
De carona na van que levava Donavon Frankenreiter para a passagem de som no Cultural Bar, “pesco” um pouco da conversa com o músico com os outros integrantes da banda, após um encontro e pocket show para os fãs juiz-foranos. “A quanto tempo estamos da praia?”, pergunta ele. “Umas duas e meia, três horas, do Rio”, estimou o produtor. “Olha que interessante, estamos a umas três horas do oceano, e definitivamente há uma cultura de surfe por aqui”, observa o artista, que, além de surfar profissionalmente, é um dos maiores expoentes da surf music mundial.
Habitué em solos brasileiros, Donavon fez seu début na noite da última quinta-feira em Juiz de Fora, dando início a uma turnê que passará por Rio, São Paulo, Brasília, Beagá e, claro, com passagem por spots tradicionais de surfe, como Bombinhas (SC) e Atlântida (RS). “Tenho sorte de poder vir ao Brasil, poder tocar aqui. Pra mim, é um país e uma cultura incrível, eu adoro. Tocar aqui é muito especial pra gente, é um lugar afetivo, os shows são lindos.” Em entrevista à Tribuna, o artista fala sobre mais uma temporada no Brasil, sobre os 20 anos de carreira solo e a relação com os fãs, e sobre seu último álbum “The heart”, um apurado apanhado de músicas com a maturidade de quem viveu seus 40 e poucos, mas com o frescor típico de quem passou a maior parte destes anos, literalmente, na crista da onda.
Tribuna – O que o traz ao Brasil nesta temporada?
Donavon Frankenreiter – Nós amamos vir ao Brasil. No verão, então estamos aqui para fazer 11 shows e, sabe… fazer parte de todas as coisas que o Brasil tem a oferecer. Adoramos ir à praia, surfar e adoramos conhecer novos lugares, como este aqui em que estamos hoje, numa casa como esta. Nunca vim a Juiz de Fora antes.
– Como “The heart” representa sua evolução como artista nos últimos 20 anos?
– Cada disco que a gente faz é um pouco diferente, porque você é uma pessoa diferente, as músicas são diferentes, e talvez a maneira como você se sente hoje é diferente de como se sentia há 20 anos, mas… é empolgante fazer um disco novo, porque você pode até escrever as canções ou trabalhar nelas, mas até estar gravado, não está de fato pronto. Eu realmente amo “The heart”, é um dos meus preferidos dos que já fizemos. E foi divertido, fizemos ao vivo na internet, pra todo mundo ver, fazendo uma música por dia em dez dias. Além disso, é divertido olhar para trás e ver que há dez discos por aí, dos últimos 15, 16 anos. É muito bom.
– Foi um trabalho bem afetivo e pessoal, né?
– Sim, por isso o nome é “The heart” (o coração, em inglês). Acho que muitas destas canções realmente englobam o que senti ao longo do ano passado e se aproximam das coisas que aconteceram nos últimos seis meses. Também foi muito interessante trabalhar com Grant-Lee Phillips, que é um grande cantor e compositor . Foi muito louco, em três semanas, fizemos umas oito músicas… Isso nunca aconteceu comigo antes! Isso foi um dos sinais de que as coisas estavam fluindo bem, então esse disco evoluiu naturalmente. Nada pensado de antemão.
– Em 20 anos de carreira, você certamente tem diferentes gerações ouvindo sua música, talvez pais, filhos… Como artista, como é ver isso acontecendo?
– É muito bacana, eu costumo perguntar aos produtores se a censura das casas é livre. Porque em alguns lugares dos EUA, só entram maiores de 21. Tocamos em lugares de censura livre, e são meus preferidos, porque vejo desde ninõs (crianças) até seus avós, e todos eles gostam da música. Às vezes, os filhos levam os pais, e eles gostam. Ou os pais dizem “Ei, vamos ver esse cara”, e os jovens podem pensar “Ah, ele é velho, não é maneiro”, e depois os pais me dizem: “Pô, eu trouxe meus filhos, e eles acabaram adorando”. É meio o que você sonha quando começa a carreira, que você possa envelhecer com seus fãs em vez de ser “o cara” por um ano e depois a galera querer ouvir outra coisa.
– E depois do Brasil, quais são os planos?
– Vou pra casa relaxar, ficar com minha esposa e meus filhos e depois vamos fazer turnê em março e abril, vamos para o Japão e EUA. A gente está sempre em turnê, ficamos 7, 8 meses no ano viajando, temos shows marcados pelos próximos 6 meses, e depois não está certo, mas, com certeza, vão aparecendo compromissos.

