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Guerra, poder e sensualidade

com marcos marinho e fernanda cruzick canastra real fala de amor sexo guerra e poder atraves da simbologia dos naipes do baralho leonardo costa

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Com Marcos Marinho e Fernanda Cruzick,
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Com Marcos Marinho e Fernanda Cruzick, “Canastra real” fala de amor, sexo, guerra e poder, através da simbologia dos naipes do baralho (Leonardo Costa)

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O reencontro aconteceu numa festa na casa do maestro André Pires. O ator Marcos Marinho e a artista plástica Fernanda Cruzick já haviam atuado juntos, sob a regência de Pires, no coral-cênico Unicoro e no coral da Universidade Federal de Juiz de Fora. Ela não conhecia o ator Ricardo Martins, que entrou também nesse “jogo”, mas Marinho, sim. Trabalha com ele há 23 anos. Foi nesse momento que as peças se encaixaram, e os quatro se uniram para a montagem de “Canastra real”. Inspirado na obra dos ingleses William Shakespeare e Christopher Marlowe, o espetáculo estreia nesta quinta-feira e cumpre temporada até domingo, às 20h, na Sociedade Filarmônica de Juiz de Fora.

“A peça fala de cartas, principalmente, cartas de baralho, e é dividida em quatro naipes. A canastra real, em alguns jogos de baralho, é a que dá mais pontos. No andar do processo, veio essa referência à troca de cartas”, explica Marinho, que também é responsável pela reescrita e pesquisa dos textos, destacando que não há uma trama linear. “Cada naipe é uma história que foi vertida das obras de Shakespeare e Marlowe. O que costura a peça é justamente essa ideia de que sempre tem alguém que escreve uma carta para alguém”, diz Marinho. Com direção de Martins, ele e Fernanda colocam em cena uma peça que fala de sexo, amor, guerra e poder.

“Segundo Barbara Heliodora e historiadores, os dois autores trabalharam e escreveram, fizeram teatro juntos, frequentaram a mesma taberna e tomavam vinho juntos. Eles também têm uma métrica, uma certa melodia nas frases e um estilo em comum”, pontua o ator.

Com a ajuda dos deuses

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Para criar “Canastra real”, Marinho leu, releu, voltou várias vezes aos escritos dos dois dramaturgos. Da vasta literatura estudada, sobressaem, de Marlowe, além de sua biografia, a peça “Eduardo Segundo”, e, de Shakespeare, “Vida e morte do Rei João”, “Rei Lear” e uma cena de “Hamlet”. “Também tem um trecho que, para nós, significa o naipe que não é do baralho, o quinto naipe, o naipe brasileiro, que é um fragmento de “A pedra do reino”, de Ariano Suassuna. Ele também fala de reis, guerra, poder e sensualidade, o mesmo tipo de assunto”, aponta o ator, confidenciando que foi brincando que a peça nasceu.

Ainda integrante do grupo Armazém de Teatro, Ricardo Martins voltava de uma temporada por países europeus, trazendo nas mãos uma miniatura do Globe Theatre (teatro inglês construído em 1599, destruído em 1613 por um incêndio, reconstruído no mesmo ano e fechado permanentemente em 1642. William Shakespeare tornou-se um de seus sócios, transformando-o em arena para as representações de espetáculos. Uma outra construção foi erguida e reinaugurada em 1997). Encantado com o objeto, Marinho mostrou-o para Fernanda, uma aficionada pela estética da época dos dois dramaturgos. “Ela já trabalhou muito com moda e desenhos de roupas desse período e lê todos os livros a respeito. Depois disso, os deuses foram ajudando no resto”, brinca o ator, comentando que, a partir daí, os textos foram chegando até ele.

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“Quando começamos a pesquisar sobre um assunto, imediatamente, você acha outros textos. Comecei a entrar em livrarias e, sem que eu estivesse procurando, o livro estava ali, na minha frente. É como um fio que a gente puxa”, diz Marinho, ressaltando que a parceira de cena assina a estética do espetáculo, criados com inspiração no teatro elisabetano. “Trazemos o teatro elisabetano recriado pelo olhar da Fernanda. Ela desenhou tudo, refez toda a parte visual, figurinos e objetos.”

