
Desde que a chamada pós-modernidade agitou seus primeiros acenos na curva da década de 1950, o uso incontrolado de tecnologia passou a se revelar nas mais variadas discussões. Em 1995, o filme norte-americano "Denise está chamando" lançou foco sobre as mudanças nas relações interpessoais. O longa, dirigido por Hal Salwen, apresenta o cotidiano de um grupo de amigos que só se encontra pelo telefone, criando uma trama de afetos e conflitos virtuais. Como se vê, não é de hoje que o contato físico parece correr perigo. Uma pesquisa realizada pela empresa Cisco em setembro deste ano, entretanto, mostrou que a questão vem se intensificando. O estudo – com entrevistados de até 30 anos em 14 países – constatou que 72% dos universitários brasileiros preferem navegar na internet a namorar, ouvir música e sair com os amigos. Para refletir sobre o assunto, a Tribuna elaborou uma série de reportagens. Nesta edição, profissionais e pais discutem as experiências digitais dos adolescentes.
A professora doutora da Faculdade de Educação da UFJF Adriana Rocha Bruno aponta o perfil multitarefa da nova geração para defender a naturalidade das comunicações via web. "Os jovens de hoje realmente têm facilidade para lidar com tecnologia." Segundo a acadêmica, porém, essa potência está presente em qualquer faixa etária, já que é própria da sociedade cibercultural. Mesmo sem identificar excessos, Adriana observa a necessidade de utilização das novidades a favor da aprendizagem. "Cabe aos educadores e aos pais entender os filhos conectados e buscar caminhos." Para a psicóloga Maria Luiza Bustamante Pereira de Sá, doutora e chefe do Serviço de Psicologia Aplicada da Uerj, a internet é uma ferramenta amoral, que exige mediação para não se tornar perigosa. "A criança e o adolescente não encontram freios sozinhos. Se não há inibição, vem o excesso."
Depois de perceber que o filho João Pedro, de 12 anos, não falava em outra coisa, a esteticista Mariana Araújo Moreira resolveu limitar seu acesso à rede. Hoje, o adolescente, integrante da chamada geração Z, pode conectar-se somente às quartas, aos sábados e aos domingos, três horas por dia. "Discordo de muitas mães que preferem ver o filho trancado no quarto pois têm medo de complicações na rua", comenta Mariana, argumentando que a internet traz prejuízos se não for intercalada com outras fontes de prazer, como o exercício físico.
Os limites da geração Z
Para o estudante Paulo Inhan Matos, de 15 anos, o contato virtual não substitui o pessoal. "Eles se complementam." Normalmente, como acrescenta Paulo, as relações se iniciam no mundo real e se aprofundam pela web, uma vez que a distância consegue solapar qualquer timidez. Se não fossem as limitações estabelecidas pela família, o estudante abusaria do ciberespaço sem medo. "Sou viciado em jogos on-line e confiro sempre as redes sociais."
De acordo com Maria Luiza Bustamante, de fato, não se pode dizer que a internet isola os jovens. "Eles se comunicam o tempo todo." O problema trazido por esse outro modelo de sociedade, como explica a psicóloga, é a redução do convívio coletivo, responsável por inibição, obesidade e dificuldades de coordenação motora. "Além disso, os vínculos afetivos são menos desenvolvidos. Muitos internautas se esquecem de que por trás das palavras há pessoas."
Toda geração é influenciada por algum fenômeno e toma novos rumos. É o que assevera a professora Adriana Rocha Bruno, definindo os jovens digitais como fortes e criativos. Por outro lado, conforme menciona o professor da UFJF Cícero Inacio da Silva, em seu artigo "A geração Z", os meninos de hoje possuem características como a falta de paciência e ambição, a incapacidade de concentração e o desinteresse pelo trabalho "formal".
Segundo a cineasta Laís Bodanzky, diretora do filme "As melhores coisas do mundo", seu contato com elencos adolescentes a fez perceber que essa fase, na realidade, produz as mesmas dúvidas e angústias em qualquer tempo. "O que a tecnologia fez foi intensificar os dramas. O bulling sempre existiu, mas não é possível apagá-lo das redes sociais. Nesse caso, o pedido de desculpas não basta." Se hoje a internet é a protagonista, na década de 1980, quando Laís passou pelos hormônios em ebulição, o vilão era o telefone. "Eu ficava horas pendurada nele e sempre levava bronca."
Conforme o estudo da Cisco, 66% dos universitários brasileiros e 75% dos jovens profissionais não imaginam a vida sem internet (a média mundial é 55% e 62%, respectivamente). Apesar de conviver com muitos colegas que valorizam a virtualidade, a estudante Aimée Araújo, 13 anos, controla o próprio acesso e se conecta, no máximo, uma vez por semana. Para ela, seria possível ter um cotidiano sem a rede, apesar de algumas dificuldades inevitáveis. Atriz do núcleo adolescente do Grupo Divulgação, a jovem reconhece que seus companheiros de teatro têm a chance de se aprofundar mais em pesquisas por conta da web. A mãe da estudante, a esteticista Mariana Araújo Moreira afirma que as afinidades de cada filho – Aimée e João Pedro – justificam as diferenças de comportamento. "Importante é verificar se o cotidiano deles está equilibrado."
Na opinião da professora Adriana Rocha Bruno, não se deve demonizar os espaços virtuais. "Eles possibilitam comunicações abertas, sem fronteiras e múltiplas informações", destaca, completando que a questão da alienação sempre existiu. Ela considera natural o amplo interesse dos jovens pelas mídias digitais, mas alerta que os adultos devem ajudá-los a se tornar usuários críticos. A psicóloga Maria Luiza Bustamante engrossa o coro, observando que toda grande invenção mudou o cotidiano do homem. "Alguém consegue se ver sem energia elétrica?"
A cineasta Laís Bodanzky enxerga no comportamento da geração Z uma múltipla capacidade de concentração. De acordo com ela, sua filha de 9 anos consegue ouvir duas músicas ao mesmo tempo, uma pelo fone de ouvido e outra pelo aparelho de som do carro. "Na primeira vez, eu me assustei, mas depois passei a entendê-la", conta Laís, relembrando a época do walkman. Ela ressalta ainda sua entrada no Twitter e no Facebook durante a produção de "As melhores coisas do mundo". Com a ajuda de um assistente adolescente, descobriu o prazer da comunicação direta com os espectadores. "Ficava sabendo que a sessão ia lotar enquanto as pessoas ainda estavam na fila."

