
Professora Mírian Freitas e o aluno Wilson Ferreira exibem “Alento”, composto por prosa e poesia (Fernando Priamo)
O estampador Wilson Ferreira dos Santos, à época com 42 anos, driblava o cansaço e seguia para as aulas do curso Proeja-Secretariado, desenvolvidas no IF Sudeste. Entre os colegas de classe daquele 2014, estavam outros alunos com realidade semelhante à dele: jovens e adultos, na faixa etária entre 30 e 55 anos, casados e responsáveis pelo sustento dos filhos. Podia até não ser fácil ter que enfrentar os livros depois de um dia de trabalho, mas foi lá que ele e os colegas se depararam com o projeto “Horizontes culturais: leitura e criação em forma de texto”, no qual puderam deixar fruir a sensibilidade e criar prosa, poesia e aquarelas que acabaram indo para “Alento” (112 páginas). O trabalho foi contemplado com o primeiro lugar do Vivaleitura, uma das principais honrarias destinadas ao fomento da leitura no país.
“Passei a ler mais, a pensar diferente. Só de estar aqui, dando entrevista, já é uma mudança”, dispara Wilson, ao lado da professora e mentora da iniciativa, professora Mírian Freitas, em entrevista para o “Sala de leitura”, que vai ao ar na Rádio CBN Juiz de Fora (AM frequência 1010), no sábado, às 10h30, com reprise na segunda, às 14h30. Durante a escrita, o novo poeta recordou-se da amizade e do amor que nutre por Nathan e escreveu “Carinho de pai e filho”, um dos 52 textos que compõem a publicação.
“Um abraço carinhoso é como sentir/ Revestido do mais puro e sincero amor./ Carinho, palavra que conforta,/Transmite confiança./ Ah, como é bom o carinho de mãe, de esposa, de filho!”, versa o autor e também dono da pintura que ilustra a capa do livro. “Carinho, carinho, carinho,/ Não existe nada mais sincero que um carinho puro/ E verdadeiro”, conclui o poeta.
Idealizando conquistar novos horizontes em sala de aula, Mírian apresentou a proposta e, a partir daí, a biblioteca e o laboratório de informática da instituição passaram a ser regularmente frequentados por aquele grupo já maduro. “De um certo modo, subvertemos os paradigmas tradicionais da educação. Por que fizemos isso? Por que isso fez parte da busca do encontro do eu, da busca da cidadania e da auto-estima de cada um deles”, comenta a professora, que lhes apresentou uma literatura a qual muitos não estavam habituados. Pablo Neruda, Manoel de Barros, Mario Quintana, Carlos Drummond de Andrade e Fabrício Carpinejar deram a inspiração que eles precisavam para a confecção dos textos.
“Introduzi esses autores em forma de vídeo. Pegando o link com Neruda, por exemplo, eles viram “O carteiro e o poeta”. Também assistimos a outros filmes, inclusive, coreanos. Depois, fui inserindo os textos de uma forma agradável. Eu acredito que a leitura penetra dentro da gente e pode se tornar prazerosa a qualquer momento. Basta estarmos abertos a isso”, diz ela, afirmando que não sofreu, por parte de seu público, qualquer resistência à novidade. Mas o que dizem esses poemas e prosas contemplados pela iniciativa realizada pelo Ministérios da Cultura (MinC) e da Educação (MEC)? “Eles me lembram muito os textos da poeta Goiana Cora Coralina que, já na idade adulta, fez da escrita sua missão de vida. É uma forma subjetiva de se afirmar como o “eu” existe dentro destes alunos, uma forma até memorialística de eles resgatarem quem são.”
Como personagens de Guimarães Rosa
Ao contar que, nas oficinas, propôs aos estudantes que eles buscassem matéria-prima para os textos em suas experiências cotidianas, ela pensa no autor de “Grande sertão: veredas” e “Sagarana”. “Lembro-me desses alunos como personagens de Guimarães Rosa, que são seres especiais que têm aquele propósito da sabedoria inata, intuitiva”, dispara Mírian. “Por eles terem várias dificuldades na vida, assim como qualquer pessoa, acredito que as oficinas tenham sido um momento de desabafo, de se despojar daquilo que você é. Eles tiveram a oportunidade de dizerem ‘estou aqui, olhe para mim'”.
Para confirmar o que diz Mírian, basta abrir a publicação na página 30. Ali, encontramos Flávia Barreto da Costa, 42 anos. Filha de Juiz de Fora e mãe de um casal de filhos, ela faz uma espécie de confidência em “A educação transformou a minha história de vida”, prosa dedicada à mãe.
“Ah! Como a educação pode transformar uma vida! Minha mãe me aconselhava: ‘Estuda minha filha, que só com estudo você pode seu lugar ao sol encontrar.’ Mas sempre tivemos poucas rendas e sobrevivemos aos tempos difíceis. Há tempos atrás, as pessoas de classe baixa, para estudar, era só pagando o ‘famoso jeitinho brasileiro’. (…) Hoje, depois do luto, da dor e das perdas, enxergo com os olhos da minha mãe. A educação me abriu portas e caminhos por onde eu nunca sonhara em pisar… Um trecho da minha vida alguém vai publicar e quem o lê um dia pode por lição tomar”, comemora a estudante.
“Tudo nesse livro passou pela genialidade desses alunos. A capa, o título, os textos e as pinturas que foram acrescentadas ao corpo da publicação”, observa Mírian, explicando a escolha do nome da antologia. “O que é alento?” É um suspiro de tranquilidade no meio de uma tempestade. É um único segundo em meio ao caos”, comenta a professora, que busca o prêmio dia 29 de abril, em Brasília. “Vou inscrevê-lo em outros prêmios. Também estamos planejando fazer um grupo de estudos sobre o livro e apresentarmos o projeto em encontros nacionais e internacionais”, diz Mírian, ao justificar sua crença de que “um livro nunca morre”.