Marinho conta que ele e Fernanda cantam ao vivo, sob a direção musical de André Pires. Aí está o motivo da entrada do regente nessa montagem. “Como as peças do Shakespeare têm uma musicalidade muito específica, não só no sentido de cantar músicas, mas na forma como o texto foi escrito, o André entrou nessa história, nos dando dicas de como falar certas frases e de como cantar certas melodias. Além disso, ele gravou com acordeom e piano para a trilha sonora”, adianta o ator.

Drama com humor

“Canastra real” é composta por passagens muito dramáticas. Retrata momentos de guerra, traição, paixão arrebatadora e amor eterno. “São histórias fortes”, dispara Marinho. Porém, o ator afirma que o humor, certamente, está presente. “Por mais dramática e forte que a peça seja, eu e o Ricardo concordamos que sempre há uma pitada de comédia. Inclusive, essa é uma característica do Shakespeare e dos seus contemporâneos. Ele resgatou uma forma de fazer teatro que ficou perdida por algum tempo, que é a técnica de misturar notícias do dia a dia com filosofia, religião e deuses do Olimpo. É uma marca dos primórdios do teatro. Isso tudo é um resgate que o Shakespeare fez. Nessa hora é que entra o humor. Eu e muita gente pensamos que, quando se separa o drama e o humor, o trabalho fica capenga. Ou você faz os dois ou não faz”, defende o ator.

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Também à maneira do período elisabetano, o espetáculo prioriza o trabalho do ator. Segundo Marinho, essa proposta, inclusive, aproxima a nova montagem de “Meu dia perfeito”, apresentado em 2009 pelo Teatro Mezcla e também dirigido por Martins. “Essa não é uma peça espetacular no sentido de ter figurinos e cenários grandiosos. Não que a gente não use os recursos que o teatro permite. Claro que usamos, mas levamos muito em conta a figura do ator em cena. Procuramos não esconder o ator por trás do personagem”, sentencia o líder da trupe, para logo se justificar. “Por mais que ali esteja um personagem, as pessoas precisam ver que sou eu em cena e não só o meu corpo. É o que escolho para minha vida, o que eu penso. A filosofia de todos que participam do processo está ali no palco. É um trabalho muito próximo do que temos feito no Mezcla durante todos esses anos”, assevera o ator.

Com a ajuda da plateia

O caminho escolhido pelo Espaço Mezcla de Teatro para a montagem de “Canastra real” parece que ainda tem muito o que ser abraçado pelo público juiz-forano. A ideia era tentar vender ingressos com antecedência, levantando recursos através de uma campanha no www.kickante.com.br. O montante recebido, segundo Marinho, é menor do que o esperado, porém, a companhia comemora o resultado, já que a colaboração garantiu que a peça ficasse de pé para a estreia.

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“Pelos comentários que ouvi, percebi que esse ainda é um hábito novo em Juiz de Fora. O público não está acostumado e não acredita na compra antecipada. Comprar na internet também é um procedimento novo, porque muitas pessoas me ligavam relatando dificuldades, dizendo que preferiam entregar o dinheiro em mãos. Elas perguntavam se podiam fazer a reserva e pagar o ingresso na hora”, conta o ator.

Marinho adianta que a peça tem data de estreia em Lavras, nos dias 2 e 3 de julho, e deve retornar à terrinha no segundo semestre. Nos planos, claro, está colocar o pé na estrada e seguir para festivais. Como o Mezcla já tem as portas abertas em vários países da América Latina, por que não sonhar com os palcos estrangeiros?

CANASTRA REAL

Dias 23, 24, 25 e 26 de junho, às 20h

Sociedade Filarmônica

(Rua Oscar Vidal 134 – Centro)

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