Eles estão on-line o tempo todo não importa onde estejam. Segundo a classificação do Ibope, a Geração Z tem entre 12 e 19 anos e cresceu em meio a uma sociedade em rede, com pleno acesso à internet e educação mais sofisticada que as anteriores. Com gadgets como computadores, smartphones e tablets, eles possuem acesso à informação como jamais foi sonhado por jovens de outros tempos. Seus pais, geralmente representantes dos "baby boomers", têm acima de 46 anos, são filhos do pós-guerra, com o mundo começando a se estabilizar, rendendo-lhes uma boa colocação no mercado e um padrão de vida mais confortável.
Nascida em um período um pouco menos otimista, a geração X, na faixa entre 30 e 45 anos, viu o início do desenvolvimento das tecnologias da comunicação e enfrentou crises como a do desemprego na década de 80. Já a geração Y, de adultos entre 20 e 29 anos, assistiu de camarote à revolução tecnológica, apesar de o acesso aos computadores ter sido massificado apenas para os representantes mais jovens, o que não impediu a difusão da cultura dos games com os extintos, mas inesquecíveis, fliperamas e consoles cada vez mais modernos.
Na série "Geração +", a Tribuna apresenta esta juventude interligada, em suas formas de pensar, agir e se relacionar com o mundo e as gerações anteriores. Ao longo da semana, as editorias de Geral, Política, Economia e Esporte direcionam o olhar para estes jovens, continuando um debate que tem suas primeiras impressões com a reportagem do Caderno Dois, inaugurador da sequência, abordando a relação destes adolescentes e recém-chegados à maioridade com a cultura e seus produtos.
"A primeira diferença é que eles têm acesso muito mais rápido e fácil aos produtos culturais, tanto lançamentos quanto os mais antigos. As gerações anteriores tinham muito mais dificuldade para chegar aos bens culturais. Pense em quem viveu antes do videocassete (antes da década de 1980): quando perdiam um filme exibido no cinema, não tinham perspectiva de quando poderiam ver o filme pela primeira vez. Era preciso esperar para ser relançado em cinema ou exibido na TV", avalia a doutora em comunicação e cultura e professora da Uerj, Fátima Régis, representante da geração X.
A estudante de medicina Lara Zacaron, de 19 anos, comemora essa facilidade de encontrar o hoje e o ontem da cultura nas redes. "A internet promove muitas pessoas talentosas, que talvez não teriam a oportunidade de mostrar seu dom sem ela, e também ajuda a resgatar filmes, músicas e artistas antigos, ou até mesmo esquecidos", diz ela, que se confessa um tanto "viciada" em seu smartphone. "Estou tentando me libertar um pouco! Mas uso para tirar fotos, pesquisar artigos, e alguns aplicativos me ajudam bastante. Também entro nas redes sociais, mando muitas mensagens, olho a previsão, anoto várias coisas, uso o mapa, ouço música, jogo caça-palavras, sudoku, enfim… não consigo ficar muito tempo sem ele e, quando estou sem, me sinto meio ‘desligada’!"
Um dos talentos mencionados por Lara pode ser o guitarrista Fabiano Oliveira, de 13 anos. "Tenho vários vídeos no Youtube, e isso ajuda tanto a divulgar a música quanto a encontrar pessoas interessadas em formar uma banda, por exemplo." Segundo Fátima Régis, outro aspecto determinante na relação dos Zs com a cultura é a possibilidade de atuar sobre seus produtos, modificando-os e recriando-os. " A tecnologia disponibiliza os recursos para manipulação desses produtos de forma muito acessível, o que muda a maneira como a juventude consome a cultura e seus bens, que são re-criados e re-consumidos, por sua vez." É o que acontece com o jovem músico. "A internet oferece um universo musical enorme, então somos influenciados por uma diversidade muito grande antes de fazer nossa música, e os próprios recursos da tecnologia facilitam a criação do que é nosso", opina Fabiano.
Para o professor do mestrado em Comunicação da UFJF, Nilson Alvarenga, esta grande facilidade de acesso, consumo e transformação dos produtos culturais redefine a relação da juventude com a cultura de forma geral. "Anteriormente, a busca fazia parte do prazer de fruir uma obra cultural. Hoje essa parte – e o prazer- é suprida desde o início. Isso leva a outro fator: não basta ver um filme e debater sobre ele, por exemplo: é preciso ver todos de todo diretor. O papo, para bem ou para mal, gira muito em torno de "quantos eu vi" e bem menos em torno de "como eu vi", opina.
Embora reconheça que haja uma verdadeira avalanche de informação cultural na rede, o estudante Rafael Junqueira, 14, ávido leitor de livros e gibis no tablet, acredita que ainda haja espaço para a figura dos ídolos em sua geração. "Da mesma forma que encontramos material sobre muitas coisas diferentes, podemos direcionar esta busca para encontrar mais e mais informações sobre alguém ou alguma coisa de que gostamos mais", conta ele, fã de Red Hot Chilli Peppers, do personagem Thor, saído dos quadrinhos da Marvel para o cinema, e da série de livros do adolescente semideus Percy Jackson, assinada por Rick Riordan.
Referências atemporais
Ainda que eles não sejam os mesmos ou vivam como seus pais, como versou um jovem Belchior há tantos anos atrás, em "Como nossos pais", certos ídolos ainda são os mesmos, como a mesma canção anunciaria. Para a estudante Lara Zacaron, os ícones culturais não apenas fazem parte da realidade da turma Z, mas alguns deles são herdados de juventudes passadas. "Tenho vários ídolos, mas nomino Chico Buarque. Acho que os grandes nomes da cultura sempre terão seu espaço, apesar de – infelizmente – muitos jovens não se interessarem em conhecê-los, porque acham que certas referências são ultrapassadas."
A professora da Uerj Fátima Régis não apenas corrobora a visão de que há referências atemporais, mas acrescenta que a relação com estes ícones é reinventada por cada geração. "Os clássicos sempre têm algum espaço em qualquer geração. É por isso que são clássicos: eles transcendem a critérios temporais, espaciais e, às vezes, até socioeconômicos. A relação com eles não é um problema específico desta ou de qualquer geração. O gosto pelo clássico é uma questão de nicho, toda geração tem um grupo que "curte" estes produtos. A cultura pop atual, por usar muitas referências a obras atemporais, estimula os jovens a conhecer músicas, filmes, livros clássicos. Pense na quantidade de produtos culturais citados em séries como ‘Os Simpsons’, por exemplo."
Ainda que grandes referências culturais consigam transitar pelo passar do tempo, a curiosidade sobre como a relação desta juventude tão conectada, tão informada (e ciente disso) com os mais velhos ainda persiste. Para a professora do programa de pós-graduação da Faculdade de Comunicação da UFJF e da Escola de Comunicação da UFRJ, Marta Pinheiro, a possibilidade de acesso às tecnologias da informação mesmo por gerações que não dominem seu uso pode ser um caminho para facilitar o diálogo com a juventude "on-line". "Todas as gerações sabem que algo mudou. A questão agora é saber como direcionar esta mudança, como qualificá-la em torno de quais objetivos. Por isso, o mais importante é que essas mídias também proporcionem um amplo espaço em que as controvérsias e os conflitos possam ser vistos, compreendidos e debatidos por todos."
