ligações com o Brasil, caso da mexicana Laura Anderson, que estudou na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, no Rio de Janeiro, e do uruguaio Nelson Ramos, que teve aulas com Iberê Camargo.
O álbum recebido pelo Mamm pertence a uma edição especial criada após a mostra "Eco Art". Trata-se de um coletânea de 25 obras concebidas originalmente em técnicas diversas e reproduzidas em serigrafia com tiragem limitada de 150 exemplares assinados por seus respectivos autores. Patrocinada pelo extinto Banco Bozano, Simonsen, a impressão das gravuras foi realizada em uma gráfica especializada em Caracas. Na época, todos os autores viajaram à capital venezuelana para acompanhar o procedimento e assegurar a qualidade do trabalho.
Apesar da edição ter ocorrido há quase 20 anos, a doação do álbum ao Mamm só ocorreu no final do ano passado, quando uma representante da atual Companhia Bozano entrou em contato com o museu. Além das 25 serigrafias, o museu recebeu um catálogo com as obras dos 120 artistas participantes da "Eco Art".
A semente de 92
Desde que ocupou os holofotes em 1992, a ecologia tornou-se uma questão recorrente das artes. Paulo Alvarez recorda do impacto visual provocado pelas obras do polonês Frans Krajcberg, que cria esculturas concebidas com vestígios de queimadas e pedaços de madeira retirados de forma ilegal. Radicado no Brasil há muitos anos, o artista conta desde 2003 com um espaço permanente no Jardim Botânico de Curitiba, onde ficam expostas 110 peças de grande porte.
Outra obra de grande dimensões e impacto visual é a instalação "Monumento às nações indígenas", criada pelo goiano Siron Franco em um terreno nos arredores da cidade de Goiânia. São 500 totens com mais de dois metros de altura, que trazem inscrições referentes à presença da cultura indígena na América Latina. Além de construírem uma espécie de labirinto, o conjunto forma, quando visto do alto, um imenso mapa do Brasil.
A propósito, a discussão também passou a ser fonte constante do cinema. Em 2006, o documentário "Uma verdade inconveniente" – apresentado pelo ex-presidente norte-americano Al Gore – trouxe novo fôlego ao debate ao mostrar os estragos do aquecimento global e sua relação com a economia mundial, o consumo desenfreado, o desperdício e o estilo de vida das nações desenvolvidas.
O tema também se faz presente em orçamentos de menor porte, em pequenos documentários que trazem a realidade do interior do Brasil. O número dessas produções é tão significativo que permite a realização anual do Festival Internacional de Vídeo e Cinema Ambiental (Fica), promovido em Goiás Velho-GO. Em 2011, foram quase 30 filmes inéditos participantes, entre série de TV, curtas e longas-metragens.
ECO ART
De terça a sexta, das 10h às 18h, sábados e domingos, das 13h às 18h
Mamm
(Rua Benjamin Constant 790)
