
Matheus de Simone apresenta série sobre infância em mostra aprovada pela Lei Murilo Mendes
Um dos mais arrojados projetos de artes visuais a desembarcar em Juiz de Fora nos últimos anos, o recorte da Bienal de São Paulo encerrou antes de ser encerrado. Prevista para terminar no último dia 31 de maio, a exposição teve seus últimos dias abortados, devido à greve dos técnicos-administrativos, que cerraram as portas do Museu de Arte Murilo Mendes, reabrindo o espaço apenas em outubro. Foram quatro meses de esterilidade no espaço, em consonância com a escassez que assolou todo o cenário das artes visuais na cidade ao longo do ano. Ainda que iniciativas de fôlego tenham tomado galerias públicas e privadas, o saldo é opaco. 2015 passou branco, como o cubo. E o ano que se anuncia não sai do tom. 2016, em perspectiva, não oferece, até agora, uma agenda à altura da história plástica juiz-forana.
Talvez, o dilema seja, justamente, esse, de se pensar no percurso vivido, quando a vivacidade pode estar naqueles que se postam num início de trajetória. Os jovens, com seus discursos frescos e sensíveis, são o ponto de fuga. Na Juiz de Fora de 2016, eles anunciam novas paisagens. Aprovados pela Lei Murilo Mendes, os artistas Matheus de Simone e Janaina Morais projetam exposições multimídias de inventivos vieses para o próximo ano. Enquanto Matheus, com sua estética das memórias calcadas no confronto entre sexo e religião, prepara mostra individual prevista para o segundo semestre, Janaina espera apresentar, em março, fotografias e discussões da questão social e, também, estética, acerca da menstruação.
Em “Meu corpo, meu sangue – ressignificando o sangue menstrual”, Janaina reúne fotografias criadas com o próprio sangue menstrual, em closes, optando por uma sensorialidade capaz de despertar nas mulheres a importância do autoconhecimento sexual e dos ciclos. “Envolve também a criação de uma rede social de trocas de informações sobre menstruação e uma oficina sobre ginecologia natural e autogestiva”, conta a artista, mestranda em ciências sociais pela UFJF. Já “Eucarístico” revisa a recente e pulsante produção de Matheus, que ritualiza a própria obra, apresentando-a nas mais variadas linguagens, do bordado aos vídeos, numa sensibilidade que fala de si e, por consequência, do universo. “Minha produção artística é muito voltada para a relação que eu tenho com a religião, a sexualidade, a família e minha própria infância. Nos trabalhos, essas instâncias se interrelacionam em certos momentos”, comenta o jovem artista.
Calendário ainda vazio na maioria dos espaços
Outras cinco mostras estão previstas para 2016, com o incentivo da Lei Murilo Mendes (dos artistas Rafael de Carvalho, Tonil Braz, Giovana Enham, Fabrício Carvalho e da Associação Juizforana de Hip Hop), e duas exposições já agendadas no Espaço Cultural Correios. Em fevereiro o centro cultural na Marechal Deodoro recebe as paisagens mineiras de Marcos Vilela em “Um encontro com Minas”, enquanto o carioca Luiz Badia ocupa o espaço com suas telas de “Imagens sonoras”. Com uma programação já delineada, o Museu de Arte Murilo Mendes tem sua agenda sujeita aos novos rumos que podem ser traçados diante da eleição para reitor na instituição. Segundo a pró-reitora de Cultura Valéria Faria, o momento é de expectativa e não de confirmações, inclusive no recém-inaugurado Memorial da República Presidente Itamar Franco. “Estamos aguardando as diretrizes traçadas na próxima gestão, que deverá encaminhar 2016”, diz.
Em janeiro, tanto o Saguão da Reitoria no Campus da UFJF, quanto a Galeria Renato de Almeida, do Centro Cultural Pró-Música, e o Forum da Cultura abrem seus editais. Encerrado na última segunda (21), o edital para ocupação das galerias do Centro Cultural Bernardo Mascarenhas deverá anunciar os aprovados até 31 de janeiro, para agenda de março a dezembro de 2016. Já nas galerias privadas, o compasso de espera é o mesmo, e agendas ainda não foram confirmadas. Eventos como o “Foto 16” e uma segunda edição do “Circuito de Arte Atual” se mantêm no foco de ação da Prefeitura e da UFJF, respectivamente, mas com diferentes dependências, como contingenciamentos financeiros e linhas de política cultural. Na área das visualidades da cidade, 2016 já começa com a certeza de que qualquer acréscimo será um grande lucro.
O que fica na memória
No ano em que desenhos de colorir ditaram o mercado editorial brasileiro, a sensação de cenário rasteiro se estendeu por muitos cantos. Em Juiz de Fora, não são muitas as exposições a resistir na memória da cidade. Dentre as mais expressivas, destacam-se as gravuras do artista russo Marc Chagall inspiradas nas fábulas de La Fontaine e apresentadas no Espaço Cultural Correios, mesmo lugar onde desaguou a sensível e impactante série de retratos de mulheres negras de “Qual é o pente que te penteia?”, ainda em cartaz no lugar. Entre as publicações de artes visuais, Iriê Salomão de Campos e seu “Do piso à parede: a arte de Pantaleone Arcuri” e Nina Mello e seu “Senescência” tocaram pela sutileza de discursos refinados.
Menos homogêneo do que nas outras edições, o “Foto 15” se destacou pelo olhar de novos fotógrafos, como Paula Duarte, em “A primeira vez que entendi do mundo”, e Julia Milward, com sua premiada série “[planos planos]”. Um sopro de ousadia tomou conta dos momentos finais do ano com a iniciativa da primeira edição do Circuito de Arte Atual, proposta da UFJF que reuniu 80 artistas na ocupação de sete galerias, entre espaços privados e públicos. Sopro mesmo, pela heterogeneidade e falta de programação paralela. Sopro que sinaliza vendaval, e pode (ou não), agitar 2016.

