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Marco de descaso

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A placa rachada que destaca, na Praça da República, o Marco do Centenário de Juiz de Fora reflete o estado do monumento. O descaso dos órgãos públicos e o desrespeito dos frequentadores do local ameaçam um dos mais importantes patrimônios da cidade, marco do modernismo brasileiro. Herança dos traços do arquiteto Arthur Arcuri – que completaria 100 anos em 2013 – e da arte de Di Cavalcanti, o monumento de mais de seis décadas se destaca na história por ser o primeiro não-figurativo executado no Brasil e o primeiro mosaico modernista situado em praça pública.

Tombada, em 1996, como patrimônio cultural do município e, em 2001, pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), a construção segue se deteriorando com as ações do tempo e, sobretudo, com o vandalismo que afeta a praça no Poço Rico. O abandono é notório já no entorno da obra. Lixo e diversos tipos de materiais podem ser vistos espalhados ao redor do conjunto. Apesar da restauração ocorrida há pouco mais de dez anos, pastilhas que revestem a obra se desprenderam – ou foram arrancadas – e dividem espaço com as pichações, que se multiplicam a cada ano.

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Vizinha da praça, a filha do arquiteto que deu os contornos ao projeto, Alice Arcuri, vê com tristeza o estado de deterioração do bem. "Mais um ladrilho arrancado, e a depredação chegará ao painel feito pelo Di Cavalcanti", constata. Alice cogita, "com pesar", a ideia de isolar o monumento, antes que esteja destruído por completo. "Entendo que isso está longe do ideal, como dizem os estudiosos, mas, enquanto não chegam os recursos, vamos deixar que ele acabe?", indaga. "Não estamos na Europa, e até mesmo lá os bens sofrem com o vandalismo. Sou, neste caso, a favor da colocação de tapumes, como acontece nos lugares que precisam ser protegidos antes que as obras de fato comecem." A filha de Arcuri vai além e defende que os artistas mobilizados com a causa deveriam deixar seus traços na madeira que isolaria o conjunto.

Mais que restaurar a obra, coração da praça, os arquitetos engajados nas questões patrimoniais da cidade defendem a apropriação do local pela comunidade. "Ela é a grande guardiã do espaço e do monumento", destaca o artista gráfico e professor do Curso de Arquitetura e Urbanismo da UFJF, Jorge Arbach. "As pessoas precisam se sentir responsáveis pelo marco, precisam utilizar aquele espaço", completa a arquiteta Mônica Olender, que discute propostas sobre o uso do local suscitadas pela Oscip Permear.

Há mais de dois anos, o projeto de restauração do monumento, elaborado pela Permear, espera pelos desdobramentos necessários a sua execução. Em agosto de 2010, o estudo solicitado foi entregue à Prefeitura segundo a vice-presidente da Permear, a arquiteta Milena Andreola. Danos estruturais do conjunto, causados pelas intempéries e também pelas condições do local em que a obra está exposta, foram mapeados. A autenticidade do monumento também é posta em xeque, uma vez que quanto mais o tempo passa, mais características e materiais originais precisarão ser substituídos. Em 2011, o Iphan aprovou a proposta, mas solicitou ao município outros projetos, referentes à revitalização da Praça da República. Os projetos técnicos – paisagístico, hidráulico e luminotécnico – estariam, até hoje, sendo discutidos. A obtenção dos recursos necessários às obras, segundo a Prefeitura, faria parte da próxima etapa do processo.

 

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Apropriação da sociedade

Para o coordenador do curso de Arquitetura e Urbanismo do CES/JF, Paulo César Lourenço, é preciso, por ora, deixar de lado a qualidade e o valor do monumento em questão para avaliar a má conservação dos espaços públicos no Brasil. "São mal cuidados, depredados. Falta zelo dos órgãos públicos, mas também da população", diz. O arquiteto Rogério Mascarenhas engrossa o coro. "As prefeituras se preocupam em fazer diversas obras, mas quase nenhuma manutenção", diz.

A falta de uso do espaço pela população ocasiona – ao mesmo tempo em que justifica – a insegurança dos moradores de ir a um lugar ermo, sem policiamento, sem atrativos de comércio ou lazer. "Existe uma série de possibilidades que se destinaria a tentar trazer a população para o local, como, por exemplo, bancos de leitura, equipamentos de ginástica, playground, um quiosque para lanches", sugere Mascarenhas, ressaltando que deve ser levado em conta, neste sentido, a demanda do bairro, tradicionalmente residencial. "A região Sudeste, de forma geral, carece desses espaços de encontro", diz.

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Um agravante para a falta de apropriação do espaço é, segundo Lourenço, o fato de a praça ser apenas um espaço cercado por vias de trânsito. "Acaba sendo uma praça somente na nomenclatura", conclui. A questão do trânsito também é citada por Jorge Arbach, que levanta outra possibilidade para o local. "Retirar a rotatória e emendar o trecho em que hoje transitam os carros ao conjunto residencial. Se o trânsito permanecesse somente na Rua Osório de Almeida, em mão dupla, o local não ficaria tão isolado", propõe o professor, que lembra como a medida foi realizada com sucesso na Praça Antônio Carlos. "Ela foi agregada ao conjunto do Mascarenhas, tornando-se um espaço de lazer e eventos."

Como orientador de projetos de conclusão de curso na UFJF, Arbach defende a elaboração de trabalhos "realizáveis", que possam ocasionar, de fato, melhorias na sociedade local, como aconteceu com a pesquisa relativa ao Hotel Príncipe, que saiu do papel logo que defendida na universidade. Uma dessas propostas, que começa a ganhar corpo no próximo semestre letivo, tratará especificamente da apropriação da Praça da República.

 

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Proteção pontual

Contrária a quaisquer barreiras que impediriam o acesso à obra de Arcuri e Di Cavalcanti, a Oscip Permear questiona se o isolamento físico não se refletiria em um isolamento afetivo da obra. "Como o cidadão vai sentir que aquele monumento também o pertence se este estiver envolto por grades?", indaga Milena Andreola.

Outros arquitetos também lamentam o isolamento, mas são a favor de uma redoma de vidro para a proteção da obra, uma vez que a falta de educação estaria sempre expondo o conjunto ao risco do vandalismo e da depredação, além da própria deterioração climática. "Pensando exclusivamente no marco, sim, seria uma proteção, conforme aconteceu com o painel do Edifício Clube Juiz de Fora, ‘As quatro estações’, de Portinari. Mas é uma solução que não vai resolver nenhum outro aspecto", coloca Lourenço. "A proteção com vidro dificultaria o acesso dos vândalos. É uma possibilidade, mesmo que pontual, em respeito à memória da cidade e à memória dos artistas que a pensaram", completa Mascarenhas.

Cercá-lo, talvez. Transferi-lo, nunca. "Seria, no mínimo, estranho", assevera Lourenço. "Então, estamos interessados exclusivamente no objeto? Na arte urbana, os monumentos são pensados para habitar um determinado lugar", diz. A medida extrema passaria uma borracha na história da elaboração do bem. "Ele está ali porque aquela era a entrada da cidade quando não existia a BR-040. Quem vinha do Rio passava pela União e Indústria", lembra. "Não estamos falando de um único painel. Falamos de uma marco muitíssimo importante. Brasília estava a caminho. É um exemplar que dialoga com a história de Juiz de Fora, ponto alto do modernismo brasileiro", finaliza Mascarenhas.

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