
Acordeonistas da cidade mantêm viva tradição
"A sanfona é a cachaça dos nordestinos e o chimarrão dos gaúchos." Embora não tenhamos hábito de tomar chimarrão em Juiz de Fora e nem todos sejam chegados a água que passarinho não bebe, a frase de Hermeto Pascoal, multiinstrumentista e íntimo conhecedor da sanfona, sintetiza o fascínio que o instrumento causa e sua presença tão marcante na música e na cultura brasileira.
"É bonito demais encostar aquele negócio tão desengonçado no peito e ouvir um som aveludado saindo, parece que vem de dentro da gente mesmo", descreve o músico Nilson Antônio de Lima, entre a simplicidade e a poesia, traços que compartilha com o instrumento que lhe deu a profissão. Com ele nas mãos e perto do coração, Nilson vira Chacrinha e manda ver no "forrozinho", evocando na noite juiz-forana monstros do gênero como Dominguinhos, Jackson do Pandeiro e, inevitavelmente, Luiz Gonzaga.
No mês em que o choro do instrumento que consagrou Rei do Baião ganha os holofotes nas festas em louvor à tríade dos santos João, Antônio e Pedro, a Tribuna foi conhecer quem, como Chacrinha, carrega o acordeom e suas tradições durante todo o ano. Onde encontrá-los? Muito além das quadrilhas: nas ruas, nas rodas de música, nos bares, nos recitais, e nas mais variadas expressões musicais.
Entre o caipira e o atual
Para quem estiver se perguntando, sanfona e acordeom são, sim, instrumentos diferentes, embora sejam popularmente conhecidos pelas mesmas alcunhas, independentemente de qual dos dois esteja em questão. Eles possuem semelhanças em sua aparência, mas cada um tem sua singularidade nas formas de expressão e na relação com as pessoas (sejam músicos ou apreciadores).
"A sanfona tem botões dos dois lados, e o ato de abrir o fole produz uma nota diferente da que se obtém ao fechá-lo. Já o acordeom possui, de um lado, um teclado semelhante ao do piano, em que cada tecla ou botão corresponde a uma única nota, independentemente do movimento do fole", explica o acordeonista Leandro Domith, que mescla, em seu trabalho as raízes da música caipira a sonoridades contemporâneas.
"Tento usar o acordeom como um instrumento que abrange todos os estilos, dos mais populares à música clássica. A projeção midiática do Luiz Gonzaga acabou criando um estigma de ‘instrumento de forró’, destinado somente a este ritmo e suas vertentes. Claro que este é um traço importante da escola brasileira, que deve ser lembrado – e tocado sempre -, mas o acordeom oferece muito mais possibilidades musicais", diz o músico.
Resgate da brasilidade
Nesta busca de explorar todo o potencial do instrumento, Márcio Guelber, integrante do Quinteto São do Mato e dos Regionais do Jáizz, o emprega para fins que vão desde a condução de arranjos à transformação de clássicos do jazz sob uma roupagem brasileira. "O fole tem uma dramaticidade muito forte, meio humana e meio animal, de respiração, de fazer som com o movimento do ar. É uma tecnologia muito sofisticada, que permite amplitude sonora muito grande. Tocar acordeom dá essa sensação de estar parindo um som, me sinto grávido de música."
Entre um parto e outro, Leandro Domith defende a junção entre músico e instrumento como um dos traços distintivos do acordeom. "Ele se alinha ao corpo, e o fole se enche e esvazia como um pulmão. É uma relação corporal intensa, que não se vê em outros instrumentos."
Para Chacrinha, o acordeom torna-se um coringa por sua própria estrutura técnica. "É um instrumento completo, que possui, sozinho, ritmo, melodia e um campo harmônico muito amplo, além de uma acústica danada. Dá para fazer um baile só com ele. E, se a luz acabar, a festa continua, porque não precisa ligar na tomada", brinca ele, que já percorreu o Recife tocando baião, forró, xaxado e outras "coisinhas do Norte", como costumava dizer Gonzagão. "A riqueza do acordeom dá vida a qualquer tipo de música: bolero, valsa, rock, tudo, e as gerações jovens estão de olho nisso, porque podem fazer com ele um som diferente do padrão", reconhece.
Como Chacrinha, Márcio e Leandro veem, pelo menos no cenário juiz-forano, um crescimento do interesse dos músicos em resgatar essa vertente brasileira. "Desapareceram aqueles estigmas de ‘instrumento de pobre’, ‘instrumento de velho’, e mesmo pianistas têm se interessado em explorá-lo para obter sonoridades mais profundas. Em Juiz de Fora, ele está presente tanto em forrós quanto em casas noturnas", observa Márcio. "Isso também pode vir de um surto de brasilidade na cultura, depois de anos de guitarras de rock e da instrumentação da bossa nova, que se afastaram dos sons que remetem ao regionalismo", completa Leandro.
‘O acordeom é um instrumento que fala’
Longe dos palcos, o som do fole ecoa pelas mãos de gente como Dirceu Dutra, o seu Dirceu, que ao longo da vida já fez música no Calçadão da Rua Halfeld e em rodas em bares e praças do Centro. Vítima de um infarto no ano passado, Seu Dirceu não faz mais apresentações públicas, mas mostra que o coração, ainda que um pouco convalescido, continua em sintonia com o acordeom.
"Ele conversa com o cantor, é um instrumento que fala. Quando canto, ele faz a primeira voz, e eu, a segunda. Quando toco, nunca estou sozinho", diz ele, que chegou a gravar um álbum em 1978 e privilegia o cancioneiro de raiz em seu repertório, tendo, entre os preferidos, os versos de "Casinha verde" e "Moreninha linda".
Fora do circuito profissional, as notas do abrir e fechar do acordeom também conquistaram o caminhoneiro Sebastião Fernandes, presença garantida no bar do seu Walcyr, o Bar Frances, na parte baixa da Rua Espírito Santo. Entre garrafas, berrantes, fotos antigas e vários entusiastas da música essencialmente sertaneja, seu Sebastião entoa o que vier em seu acordeom. "Não chego nem perto dos profissionais que vêm tocar aqui, mas sempre gostei tanto de sanfona que resolvi comprar uma e aprender aqui, onde se faz o sertanejo de verdade a qualquer hora do dia", conta ele, que traz a foto da filha e da presidente Dilma Rousseff coladas no instrumento. "É porque ele fica perto do peito", explica o caminhoneiro, fã de Dilma e saudoso da filha, que se mudou da cidade.
"Ele é acanhado, mas toca uma quadrilha, um sertanejo, um forró, faz a festa que aparecer por aqui", entrega Walcyr, atropelando a modéstia do amigo. "É que com a sanfona é fácil. Basta um para fazer a música, e ela faz o resto. Vem mais um cantando, outro estalando os dedos, e, quando você vê, virou baile", responde Sebastião.
Márcio Guelber acredita que este poder festivo é inerente ao acordeom. "É um instrumento que se carrega e viajou o mundo todo com ciganos, marinheiros, mascates e afins. Ele tem esse poder de celebração, que mesmo nas notas mais dramáticas, possui força contagiante." Na opinião de seu Dirceu, que tem amplo domínio das teclas do instrumento mesmo sem enxergá-las em função de uma deficiência visual, a resposta é ainda mais simples. "O acordeonista é mais sensível que as outras pessoas, toca com amor, sente a música. O coração bate no compasso do fole."

