Depois de participar do elenco de “Volta por cima” e do ganhador do Oscar “Ainda estou aqui”, a atriz Pri Helena entra na trama de “Quem ama cuida”, novela das 9, como Lyris. A participação da artista teve início na última semana, quando sua personagem é introduzida como aliada da protagonista Adriana (Letícia Colin), dentro do sistema penitenciário onde ela é colocada após ser considerada culpada pela morte de Arthur Brandão (Antônio Fagundes).
Mas a trama de Lyris está apenas começando — a atriz já pôde adiantar que, além da amizade que se estende para fora da cela, a personagem também terá uma trajetória própria, que envolve debates sobre ressocialização e um caminho que irá se cruzar com o de Ulisses (Alexandre Borges). Para além da novela, a juiz-forana também volta com a peça “Doce Árido” esta semana, após temporada de sucesso em 2025, com apresentações no Teatro Paschoal Carlos Magno.
A introdução de Lyris no horário nobre acontece com a personagem explicando para Adriana as regras da penitenciária onde passam a dividir a cela. Em entrevista à Tribuna, logo depois da cena ir ao ar, Pri Helena conta ainda estar “sem acreditar” na maneira com que o público recebeu o seu papel, e acredita que parte desse resultado tenha se dado justamente pela conexão que ela e Colin tiveram fora das câmeras, que se traduziu também no momento da cena. Quando é apresentada como uma força agregadora à história de Adriana, depois dos desafios enfrentados pela personagem, sentiu que o público se aproximou dela.
“Teve um mês de novela que eu fui espectadora, então eu já estava ‘amarradona’ na história. Sinto que estou participando de uma grande novela. Estou muito feliz, muito feliz mesmo, acho que mais feliz que isso impossível”, conta ela sobre a obra, que já está sendo exibida desde 18 de maio, quando a história se voltava para um período em que a vida das personagens ainda não havia se cruzado.
Mas o encantamento com o papel vai para além disso. Nessa segunda participação em novela e nova parceria com Claudia Souto, que também escreveu “Volta por cima” e a personagem Cacá, ela entende que há algo mais especial na dramaturgia quando desloca olhares. “O mais bonito da dramaturgia é quando ela faz a gente olhar pras pessoas que normalmente são invisibilizadas. O Brasil vive uma realidade carcerária muito dura, e acho muito bom quando essa novela também propõe uma reflexão sobre isso. Vamos discutir a segurança pública, óbvio, mas sem perder a humanidade, porque estamos falando sobre mulheres, sobre pessoas”, diz.
Essa discussão estará presente tanto no momento em que a personagem ainda está na cadeia, junto com Adriana e com Nancy (Jennifer Nascimento), como também quando sai do ambiente prisional e enfrenta todos os desafios para se inserir no mercado de trabalho e voltar a viver normalmente.
A preparação para assumir a personagem, nesse sentido, foi um dos momentos descritos pela atriz como mais importantes: foi preciso se aprofundar nas vivências de pessoas reais que passaram pelo sistema carcerário, através de documentários, assim como assumir um preparo físico através de treinos e cuidados com a alimentação. Apesar de ter se aprofundado o máximo que podia antes dos ensaios e da novela começar, conta que também sente que vem aprendendo com a personagem.
“A Lyris vem me mostrando que as mulheres privadas de liberdade vivem um apagamento muito específico, porque são completamente abandonadas. E dentro do sistema penitenciário criam sua própria sociedade. Eu já tinha esse conhecimento, já sabia das falhas do sistema carcerário, mas a Lyris tem me feito pensar mais sobre como a sociedade decide quem merece e quem não merece uma segunda chance”, reflete.
Personagens diversas
No audiovisual, as três personagens que Pri Helena interpretou e que foram recebidas pelo grande público ocupam posições bem distintas, como ela bem observa. É o caso de Cacá (a capanga de “Volta por cima”), Zezé (a empregada doméstica da família de Rubens Paiva em “Ainda estou aqui”) e da nova personagem. Ela enxerga que essa diferença foi construída não só no perfil de cada uma, mas também na personalidade e no modo de enxergar a vida e se comportar diante de situações adversas. “A Lyris é uma personagem muito desafiadora pra mim artisticamente, porque me tira um pouco da zona de conforto da atuação, porque geralmente pego personagens mais introspectivos. A construção da Lyris é diferente, porque ela tem uma pulsação de vida, é expansiva, muito carinhosa e empática”, comenta.
Apesar de tanto Cacá quanto Lyris terem tido um envolvimento com a criminalidade, por exemplo, ela entende que o modo como as duas personagens são interpretadas foi muito diferente. A primeira foi descrita por ela como uma personagem mais “endurecida” pela vida, enquanto a segunda conseguiu manter o alto astral e a doçura mesmo diante das adversidades. Essas diferenças, para ela, também ajudam a construir a complexidade da personagem.
“O que me interessa nela é fugir desse estereótipo da prisão. Quero trazer uma humanidade para essa mulher: contradições, humor, doçura e delicadeza. Às vezes, temos um olhar muito endurecido sobre essas mulheres que passaram pelo sistema prisional, e tento trazer a Lyris quebrando um pouco essa expectativa”, diz. Para ela, ainda, interpretar perfis tão diferentes permite se aprofundar em “uma pesquisa de humanidade” diferente a cada trabalho, e também a protege de fazer papéis que fiquem marcados por serem muito parecidos.
Liberdade para criar
A liberdade para criar é muito importante para Pri Helena, que também é roteirista e diretora. Mesmo quando não ocupa essas posições na construção de uma obra, entende que o diálogo agrega aos personagens que faz. Foi o que aconteceu com Cacá, uma personagem que inicialmente ocuparia um espaço pequeno na trama, e que cresceu com o decorrer da novela. Hoje, ela atribui isso à vontade que teve em “entregar o melhor em todas as cenas”, mas também à abertura dada por Souto como resposta ao seu trabalho.
Da mesma maneira, entende “Doce Árido”, em que interpreta a personagem Maria Antônia, como um marco, ainda mais considerando que a peça está tomando agora um novo rumo. Isso porque, depois das apresentações em Juiz de Fora na quinta-feira (25), sexta-feira (26) e sábado (27) — da qual ela não participará, e quem interpretará a personagem será Livia Gomes —, segue para uma temporada no Rio de Janeiro.
“A peça nasceu junto com o público, com a opinião das pessoas. Fizemos essa peça com apoio da Aldir Blanc, um edital público, e apresentamos na Praça CEU, um lugar onde as pessoas não vão muito porque é fora do circuito central. E de repente tivemos casa lotada e tivemos que colocar cadeira extra. E as pessoas comentando muito sobre o espetáculo. Ali, tivemos um estalo sobre como aquele trabalho poderia ser potente pra gente”, relembra.

