"Quando ele vem/faço dele minha luva, o meu collant", pronuncia a melódica voz de Roberta Sá na canção de Carlos Rennó e Gustavo Ruiz, que dá nome ao quinto álbum da cantora, "Segunda pele". Roberta retorna ao palco do Cultural Bar nesta sexta e apresenta show inédito na cidade com músicas do novo disco. "Acho que vai ser uma farra! Estou preparando um show para fazer Juiz de Fora dançar. Ao repertório do disco, já coloquei uma prévia do que vou fazer nos bailes pré-carnavalescos do Rio, em janeiro e no início de fevereiro", conta a cantora, em entrevista à Tribuna.
Calor, desejo, flerte, feminino e tropical são alguns dos predicados indicados pela artista para definir o trabalho recente, que começou a circular pelo país em março deste ano. "Conquistei palcos sagrados nessa turnê e descobri que meu público também quer me ouvir fazendo outras coisas. Essa foi uma descoberta maravilhosa", avalia.
Além das novas parcerias e sonoridades, Roberta se diz mais à vontade para explorar a feminilidade nas novas faixas. "Acho que o repertório é muito sensual. Poeticamente, musicalmente, existe uma sensualidade implícita e feminina. Uma poeira de sedução", diz. "A segurança para abordar certos temas veio com a maturidade, sem dúvida alguma", revela a cantora, que há dez anos realizava o show considerado o "marco zero" de sua carreira, no Mistura Fina, no Rio de Janeiro, cidade onde cresceu.
A sedução, ainda que presente em trabalhos anteriores, se faz mais explícita na obra que dará base à apresentação em Juiz de Fora. "Gosto de ser vista pelas festas/ser seguida pelas frestas/protagonista do sonho alheio", delineia a voz feminina do samba "O nego e eu", de João Cavalcanti, do Casuarina. À envolvente lista, soma-se a abertura "Lua" – "faz o sóbrio enlouquecer/todo ébrio é poeta/quando olha pra você" -, de Mário Sève e Pedro Luís, que reafirma neste trabalho a parceria com a esposa.
A direção musical do show é de Rodrigo Campello, que também toca guitarra e violão tenor e assina os arranjos e as programações. Os músicos que acompanharão Roberta no palco são Sacha Amback (teclados e programações), André Rodrigues (baixo), Paulino Dias (percussão) e Élcio Cáfaro (bateria).
Com repertório que aposta em canções inéditas e em compositores contemporâneos, Roberta se arrisca fora de sua zona de conforto, o samba. Os novos sons e diferentes ritmos vieram com a pura necessidade de se reinventar. "Acho chato ver um artista se repetir", diz. "A música me transportou completamente. Acho que alcancei uma camada mais profunda da minha pele. Me conheço melhor e sinto que posso me mostrar por completo", avalia.
Entre as 12 canções, estão dois desejos antigos da cantora, realizados com as regravações de "No arrebol", de Wilson Moreira, e "Deixa sangrar", de Caetano Veloso, que ganha a sonoridade do frevo, pouco explorada, segundo ela – assim como a marcha -, fora da atmosfera "de luxúria, beleza e fantasia" do carnaval brasileiro.
No fim do último ano, Roberta já ultrapassava a marca dos 200 mil discos vendidos, com dois CDs e um DVD de ouro. O primeiro álbum da cantora, "Braseiro", de 2004, tem como repertório "uma declaração de amor à música popular brasileira". Em 2007, foi a vez de lançar "Que belo e estranho dia pra se ter alegria". Dois anos depois, os dois primeiros álbuns se reuniram no show "Pra se ter alegria", que resultou no CD e DVD com os sucessos "Alô fevereiro", "Interessa?", "Mais alguém" e "Eu sambo mesmo". O projeto seguinte nasceu em uma conversa na Lapa. Em 2010, ela se juntou ao Trio Madeira Brasil (de Marcello Gonçalves, Zé Paulo Becker e Ronaldo do Bandolim) e gravou "Quando o canto é reza", homenagem ao compositor baiano Roque Ferreira. O disco tem coco, maxixe, samba carioca, maracatu, samba-de-roda e 13 canções do compositor – oito delas, inéditas.
Combinar os novos ímpetos à tradição de seu estilo nunca será tarefa difícil, segunda a cantora. "A voz dá unidade a tudo. O que canto faz parte do que sou. Eu estou dizendo tudo isso que canto. Pra mim música boa sempre convive em harmonia", finaliza.
ROBERTA SÁ
Hoje, às 23h, no Cultural Bar
(Av. Deusdedit Salgado 3.955)
