
Autora financiou obra lançando mão de plataforma virtual de crowdfunding (Divulgação)
“Eu vi a favela desaparecer,/ eu vi a Lapa se transformar,/ eu vi morrer a Praça Onze,/ eu vi tudo isto sem reclamar./ Mas, felizmente, ficou o samba”, diz a canção “O samba não morre”, de Quatro Ases e Um Curinga, sobre o lendário bairro carioca, vivo por mais de 150 anos, até sua extinção na década de 1940 para a construção da Avenida Presidente Vargas. Democrático como o samba, o lugar foi o berço do gênero mais popular e característico do país. Em “Negros e judeus na Praça Onze – A história que não ficou na memória” (104 páginas, Bookstart), a jornalista radicada em Juiz de Fora Beatriz Coelho, a Totó, resgata o endereço e a convivência harmônica dos dois grupos. A obra, a ser lançada no próximo sábado (26), às 20h, no Doc Bistrô, revela não apenas o nascedouro dos bambas, mas uma comunidade que a história acabou por não preservar.
“Todos os imigrantes pobres iam morar na Praça Onze, por ser perto da Central do Brasil e por conta das muitas obras que aconteciam nas redondezas, além de ser bastante próximo do porto, que era muito grande e dispunha de muito trabalho”, conta Beatriz. “Os judeus, em sua maioria vindos da Europa Ocidental, chegavam muito pobres e iam para lá. Negros e judeus faziam redes de solidariedade entre eles”, completa, destacando a organização e institucionalização dos grupos judaicos, diante da força oral dos descendentes africanos. Depoimentos e revisão bibliográfica dão o contorno de um encontro que fez surgir o carnaval tal qual como vivenciamos. “Essa festa que se resume, hoje em dia, às escolas de samba e blocos, começou na Praça Onze. Antes de existirem as escolas, havia os ranchos, com música mais lenta e instrumentos harmônicos. Era mais chique, as pessoas tinham que ir mais arrumadas, enquanto os blocos eram mais caricatos e piadistas.”
“Apesar das diferenças, esses dois grupos tinham um passado em comum: a perseguição religiosa. Enquanto os judeus sofriam com a intolerância muito antes do nazismo, os negros tinham passado pelo processo da escravidão. Eles não eram bem-vindos nem pela polícia, nem pela sociedade, porque não eram católicos. Além disso, a virgindade também não era um valor para eles, o que gerava confrontos. Também tinham em comum um humor muito interessante, irônico, mas nunca ofensivo. Eram, ainda, bons músicos. Viviam nas mesmas ruas, frequentavam os mesmos lugares, então, conviviam”, pontua a pesquisadora, que iniciou o trabalho numa monografia da pós-graduação em História do Brasil na Universidade Federal Fluminense (UFF), em 2008.
Segundo Beatriz, o bairro, localizado na parte histórica do Rio de Janeiro, chegou a ter 200 mil habitantes. “Era pobre e cheio de cortiços. No século XIX a burguesia morava lá, mas com a mudança para a Zona Sul, os casarões começaram a ser divididos e ocupados. Por muitas vezes, em um casarão de dez quartos chegavam a morar 20 famílias, tudo amontoado, com apenas dois banheiros”, destaca, enumerando algumas das muitos adversidades a que foram submetidos os dois grupos estudados, e também outros imigrantes, como os portugueses e os espanhóis. A extinção do lugar serviu, então, como limpeza social. “Ali tinha que ser uma Paris tropical, e os pobres e pretos tinham que desaparecer da paisagem”, lamenta Beatriz.
Todo mundo bamba
A Pequena África: famosa, a casa de Tia Ciata, cozinheira e mãe de santo, ficava no número 117 da Rua Visconde de Itaúna, na Praça Onze. No lugar, conforme Beatriz Coelho, “todo mundo que chegava permanecia até se virar na vida. No quintal, ela fazia cerimônias religiosas de matriz africana, e depois o lugar dava espaço para o batuque dos sambas”. Foi lá que, em 2016, Donga e o jornalista Mauro de Almeida compuseram “Pelo telefone”, primeiro samba gravado no país. Curiosamente, a gravação foi realizada no estúdio de um judeu, que já havia gravado lundu, outro ritmo de matriz africana. A convivência entre os grupos, de fato, rendia frutos. “Há uma lenda de que as gafieiras eram financiadas pelo comércio da Praça Onze, predominantemente de judeus”, aponta a jornalista e pesquisadora.
“O que mais me tocou nesse trabalho foi descobrir como eles conseguiram sobreviver a tanta adversidade, se integrando à cultura brasileira. Intuo, ainda, e gostaria de estudar mais, que a influência dos judeus na cultura negra tornou essa cultura vendável”, sugere Beatriz, que chegou ao tema pelas mais remotas memórias de infância. “Desde a minha juventude, em Juiz de Fora, sempre gostei muito de samba, saía na Turunas do Riachuelo e, por isso, a Praça Onze sempre me encantou. O carnaval que conhecemos hoje deve a esse bairro”, diz ela, que financiou a obra por meio de um projeto de crowdfunding. “Em dez dias, alcancei o orçamento mínimo e ainda havia dois meses pela frente. Devo ter chegado aos 500 livros vendidos”, festeja.
“NEGROS E JUDEUS NA PRAÇA ONZE”
Lançamento de Beatriz Coelho (Totó)
Neste sábado (26), às 20h
Doc Bistrô (Rua Morais e Castro 364 – Alto dos Passos)

