"Todos se conheciam, Juiz de Fora parecia constituir uma única família", recorda-se Murilo Mendes, em tom solene, sobre a cidade que nunca esqueceu. Em sua colaboração para o jornal "A Tarde", assinando a coluna "Chronicas mundanas" como De Medinacelli (pseudônimo proveniente do grande nome Murilo Medina Celli Monteiro Mendes), paira o que seria uma justificativa: "Vou ver outras paisagens; a minha alma, tão nova – e já tão velha – vai viver numa cidade maior, cidade onde os cenários são de legenda e de sonho. […] Talvez que eu nunca volte, embalado pela nostalgia infinita de outras terras, onde mais intensamente se vive, e se sofre, e se ama". O lugar que o poeta observava pela janela é visto agora, em retrospecto, pela coletiva "Juiz de Fora – Verbo e cor", que o Museu de Arte Murilo Mendes (Mamm) inaugura esta noite, às 20h.
Se para o escritor juiz-forano a cidade era pequena demais para o grande desejo de desbravar o mundo, com as letras e quadros expostos, salta aos olhos o deslocamento de uma história de riquezas para o presente do município, de atuais 516.247 habitantes, segundo o último Censo, realizado em 2010. Muita coisa mudou desde o descobrimento do Brasil, com as caravelas partindo de Portugal, até a industrialização de uma Juiz de Fora que também assistiu a passagem do cometa Halley, em 1910. Os casarios e as transformadoras indústrias davam à Princesinha de Minas ares de uma metrópole há muito esquecida, servindo de inspiração tanto para os escritores (sempre volumosos) quanto para artistas plásticos (sempre prolíficos).
Com pesquisa e curadoria assinadas pelo pró-reitor de Cultura Gerson Guedes, que também apresenta uma imagem da Câmara Municipal fronteada por carros de boi, a exposição retrata o caminho inverso do poeta que dá nome ao museu, já que Murilo nasceu em Juiz de Fora e morreu em Portugal. "Como fui professor durante muito tempo, me incomodava ver o desconhecimento de meus alunos em relação à história local. É muito recente a introdução da história da cidade nos currículos escolares", pontua Guedes, justificando o didatismo da mostra que espera desenvolver no próximo ano, dando continuidade cronológica (do século XX aos dias atuais) e diversificando o leque de artistas.
Aglutinando num mesmo espaço, onde reina o imperativo por uma leitura clara e sofisticada, artistas de diferentes gerações, a exposição também revela os principais referenciais artísticos da cidade, em sua maioria com passagens pela Associação de Belas Artes Antônio Parreiras. Paisagens e pinceladas semelhantes com paletas distintas retratam importantes pontos da cidade, como a Rua Halfeld ("Alto de rua") de Heitor de Alencar vista sob uma perspectiva que encurta o longo trecho e permite enxergar o fim. Além de Alencar, Silvio Aragão, Jayme Aguiar, Claro de Campos, Lidércio Amorim, Dnar Rocha e Renato Stehling, todos alunos da Parreiras, confirmam a força de uma instituição que contribuiu para pintar Juiz de Fora em seus ângulos mais românticos.
Representada por Frederico Bracher, o tio, e os irmãos Nívea e Carlos Bracher, além da esposa de Carlos, Fani Bracher, a família também se apresenta como fonte potencial das artes locais. Com gestos muito mais sutis do que as pinceladas vigorosas que o consagraram, Carlos expõe um "Rio Paraibuna" lírico e brejeiro. Já Nívea mostra uma "Estação" impactante sob a luz crepuscular. Fani, entre o desenho e a pintura, resgata a "Ferreira Guimarães", fábrica mítica.
Das caravelas desenhadas por Jorge Arbach à vila pintada entre rascunhos por Ramon Brandão, passando pela "Terra de Vera Cruz" de Eliardo França, pela Rio Branco plácida de Rogério de Deus, pelo "Acroterium" (com fragmentos da arquitetura antiga da cidade) de Ricardo Cristofaro e pelo "Ouro" (um dos trabalhos mais contemporâneos da mostra, com interferências douradas e brancas sobre um tecido, remetendo à ideia de resquícios e vestígios) de Petrillo, outras gerações e formações também denunciam o cenário múltiplo da arte local. Apesar de não pertencerem ao discurso proposto, os trabalhos produzidos recentemente se inserem na leitura histórica corroborando o interesse plástico pelas discussões referentes à memória. "Se eu trabalhasse com a geração mais antiga ficaria somente na pintura", reforça Guedes, que prevê a ampla distribuição de cinco mil exemplares do catálogo da exposição, tanto para visitantes quanto para escolas públicas da região.
Das letras expostas, um adjetivo: saudosista
Sem se render apenas aos memorialistas que Juiz de Fora fez despontar, como Pedro Nava e Rachel Jardim, a exposição também traça um panorama da literatura local, reunindo nomes como os de Almir de Oliveira, Francisco de Campos Valadares, Albino Esteves e Cosette de Alencar, que contribuíram para uma cena jornalística e cultural efervescente na cidade. Além deles, o político Menelick de Carvalho, o historiador Jair Lessa, o genealogista Wilson de Lima Bastos e o compositor João Medeiros Filho também acompanham, com suas criações poéticas e ensaísticas, para ressaltar o lirismo do que já foi a Manchester Mineira.
Poetas de diferentes gerações, como Austen Amaro (atuante na primeira metade do século passado), Marta Gonçalves (da geração de 1970 e 1980) e Iacyr Anderson Freitas (na ativa desde os anos 1980), confirmam o vigor da poesia resistente de Juiz de Fora. Reconhecido jornalista e escritor, Affonso Romano de Sant’Anna apresenta seus escritos referentes ao período em que viveu na cidade. Tendo passado por Juiz de Fora algumas vezes, a primeira delas em 1917, Manuel Bandeira é o único autor de fora, apesar de em versos demonstrar-se simpático à terra: "Juiz de Fora! Juiz de Fora! / Tu tão dentro deste Brasil! / Tão docemente provinciana…".
De acordo com Gerson Guedes, a profusão de informações das últimas décadas propiciou a dispersão de referenciais. "Não podemos perdê-los. As culturas que preservaram suas raízes estão aí, fortes", analisa. Em poema que segue a obra "Vila", de Ramon Brandão, Almir de Oliveira também resgata uma cidade de lembranças: "Demoliram tuas casas baixas e teus sobrados, / que nos davam notícias das tuas origens / que nos falavam do teu passado / de principal cidade das Minas Gerais". O saudosismo inevitável que surge do breve retrospecto expositivo se abre em esperança para o espectador que constata o quanto a arte esteve – e está – a serviço de Juiz de Fora. Em suas formas variadas de expressão, esses artistas recusaram o silêncio das ruas, fazendo-as vibrar.
