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‘O auge do stand-up já foi’

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São João del-Rei – No palco, um Rafael Cortez tímido diante dos aplausos. Ao contrário do que se diz dos humoristas em stand-ups, ali sim Cortez estava de cara limpa. Poucas piadas e um repertório repleto de referências eruditas e literárias, que passa por uma peça barroca e chega aos movimentos sensíveis compostos para ilustrar o clássico O tempo e o vento, de Érico Veríssimo. O show de apresentação do CD Elegia da alma foi uma das atrações do 26º Inverno Cultural de São João del-Rei, Todo lugar é aqui, promovido pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ), que segue até o próximo sábado.

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Visto por poucas plateias – que preferem pagar pelo formato que as fazem dar boas risadas com o humorista, como ele mesmo lembra -, o espetáculo é composto por peças eruditas assinadas pelo artista, além de composições de músicos de diferentes épocas e lugares do planeta. Eu adoro surpreender a plateia nesse sentido, diz Cortez, em entrevista cedida à Tribuna logo após o recital. Acho que esse é um perfil do profissional do século XXI. Ele tem que ser multifacetado, seja na arte, na engenharia, ou na área que for, emenda.

‘Elegia da alma’ é disco autoral, no mais amplo sentido. Vai de reminiscências da infância ao duelo literário, sugere a jornalista Lorena Calábria, no texto de apresentação da obra. Como propõe a jornalista, pouco é preciso para a plateia notar que, como o riso, a música é também libertadora.

Cortez também está engajado no projeto Mulheres de hoje cantam a Nara de sempre, tributo à cantora Nara Leão, que completaria 70 anos em 2012, por quem ele confessa imensa admiração. As músicas mais representativas da carreira da artista serão interpretadas por importantes vozes jovens femininas de nossos dias, em um show, que será registrado em DVD, composto ainda por depoimentos exclusivos de amigos e familiares de Nara. A previsão de realização do projeto, aprovado pela Lei Rouanet, é o primeiro semestre de 2014.

Talvez mais sério na noite, mas não menos direto, o ex-repórter do CQC, da Band, atualmente contratado pela Record, é categórico ao afirmar que o stand-up comedy já passou por sua fase áurea. O que vai acontecer agora é que os bons vão ficar. Deixo claro que não sei se estou nesse grupo, ri.

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Tribuna – As pessoas ficam surpresas de ver esse outro lado do Rafael Cortez, de violonista erudito?

Rafael Cortez – É difícil assimilar, né? Eu adoro ter algo para mostrar que fuja desse lado do humor. O violão me eleva moralmente. O show de humor me engrandece em outros aspectos. Me deixa feliz, deixa as pessoas felizes, me promove encontros legais. Mas tem um momento que eu tenho que voltar para as raízes, pegar o violão e fazer um recital. Muito em consideração a pessoas que valorizaram esse lado meu. Minha avó, por exemplo, que já faleceu. Fico pensando que ela me olha do céu e fala: Meu neto agora faz sons do sexo no palco. E eu paguei tantas horas de violão para ele. Então, de tempos em tempos, eu faço um recital de violão e, quase sempre, é para a minha avó.

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– Você acredita que, por ser humorista, é mais cobrado como compositor?

– Não, porque eu nunca vendo o peixe de que vai ser uma coisa inacreditável, que sou um super violonista ou compositor. Eu admito que a minha função como violonista é promover um contato do público originalmente leigo com o violão. Eu não tenho uma pretensão concertista, não quero tocar no Festival de Inverno de Campos do Jordão, não quero estar lá com (Fábio) Zanon. Eu não busco essas coisas. O meu CD foi admitido desde o início como um CD preliminar, com composições intuitivas, composições do coração. Como tal, não têm como me cobrar, eu sou o primeiro a ser honesto comigo mesmo. Eu tenho as minhas limitações e trabalho dentro das minhas limitações.

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– Mesmo conhecido do grande público, você encontra dificuldades em conseguir uma gravadora. O que acha do cenário independente no Brasil?

– É uma salvação. A salvação do artista marginal. E ultimamente tem sido, inclusive, a salvação de alguns artistas consagrados. Tem gente que não tem mais gravadora e que é top. Só acho que o cenário independente poderia se unificar um pouco mais, haver um diálogo entre essas pessoas, em vez de cada um ficar dando um tiro para cada canto. Sinto falta daqueles encontros de músicos legais, daqueles QGs musicais, dos caras que se reúnem e fazem um selo. Acho que deveriam ter mais dessas iniciativas.

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– O formato do stand-up está um pouco banalizado ou saturado?

– É fato que o auge já foi, já passou. Agora a gente está naquela curva descendente, uma descida conceitual do stand-up. Todo mundo teve a sua oportunidade em 2009, 2010, que foi o auge. Quem fazia show teve mudanças inacreditáveis. Era sempre plateia lotada, bilheterias muito boas mesmo, bons momentos (ri). Deu uma saturada, muita gente resolveu fazer e nem sempre gente boa. O meu show mesmo era uma porcaria em 2009. Das cidades que me viram em 2009, fiz questão de voltar em 2011, 2012, quando já tinha um show melhor. Não foi o caso de São João del-Rei. Já vim aqui com o show mais bem resolvido.

-O que fazer então para aprimorar o formato para que continue despertando interesse?

– Bons shows, boa piada, bom humor. Não dá mais para subir no palco achando que vai ser incrível porque eu sou da TV ou porque eu sou legal ou porque eu sou bonito. Os shows têm que ser engraçados. As pessoas querem se divertir. Não adianta nada você ir ao show de um humorista top, badalado, que tem vídeo na internet que todo mundo está assistindo, e o cara não ser engraçado no palco. O que tem que acontecer para o humor continuar em voga é que os humoristas têm que ser muito bons. Eu não sei se estou nesse grupo, mas eu me esforço para isso.

– A postura do Rafael Cortez no palco é outra sem a máscara do humorista. O que muda?

– Eu me levo muito pouco a sério quando estou fazendo humor, subo no palco com a cara mais idiota do mundo, rindo de tudo. É diferente em um recital, mas, mesmo aqui, como violonista, ainda tem um pouco do humor, sempre rola alguma piadinha. Tem que fazer, porque senão a plateia fica frustrada.

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