
O português João Pires, o mineiro Vitor Santana e o percussionista Marcos Suzano fazem mistura de samba, fado, rock, rumba e flamenco (Divulgação)
Imagine um espaço sem qualquer fronteira. A língua é universal e incorpora sons, sotaques e traços culturais de todos os territórios que engloba, em um movimento que mimetiza a antropofagia. No produto final, fragmentos do que há de melhor em cada uma destas terras, agora sob nova nacionalidade: ser do mundo. Este espaço estará em Juiz de Fora neste sábado, em OAndarDeBaixo, na apresentação do projeto Coladera, iniciativa musical que já rodou o país, a Europa e as terras de Tio Sam, e celebra o encontro entre o músico português João Pires e o mineiro Vitor Santana, além do percussionista Marcos Suzano.
Da fortuita reunião, que começou quando João e Vitor cruzaram caminhos em Lisboa, em 2008, mudando os rumos da carreira musical de ambos. “Aí começamos uma troca muito rica. Logo o João veio para o Brasil, morou comigo, e começamos a fomentar um circuito de intercâmbio artístico entre Lisboa e BH que possibilitou, por exemplo, turnês nossas em Portugal e de artistas portugueses por aqui. Foi um projeto que já nasceu internacional e, por isso, com mais visibilidade”, avalia Vitor Santana.
Para o músico, a universalidade do projeto está tanto na linguagem musical, que rompe com barreiras idiomáticas, quanto no fato de a língua portuguesa ser comum aos integrantes, ainda que vinda de diferentes mundos. “Da África, além dos ritmos marcantes, exploramos muito a riqueza linguística das vogais, em palavras, por exemplo, como samba, muamba e femba, que ajudam a língua portuguesa a ser mais maleável. Além disso, eu e o João somos violonistas de linguagens distintas que se complementam, e nossas composições, com a convivência, ajudam a consolidar este emaranhado de culturas em uma teia coerente, que faz o trabalho ter força”, avalia o músico.
Em seu trânsito entre o regional e o global, o Coladera tem elementos da canção portuguesa, da guitarra ibérica e da vertente africana trazida dos anos em que João viveu em Cabo Verde; aliados à voz de Vitor Santana, que acrescenta também o violão popular brasileiro, sua influência latina e sua ligação profunda com Cuba. Por fim, Marcos Suzano (que está em turnê e será substituído em JF por Daniel Guedes, que bebe na mesma fonte musical) completa o trio com batuques de matriz africana, último dos ingredientes para concluir a receita que traz tantas facetas de países em que se fala português. “Este nosso lado da lusofonia ibérica, africana e brasileira nos uniu muito nas composições a partir disto, surgiram temas atlânticos, de mar, orixás… Foi um projeto que fez com que a gente passasse a compor de outra maneira, olhando de forma diferente para os temas de nossas próprias culturas e das alheias”, conta Vitor.
Conexões com o mundo
No show deste sábado, baseado somente em violões, percussões e vozes, será possível ouvir ecos que permeiam a mestiçagem do Coladera. “Tem samba, funaná (um ritmo de Cabo Verde), fado, tem rock’n’roll, rumba, flamenco, tem uma mistura que deu muito certo, foi dando liga e virou o grupo. E tudo isto começa sempre com a amarração de vozes e violão, sem baixo. É uma música mais crua, bem acústica, mas muito dançante”, adianta Vitor, voz principal do grupo. “Canto a maior parte das coisas, e o canto é interessante porque traz a história e a cultura de cada um, e é muito interessante poder se aventurar nas referências do outro. Em algumas músicas, por exemplo, canto em português com uma pegada mais lusitana, e estou praticando também cantar em criolo, uma derivação africana do português.”
O show homônimo ao grupo, lançado em 2013, foi incluído na lista dos cem melhores discos de música brasileira, pelo projeto “Melhores da Música Brasileira”, criado pelo crítico Ed Félix, do site Embrulhador (www.embrulhador.com). Os rapazes trabalham agora em um segundo disco, que terá parcerias de composição com escritores como os angolanos José Eduardo Agualusa e Gonçalo Tavares. “Eles consolidam este novo momento da língua portuguesa que exploramos em nosso trabalho. O segundo disco manterá isso, com uma pegada mais moderna, mais urbana, mas com o mesmo groove”, diz Vitor, confidenciando seu aspecto favorito do projeto. “É difícil pensar na melhor parte de algo que deu tão certo, mas os shows são muito bacanas. É a hora em que o público recebe e interage com o que fazemos, uma troca muito singular”, pondera ele, que tem grandes expectativas para o encontro com os juiz-foranos. “A cidade tem uma tradição musical muito forte, de vários gêneros e várias origens. É um lugar que tem muito a ver com o Coladera, sua maneira de estabelecer conexões com o mundo e nosso jeito de trabalhar uma linguagem universal”.
COLADERA
23 de julho, às 21h
OAndarDeBaixo
(Rua Floriano Peixoto 37/ 2º andar – Centro)

