
Reconhecida internacionalmente por seus poemas e prosas, Míriam Alves faz palestra em Juiz de Fora ( Divulgação)
Não faz muitos dias que a escritora Conceição Evaristo confrontou Paulo Werneck, curador da Festa Literária Internacional de Paraty, sobre a ausência de negros na programação principal. A polêmica repercutiu naquele período, mas o debate é antigo, está enraizado na nossa própria história, conforme aponta a escritora contemporânea Míriam Alves. Autora reconhecida internacionalmente por seus contos, poemas, ensaios e romance, ela chega para a abertura da Semana da Mulher Negra e Escritora, realizada nos dias 25, 27 e 29 de julho, na Universidade Federal de Juiz de Fora. O evento marca também o décimo encontro do “Ciclo de Conferências: estudos sobre o negro”.
“É racismo? Sim, é racismo. Porque racismo não é só não me deixar entrar pelo elevador social, racismo não é só o segurança ficar me seguindo no supermercado. O racismo está inserido na noção de nação, na criação da nação brasileira”, desabafa Míriam, cuja palestra aqui na cidade reflete sobre o tema “Mulher, escrita e sociedade”. Autora de livros, como “Momentos de busca” (Quilombhoje), “Brazilafro autorrevelado” (Editora Nandyal), “Estrelas no dedo” (Quilombhoje) e “Bará na trilha do vento” (Editora Ogum’s Toques Negros), a escritora paulista de 64 anos encontrou espaço para seus escritos na década de 1980, quando integrou o movimento Quilombhoje Literatura, um coletivo de escritores que mantém os “Cadernos Negros”, publicação voltada para a literatura afro.
“Meus poemas eram rechaçados no sentido de ‘nossa, tem muita pele’, fala de preto. Eu me sentia um pouco fora da questão literária. Aí eu encontrei esse grupo e percebi que lá faziam um poema cheio de pele e de situações cotidianas que me refletiam, refletiam a minha família e os meus vizinhos. A partir desse momento, grudei neles”, conta Míriam, hoje assistente social aposentada que segue, firme, levantando a causa que representa. “Se fosse viver só da literatura, com certeza eu não estaria viva.”
Tribuna – Você diz que, para ser escritora negra no Brasil, é preciso ter ginga de capoeira e ter um senso de humor cáustico. Há motivos para se comemorar nesta semana?
Míriam Alves – O avanço que se teve é a quantidade de escritoras que está ‘capoeirando’. Antes, éramos muitas e desistíamos na metade do caminho por várias questões. Agora, somos muito mais que aquela quantidade do meu princípio de escrita, falando coisas muito fortes, coisas que falam do nosso universo feminino, tanto da questão da opressão, quanto do amor, do erotismo, revelando esse conto nosso tão segregado, tão culpabilizado, tão erotizado para o prazer masculino. Acho que a ginga continua, só estão aumentando as jogadoras. Quando eu falo de humor cáustico, o que mudou um pouquinho é que, do cáustico, os poemas ficaram mais explícitos no sentido de falar sem travas.
– Já nos Estados Unidos você participa de mesas com escritores como Ignácio de Loyola Brandão.
– O histórico de literatura negra nos Estados Unidos é mais antigo e maior do que o nosso. Quando eu vou para os Estados Unidos, eu encontro lá o histórico deles, e eles valorizam a nossa história de escrita literária. A mesa que estive com o Ignácio de Loyola Brandão e com o João Almino era uma mesa de literatura. Eu faço uma literatura negra, o Almino faz uma literatura mais intimista, e o Loyola, uma literatura cáustica. Estávamos os três discutindo literatura numa mesa que fala igual. Aqui no Brasil, a partir do momento que não se consegue mais, principalmente nos livros acadêmicos, negar a nossa existência, cria-se um gueto, cria-se um quarto ao lado, nos fundos, para discutir a nossa literatura. A minha briga atual é a seguinte: eu sou literatura brasileira e faço literatura negra. Eu quero estar numa mesa, como estive nos Estados Unidos, com Marina Colasanti. Quero estar com as mulheres brancas que fazem literatura assim como eu. Aí se cria um apêndice para “não vamos misturar”. Isso também, para mim, é uma discriminação literária.
– Você criou o heterônimo Zula Gíbi para escrever literatura homoerótica. Por que escrever através de um heterônimo?
– Foi uma sequência de fatos. Os temas que saíam em “Cadernos Negros” normalmente eram temas de lutas, temas sociais, de contestação, mas eu vivia questionando porque não tem amor, erotismo, homoerotismo. A Esmeralda Ribeiro e o Márcio Barbosa, que gerenciam o Quilombhoje (coletivo de escritores que se dedicam à literatura afro), falaram: Por que você não escreve? Daí eu escrevi um conto chamado “Abajur”, que tem uma menina bissexual, outra lésbica e um rapaz, e assinei como Míriam Alves. Eu trabalhava como assistente social em São Paulo, e um conhecido chegou muito bravo, dizendo que ia dar com o livro na minha cabeça. Como era amigo, chamei para um café e conversamos. Como a gente vende livro no tête-à-tête, não tem uma distância, eu percebi como era perigoso. A pessoa acaba tomando a situação para si, e quem é culpada é a escritora. Então, resolvi criar um heterônimo e continuar escrevendo sobre essa situação que acontece, é verdadeiro, é literatura.
– O que você ainda sonha para a sua literatura?
– Vaidosa eu sou como todos os escritores, mas não sou egoísta, não sonho para a minha literatura, sonho para a nossa literatura negra, para a literatura negra feminina. Pelo menos uma vez no mês, tenho uma reunião, que chamamos de Barraqueira, com escritoras jovens aqui de São Paulo. Elas me alimentam muito com juventude, esperança, literatura, os perrengues que estão passando, me deixam forte. Sonho que nós consigamos fazer uma circulação melhor, porque nós temos leituras. O mercado editorial está perdendo em não nos ver. Existimos, escrevemos, nossa literatura é de qualidade e somos escritoras. Outro sonho, que discutimos no Barraqueira, é o seguinte: todos falam para a gente, enquanto mulher e negra, qual é o nosso lugar, e a escrita nunca é o nosso lugar. Muitas introjetam isso e pensam que não têm o direito de escrever. Se minha literatura é ruim ou boa, isso não impede que eu a escreva, porque nem todos os escritores brancos são bons, eles têm o direito de ser ruins, e eu tenho direito de ser humana.
SEMANA DA MULHER NEGRA E ESCRITORA
Palestra com Míriam Alves
25 de julho, às 18h
Anfiteatro da Faculdade de Letras da UFJF
Programação em www.ufjf.br
O “Sala de leitura” vai ao ar aos sábados, às 10h30, com reprise às segundas-feiras, às 14h30, na Rádio CBN Juiz Fora (AM 1010)

