
Cléber Eduardo fala com a Tribuna sobre a 18ª edição da Mostra de Cinema de Tiradentes, que discute “Qual o papel do cinema hoje?”
Enquanto as megaproduções postas de pé com valores milionárias invadem as salas de exibição de todo o país, uma outra vertente caminha à margem dos esquemas comerciais da indústria cinematográfica. Realizado, principalmente, por jovens que, antes de agradar o espectador, quer provocá-lo, muitas vezes contando com baixíssimos orçamentos, o segmento autoral tem na 18ª Mostra de Cinema de Tiradentes uma de suas principais vitrines. A maratona deste ano começa hoje e segue até 31 de janeiro, levando para o centro das discussões a relevância da sétima arte em tempos de novas tecnologias. “Neste momento do audiovisual, com tantas telas, câmeras e formas de reprodução, imagem e movimento, achamos interessante discutir que lugar restou para o cinema, já que ele não é mais a cultura visual hegemônica. Ele não é mais a tela protagonista da vida das pessoas. É um pouco para fazer um momento de reflexão, olhar o contexto em que a gente vive e se perguntar qual o espaço que sobrou para o cinema de autor”, assevera Cléber Eduardo, curador do evento e crítico de cinema.
Na edição de maioridade do festival, a programação apresenta 128 filmes brasileiros, sendo 37 longas e 91 curtas, distribuídos em 59 sessões. Nessa lista, estão três trabalhos de Juiz de Fora: o premiado no Primeiro Plano “Marx pode sair”, de Otávio Campos, Carol Caniato, Eduardo Malvacini, Rafaella Pereira e Stephanie Costa; “Apite”, dirigido por Matheus Engenheiro e Miriam Azevedo; e o vencedor do júri popular na Mostra Regional do Primeiro Plano “Sansão”, de David Azevedo. Para completar, os estudantes da UFJF Elisa Maria Rodrigues, Rodrigo Souza e Guilherme Landim integrarão o Júri Jovem da Mostra.
Entre as pré-estreias nacionais está o aguardado “Órfão do Eldorado”, que tem a homenageada do festival, a atriz Dira Paes, no elenco. De volta à sua cidade de infância, Arminto Cordovil, personagem de Daniel de Oliveira, é o herdeiro de antigos barões de borracha do Norte do país. Após viver uma relação incestuosa com a irmã, ele é expulso do lugar em que vive. O romance proibido é baseado em obra homônima de Milton Hatoum. No sábado, a estrela paraense de Abaetetuba e os cineastas Rosemberg Cariry (Ceará) e Guilherme Coelho (Rio de Janeiro) batem papo com o público, das 12h15 às 13h30, no Cine-Teatro Sesi.
Na entrevista que segue, Cléber Eduardo adiantou para a Tribuna um pouco do que rolará no seminário “Qual o lugar do cinema?”, agendado para amanhã às 10h30, também no Cine-Teatro Sesi, com a participação do cineasta Felipe Bragança e o crítico de cinema José Carlos Avellar. A mediação é do crítico Francis Vogner dos Reis. Para saber mais, basta acessar http://www.mostratiradentes.com.br.
– Em uma entrevista de 2010, você disse que os realizadores brasileiros mais interessantes não queriam “pegar atalho” para agradar o espectador e que o Festival de Tiradentes mostrava bem isso. Continua assim?
– O cinema brasileiro hoje é grande o suficiente, em termos de quantidade, para você ter segmentos muito distintos uns dos outros. Existe um segmento que só quer agradar o público, mas que tem feito, do ponto de vista da qualidade, filmes muito ruins. Não estou falando apenas das comédias, mas de filmes biográficos. A vertente que a gente trabalha em Tiradentes é mais autoral, mais inquieta. Digamos que é menos importante para os realizadores irem em busca deste público, até porque estes filmes que vão em busca de público maior tem uma estrutura muito maior de marketing e orçamento. Os filmes que entram para a mostra são de baixíssimo orçamento, alguns sequer são realizados com patrocínio ou com dinheiro dos editais.
– A proposta é desafiar o espectador?
– De fato, o objetivo não é atender o espectador, mas provocá-lo. Os filmes que buscam o público de uma forma mais industrial, mais massiva, sequer se inscrevem nos festivais de cinema, eles têm outra forma de vida cinematográfica. Acabam indo para os festivais as propostas mais autorais.
– Mas são os filmes industriais que acabam mostrando, para o grande público, a cara do cinema brasileiro atualmente…
– A questão que se coloca é se estes filmes já não estão completamente pensados, do ponto de vista estético, para a televisão. No caso dos filmes brasileiros, eu diria até que nascem com uma cara de televisão pior do que a televisão faz. Aí é uma outra questão que se coloca: “O que nós realmente estamos vendo do cinema?” Será que eles já não ficariam melhor acomodados no Netflix? Digo isso porque, no fundo, todo mundo já está produzindo para os Netflix da vida, nestas operadoras que têm um catálogo on-line com filmes o tempo inteiro. Elas já têm um público muito maior que a TV a Cabo.
– E o espectador está preparado para esse tipo de filme mais independente?
– Na mostra, os filmes são exibidos em três lugares: na tenda, que é um espaço para 600 pessoas; na praça, que, se estiver lotada, tem capacidade para mil pessoas; e numa sala menor, com 120 lugares, onde exibimos as produções mais radicais. As sessões são cheias. Claro que alguns filmes têm uma dificuldade maior de estabelecer uma relação com o espectador, mas também é um trabalho que está sendo feito há oito anos. A pessoa já sabe um pouco o que vai encontrar lá. Não tem mais esse espectador que cai de paraquedas, a não ser que ele esteja indo pela primeira vez.
– E tem muita gente produzindo filme com um perfil mais autoral?
– Tem uma quantidade enorme. Recebemos mais de cem inscritos. Nunca se produziu tanto no Brasil como agora. E, de fato, a maior parte de inscritos era de filmes muito independentes, de pessoas muito jovens, no começo da cenografia. Como a mostra tem um espaço muito grande reservado aos novos realizadores, também é normal que estes realizadores estejam mais empenhados em se expressar, expressar seus mal-estares, expressar suas dificuldades. Vem daí também essa linguagem mais autoral.
– E sobre o que esse pessoal jovem está falando?
– As questões políticas de uma forma geral estão mais destacadas. Às vezes, são questões políticas diretas, explicitamente abordadas. Às vezes, são questões políticas que são abordadas de uma maneira mais tangencial, não tão frontal. Há dois tipos de filmes recorrentes na nossa programação: tem um segmento em que os personagens estão confinados em determinados espaços, eles não se deslocam, ficam rodeando esses espaços. Em geral, dentro de uma casa, dentro de uma localidade muito pequena. E tem outra vertente em que os personagens se deslocam quase o tempo inteiro. Os personagens estão em constante deslocamento dentro de uma cidade ou entre cidades, muitas vezes sem uma motivação concreta.
Programação
desta sexta
Abertura – às 21h, no Cine-Tenda
Homenagem à atriz Dira Paes
Pré-estreia nacional do filme “Órfãos do Eldorado”, de Guilherme Coelho
Encontro de Cinema – 23h30, no Cine-Tenda – Bar-Lounge
Lançamento da Campanha #eufaçoamostra – Participação especial do músico Barulhista
Exposição “Mostra homenagem” – De 23 a 31 de janeiro
Das 10h às 21h, no Cine-Tenda
A exposição é uma instalação em painéis fotográficos que apresentam momentos marcantes da carreira da homenageada desta edição, a atriz paraense Dira Paes

