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‘Não estou documentarista, eu sou’

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O homem e a natureza, em sua convivência tão harmônica quanto conflitual. É este o olhar que o cineasta juiz-forano Marcos Pimentel lança em seu primeiro longa-metragem, "Sopro", exibido na próxima segunda-feira, na abertura do Primeiro Plano – Festival de Cinema de Juiz de Fora e Mercocidades, que vai até 30 de novembro. Em entrevista por e-mail à Tribuna enquanto lançava o filme no Festival des 3 Continents, em Nantes, na França, o diretor fala sobre a importância desta exibição para sua carreira. "É minha terra, meu primeiro longa, na abertura do Primeiro Plano, festival que acredito tanto, e no Cine-Theatro Central, o mais nobre palco da cidade. Isso me deixa acima das nuvens.

Filmado nos arredores do Parque Estadual de Ibitipoca, a poucos quilômetros de Juiz de Fora, entre junho de 2010 e novembro de 2011, "Sopro" passou pelo Visions Du Réel, na Suíça, um dos mais importantes festivais de documentários do mundo e também percorreu países como Estados Unidos, Canadá, França, Áustria, Suécia, Eslováquia, Cuba, Uruguai e República Dominicana. "É muito bom ver que existem lugares interessados em exibir e discutir filmes de pequenas dimensões, mas potentes em ideias e conteúdos. No quintal de casa, encontrei a possibilidade de falar da essência da vida, das pequenas coisas capazes de revelar os valores fundamentais e os grandes conflitos do homem."

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Seguindo a linha de diversas produções nacionais contemporâneas, "Sopro", ao mesmo tempo que é definido por sua localidade não é limitado por ela, o que, para Pimentel, amplia a possibilidade de diálogo com espectadores de todas as partes do mundo. "No filme, nunca identificamos onde a história se passa realmente. Muita gente acredita que nem estamos no Brasil. Estou na França, e ontem mesmo participei de uma longa conversa com o público, onde havia gente da Tailândia dizendo que tinha certeza de que o filme poderia ter sido feito lá, e um realizador da China dizia que achava que não, que poderia ter sido no país dele."

A produção, que também terá projeção amanhã no Rio de Janeiro, dentro da Mostra Competitiva de Longas da 5ª Semana dos Realizadores, registra os poucos moradores do local em suas rotinas de silêncio e introspecção, cercados por montanhas e encobertos por poeira de quartzito, trazida pelo vento, em uma relação simbiótica com a paisagem que os cerca. "Entre os personagens, o menino Cauã, estava com 8 anos, aquela idade em que você descobre como o mundo funciona realmente e se dá conta que nem tudo dura para sempre. Então, comecei a entrar cada vez mais no universo dele e a registrar como ele estava percebendo as transformações do mundo a sua volta. Ali, naquelas poucas casinhas nas montanhas do interior de Minas, ele buscava respostas para grandes questões existenciais do homem. Do cotidiano dele e dos poucos elementos do lugar, nasceu um filme que nos fala sobre a essência do ser humano e os mistérios que nos guiam pela vida e a morte."

Além de "Sopro", que tem o apoio da Lei Murilo Mendes, o Primeiro Plano exibirá também o curta "Charles Dimileto", de Henrique Vale, na cerimônia de abertura. O filme foi vencedor do Prêmio Incentivo Primeiro Plano da edição de 2012 do festival, recebendo R$ 5 mil para realizar a produção que estará na tela no Cine-Theatro Central nesta segunda-feira. Confira a programação completa no site www.primeiroplano.art.br

 

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Tribuna – Como você retrata a relação entre homem e natureza em "Sopro"?

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Marcos Pimentel – A paisagem é fundamental para o filme. Na tela, temos um pequeno vilarejo cercado pela imensidão de uma ampla área de montanhas. O vento – sempre o vento – brinca com os habitantes daquele lugar e espalha uma poeira branca, proveniente do quartzito (muito comum na região), por todos os cantos do vilarejo. A paisagem está lá, no desencanto e na dor das perdas e também na esperança pela chegada de novos tempos e nas descobertas dos enigmas que circundam aquele lugar. O filme observa silenciosamente o cotidiano daquele microcosmo em total isolamento e tem como matéria-prima a condição humana, a essência de pessoas que chegam a realizar uma verdadeira simbiose com a natureza, da qual dependem física e existencialmente.

 

– Como os personagens do filme contribuem para a narrativa do longa?

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– O filme mostra o dia a dia de famílias que vivem em isolamento quase total. Ali o homem vivencia o constante embate da preservação de hábitos e costumes centenários frente à incorporação das novidades tecnológicas do mundo moderno. Entre o que permanece e resiste ao tempo e o que parte em busca de novas experiências, "Sopro" faz importante registro de um mundo conflituoso em contínua mutação e em vias de desaparecimento. Os personagens vivem à margem daquilo que muitos chamam "civilização", mas não me transmitem tristeza por isso. Acredito que é importante refletir sobre isso neste momento em que não se fala em outra coisa que não sejam múltiplas possibilidades de conexão, trânsito e fluxo contínuo de informações, redes e outras parafernálias da sociedade contemporânea.

 

– Você tem uma carreira sólida como documentarista, mas o tema que aborda em "Sopro" dá margem para inúmeras possibilidades ficcionais. Você cogitou ou cogita trabalhar com ficção?

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– Até hoje, o documentário me possibilitou dizer tudo que tive vontade. É minha forma de me relacionar com o mundo. Por isso, tem muito de mim em cada um dos fotogramas dos meus filmes. Muita gente começa a fazer documentário porque geralmente os custos são menores que os de ficção e, depois, acabam migrando de gênero. Mas não vejo o documentário como um caminho para a ficção. Sou um documentarista e não apenas ‘estou’ documentarista. Minha história de amor com o cinema documentário é antiga, e espero que seja eterna (risos).

 

– Para você, qual a importância de ter gravado o filme na região?

– Nasci em Juiz de Fora, as montanhas e o silêncio fazem parte da minha personalidade, e carrego comigo muito do que os personagens de "Sopro" têm dentro de si. Muito antes de me perder pelo mundo, de encontrar no cinema documentário minha forma de expressão e de me descobrir documentarista, foi ali – na introspecção daquelas montanhas – que me descobri como gente, que aprendi a me relacionar com o mundo de uma forma discreta e silenciosa e a ter a atenção sempre voltada para as pequenas coisas da vida.

 

– Na sua opinião, os festivais estão abrindo as possibilidades narrativas do cinema brasileiro? De que maneira?

– Os festivais são o principal escoadouro de uma produção que ainda não tem espaço no circuito tradicional de distribuição em salas comerciais de cinema. Eles possibilitam fechar um ciclo e permitir que o público tenha acesso às mensagens que nós enviamos nos filmes. Quando um filme não chega a ser exibido, estamos dizendo coisas para quem? O processo de feitura é árduo, caro, ingrato… mas não pode ser em vão. Na maioria dos casos, os festivais são a única forma para que o processo de transmissão de mensagem se complete.

 

FESTIVAL PRIMEIRO PLANO

 

Abertura na segunda-feira, às 20h

Exibições: "Charles Dimileto", de Henrique Vale (curta), e "Sopro", de Marcos Pimentel (longa)

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