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Fragmentos virtuais

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O que Caio Fernando Abreu e Clarice Lispector têm em comum? Escritor apontado como um dos expoentes de sua geração, o gaúcho Caio Fernando Abreu escreve em estilo econômico e bem pessoal, fala de sexo, medo, morte e, principalmente, da angustiante solidão. Nascida na Ucrânia e naturalizada brasileira, Clarice, além de escritora e autora de títulos como "A hora da estrela" e "Laços de família", foi colunista do "Jornal do Brasil" e "Correio da Manhã". Recentemente, o nome dos dois escritores pode ser visto a todo momento por qualquer pessoa que esteja ligada em redes sociais como o Twitter e o Facebook. Diversas frases, de autoria (ou não) de ambos, vêm sendo postadas nas redes e viraram febre. Uma rápida busca por Caio Fernando Abreu no Twitter e no Facebook revela um verdadeiro oceano de citações. Estão lá, repetidas vezes, frases melosas como "E ela ama, mesmo sabendo que vai chorar tantas vezes ainda", ou "Não foi nada. Deu saudade, só isso. De repente me deu tanta saudade". Um novo resultado surge a cada 15 segundos, em média, no Twitter.

Embora com uso extrapolado no caso de Clarice e Caio, citações de livros ou simplesmente frases de personalidades são usadas fora do contexto da obra ou jogadas a esmo nas redes sociais. Muitas vezes, textos de autores conhecidos são colocados como de autoria anônima. Em entrevista recente à Tribuna, o escritor Affonso Romano de Sant’Anna, que já teve trechos pensados por ele propagados na web sem autoria devidamente creditada, não se mostrou tão preocupado com a situação. "A glória de todo autor é virar folclore. Quando ninguém sabe qual é o autor e começa a reproduzir o texto é sinal de que a obra atingiu o seu objetivo, misturou-se com a cultura popular. De uma certa maneira, isso me deixa feliz, porque o autor quer é ser lido, quer passar o recado", comentou.

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O assunto instigou a mestranda em estudos literários da Faculdade de Letras da UFJF, Talita Silva Schrober. Admiradora (real) da obra de Caio Fernando Abreu, Talita afirma que o uso fora de contexto de trechos do escritor na rede tem levado pessoas a compreender erroneamente a obra e a real intenção do autor com seu trabalho. "Ele virou um nome para autoajuda, enquanto, na verdade, não tem nada disso", explica. Focando seus estudos na obra "Os dragões não conhecem o paraíso", Talita percebeu como o conceito de paraíso melancólico proposto por Caio não é percebido pelos "leitores virtuais", que passam a atribuir aspectos positivos totalmente opostos aos pensados pelo autor.

Ao observar a deturpação no texto, Talita encontrou um aplicativo no Facebook destinado a compartilhar frases atribuídas a Caio Fernando. O programa oferece ao usuário uma frase para que ele compartilhe em seu perfil, sendo que a mensagem vem acompanhada de uma imagem. "Há uma passagem em que Caio fala sobre o sofrimento de um preso político, que precisa falar veladamente sobre sua angústia na cela. O aplicativo oferece como complemento para uma frase deste contexto uma imagem de uma mulher deitada confortavelmente em uma cama com edredons brancos, ajudando a evidenciar mais uma vez a ideia errada."

Com o crescente aparecimento de citações nas redes sociais, falou-se muito que a atitude poderia levar muitas pessoas a conhecerem a obra daquele autor e ser uma porta de entrada para a literatura. Entretanto, para o poeta e professor de literatura Alexandre Faria a situação não passa de um problema. "Há quem realmente acredite que há incentivos à leitura nessa prática, mas vejo isso com muito pouca frequência. Poucos chegam ao autor de fato."

Para o estudioso, a disseminação de frases soltas causa ainda falsa impressão sobre as características do autor e pode, também, afastar a pessoa de várias outras obras. Com uma ideia já formulada sobre o escritor, ao se deparar com a obra real, o leitor encontra aspectos totalmente diferentes. "O Facebook vem mexendo com o imaginário das pessoas. Há agora quem invente alguma frase e, para tentar mais circulação ou notoriedade, credita a Clarice, Caio ou Shakespeare. A simulação da autoria também é algo complicado."

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A opinião é compartilhada por Talita. Segundo ela, em sua pesquisa encontrou muitas pessoas, que, ao chegar na obra verdadeira de Caio, se surpreenderam com o que encontraram. "Vi pessoas falando que o livro não podia ser do Caio. Respondi que aquilo sim era o escritor." Conforme Alexandre, isso ocorre pois, com as "gotas" de literatura na rede, o ato da leitura vem se tornando algo superficial, mudando sua natureza. "Literatura é um livro inteiro e não partes."

De tanto cair no uso virtual, os autores passaram a ser considerados por alguns figuras "chatas". Outros, como o publicitário Filipe Machado, decidiram brincar com o novo folclore virtual. "Acho a banalização da literatura na internet algo engraçado. Muitas pessoas nunca leram poema, texto ou livro dos autores e saem postando frases ligadas a eles. Só entendo que o significado dessas postagens como uma estratégia para mandar uma indireta para alguém." Como forma de "protesto", Filipe passou a publicar frases alheias e creditá-las a Caio ou Clarice. "Feriados foram feitos para curtir e divertir", creditou a Clarice Lispector. A resposta veio de um amigo: "Vamos sair?", como "autoria" de Caio Fernando. "Se você postar uma imagem qualquer de um autor qualquer e escrever nela "Vai Corinthians" tem o mesmo valor de uma frase do Caio ou da Clarice. Ninguém se preocupa em procurar o real autor da frase."

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