
Tudo conversa: artista “copia e cola” após pesquisas feitas na web
Bicho vendo seu futuro: trabalho da série “Ora bolas”
O termo aleatório se encontra no dicionário acompanhado por uma subordinação. “Que depende das circunstâncias”, diz o Houaiss, antes de também elencar os sinônimos “casual, fortuito, contingente”. Confuso? Não! E os trabalhos da série “Fabulário”, do carioca Osvaldo Carvalho, parecem elucidar a questão. Uma palavra, um clique em “buscar”, e está dada uma narrativa inusitada. Na tela do computador, na barra de pesquisa, está o antecedente das telas de pintura do artista, que inaugura exposição nesta sexta, às 20h, na galeria Hiato – Ambiente de Arte. O que inicialmente parece completamente sem ordem acaba por se estabelecer em um critério. “Aproprio-me das imagens de internet em sites de buscas. Se prestar atenção, assuntos correlacionados são apresentados. Isso forma um conjunto de informações que propõem uma identidade, cria uma espécie de fábula”, conta Carvalho.
Estabelecendo diálogos irreverentes, Osvaldo faz conversar um neném com uma luminária, com um fragmento de um código genético, com a logomarca da Apple, com um monitor de computador, entre outros elementos. A raiz de tudo, segundo ele, não carece ser revelada. “Não gosto muito de revelar. Deixo para que o espectador tenha um objeto que não se resolva em um primeiro olhar”, diz. “Não invento imagens, apenas ‘copio e colo’. As primeiras imagens são as mais óbvias. Se continuar a pesquisa, começando por ‘robô’, irá chegar a pássaros, tubarões e Copa do Mundo, que de alguma maneira mantêm uma relação. Nas imagens das minhas telas, o trabalho não termina em um olhar único. É como se passasse o mouse em diferentes informações”, completa.
“Uma das telas se chama Sid. É uma pesquisa sobre buda, que me levou a Sidarta Gautama, daí parte para uma espécie de apelido, Sid. Olhando, as pessoas vão, pouco a pouco, descobrindo elementos: a primeira visão dele, ele embaixo de uma árvore. Mas tudo sem definir o inicial”, exemplifica, sobre a pesquisa que surgiu em 2010 e no ano passado ganhou a galeria do Museu de Arte Contemporânea de Niterói, com curadoria de Mariana Bretas. “Nesse espaço-tempo deslocado, a tela passa a ser o território do gesto, do movimento, dos encontros e desencontros, das aproximações e dos distanciamentos de sentidos e significados. A pintura de Osvaldo Carvalho não dá respostas, ela lança perguntas e instiga o observador a criar suas próprias narrativas dando a ele apenas vestígios, silêncios e vazios. Na tela o que se vê é um equilíbrio inusitado, com decalques de delicadeza, de um mundo real e imaginário, com histórias que não se esgotam nunca”, reflete a curadora.
Tudo belo, tudo cruel
Em “Fabulário” também está uma série de obras com animais em dois momentos, do belo ao escárnio. Um pintinho, amarelo como os da infância, observando um frango assado, um ganso de olho no “foie gras” ou um cordeiro diante de um pernil feito com a carne de sua espécie. Há uma ludicidade nas telas coloridas a esconder certa crueldade em sua mais dilacerante crueza. “É como se eles olhassem para o futuro”, brinca Osvaldo Carvalho. “O que dá mais cliques de visitação nos sites ou em redes de relacionamentos são os posts relacionados às crianças ou aos animais. Isso é muito interessante, porque há sempre dois lados: os que gostam muito e os que falam sobre maus-tratos. Meus trabalhos remetem a essa ambiguidade de emoções, o que dá um choque”, explica.
Coloridos, os trabalhos também preservam ruídos, pequenas imperfeições, o que o artista diz ser um reflexo da vida. “Esse ruído existe em todo lugar. A vida não é uma perfeição. A internet, por exemplo, falha, e quando você busca alguma coisa pode não achar. É possível entrar em um lugar inofensivo e ir parar em outro completamente sombrio”, comenta Carvalho, que se lançou nos anos 2000, após vencer o Prêmio Interferências Urbanas, do Governo do Estado do Rio de Janeiro. Das telas para a telas, o artista faz a opção pela pintura, percorrendo o caminho do digital ao mais característico artesanal. “O contraste é ótimo. Quando olho para a tela plana, logo me vem a tela de pintura. Tento, inclusive, trazer muito brilho para os trabalhos. Tecnicamente vou trabalhando até chegar a esse ponto de contato com o tecnológico”, afirma.
Nas mãos, com uma pesquisa assumidamente contemporânea, Carvalho choca ao não abrir do tradicional, da pintura, que vem pouco a pouco sendo praticamente recusada num sistema da arte voltado às experimentações ainda sem definições. “O Brasil tem uma tradição muito importante na arte conceitual. Mas, mesmo aí, o grupo que se projetou é muito pequeno. Temos pintores de muito gabarito, mas ainda não há uma educação do olhar”, pontua. Nesse sentido, o artista também tece uma crítica à era informatizada: “Olhamos para muita coisa, mas não vemos nada. Até que ponto conseguimos enxergar tudo o que tem ali?”.
FABULÁRIO
de Osvaldo Carvalho
Abertura sexta (24), às 20h
Visitação de segunda a sexta das 9h às 12h e das 14h às 18h, aos sábados das 9h às 13h. Até 17 de maio
Hiato – Ambiente de Arte
(Rua Coronel Barros 38 – São Mateus)

